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30 de abril de 2019

Quem inventou a seleção natural?

Por: Angelo Tenfen Nicoladeli



O desenvolvimento das ciências é realmente uma questão fascinante: como novas ideias nascem e se expandem em relação a outros conhecimentos já desenvolvidos ou em desenvolvimento, como o local onde cada pessoa nasce, o contexto em que ela vive e suas relações pessoais influenciam sua forma de pensar. Porém, quando tentamos reconstruir o desenvolvimento de um fato científico em uma chamada história da ciência, dificilmente conseguimos deixar evidente a complexidade de eventos pelo qual um fato passa ao longo de sua teorização.

Por isso, não é incomum a presença de mitos na história da ciência. Mitos no sentido de algo que foge à realidade. Um exemplo é a ideia do cientista louco: aquela pessoa que se tranca no laboratório fazendo diversos experimentos com o objetivo de descrever a realidade da natureza. Ou ainda o mito de um cientista totalmente neutro em relação a sua posição dentro da sociedade, como se pensasse somente nas futuras descobertas, cujas motivações não teriam influência do seu meio político, social e cultural. 

Existem mitos da história das ciências que são muito famosos, como, por exemplo, o da maçã caindo na cabeça de Newton ou, ainda, a história da banheira de Arquimedes. Entretanto, a maioria dos mitos criados é muito mais sutil. Vale, lembrar, por exemplo, o apagamento de pessoas que foram importantes ou deram significativas contribuições para o estabelecimento de um determinado fato científico, como no caso de Rosalind Franklin e a dupla hélice do DNA.

Um dos mitos da história da biologia é o de que Charles Darwin, sozinho, foi responsável por criar a Seleção Natural. Neste texto, busca-se falar sobre o conceito de seleção natural e sua história. Procura-se mostrar a multiplicidade histórica que esse conceito apresenta e, com isso, ir além do estereótipo de que Darwin criou a evolução e também a seleção natural. 

Não se pretende aqui desmerecer Darwin e sua importância para as Ciências Biológicas como um todo. Ele construiu um grande trabalho de síntese em sua época e escreveu um livro de grande repercussão, causando um impacto significativo na comunidade científica e na sociedade em geral. Porém, ninguém gera conhecimento sozinho. A ciência é feita dentro de coletivos, e é somente dentro desses coletivos de pensamento, onde diversas pessoas trocam ideias e interagem, que são construídos os fatos científicos.  

Charles Darwin escreveu uma teoria da evolução por seleção natural em seu livro Origem das espécies¹ publicado pela primeira vez em 1859. Esse famoso livro teve ao todo seis reedições, sendo que a última edição foi lançada em 1872. Ao longo dessas edições, sua teoria geral sofreu certas mudanças, como o acréscimo da noção de mecanismos não seletivos como importantes no processo de diferenciação das espécies.

Se você já se deparou com a Origem em suas mãos, pode ter percebido que há um prefácio no livro intitulado ‘‘Nota Histórica’’, no qual o autor faz um breve resgate histórico sobre os naturalistas e intelectuais, que, segundo ele, já tinham refletido a respeito da origem da vida e suas modificações, indo desde Lamarck e Buffon até seus contemporâneos, como Richard Owen e Wallace. O interessante dessa nota é que ela foi incluída apenas na terceira edição do livro. Johnson, um historiador da biologia, argumenta em um de seus artigos que possivelmente Darwin teria escrito tal nota histórica devido à pressão de alguns pesquisadores que já começavam a reivindicar crédito por ideias desenvolvidas no livro.
Nesse sentido, Darwin acaba se concentrando apenas nos estudiosos que em sua época estavam exigindo crédito pelo conceito de seleção natural desenvolvido em seu livro, como, por exemplo, Owen, Patrick Matthew e Dr. William Charles Wells. Em oito páginas de nota história, em nenhum momento são tratados pensadores anteriores a Lamarck e Buffon. Porém, em quem esses dois pensadores se basearam? Eles desenvolveram seus pensamentos do nada? É preciso ter em mente que a geração espontânea dos conceitos é um evento raro, e conceitos são em sua maioria gerados a partir de seus descendentes.

Conway Zirkle propõe que a história do conceito de seleção é muito mais antiga e pode ser traçada através dos seguintes pensadores: Empédocles (400 a.C.), Lucrécio (99-55 a.C), Diderot (1749), Maupertuis (1756), Geoffrey St. Hillaire (1833), Wells (1813), Matthews (1831), Darwin (1858), e Wallace (1858); logo, iniciando na Grécia Antiga, passando pelo Império Romano e chegando por fim em Darwin e Wallace. Aqui vamos focar em Lucrécio, autor em que já se pode encontrar uma protoideia da seleção natural. Note-se, apenas uma protoideia, já que ainda não se identifica a ideia em si, formada inteiramente, mas tão somente uma predisposição histórica de uma teoria moderna.  Em outras palavras, em Lucrécio podemos encontrar vestígios de um estilo de pensamento, resquícios ou ainda fragmentos de um modo de raciocinar sobre o esforço pela sobrevivência e a permanência do mais apto.

Há pouca informação sobre a vida de Lucrécio (99-55 a.C). Historiadores acreditam que ele tenha vivido a maior parte dos seus 44 anos de vida na cidade de Roma e arredores. Lucrécio foi o responsável por reviver os pensamentos de filósofos gregos como Empédocles, Anaximandro, Demócrito e Epicuro que nessa época jaziam apagados pela influência platônica e estoica. Ele conectou essas reflexões antigas com suas próprias observações da natureza, e, assim sendo, foi capaz de escrever sua obra De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas), escrita na forma de poema e compondo um total de 7400 versos divididos em cinco partes, cada uma destinada a um tema específico. É na parte V que Lucrécio discorre sobre a formação do mundo, da vida e seu desenvolvimento. Fala também da infinitude do universo, além de conter fragmentos discutindo a luta pela sobrevivência⁴.

Como ilustrado na imagem a seguir, é possível perceber que Lucrécio utiliza como fonte e inspiração para sua obra diversos autores: da primeira fase do período naturalista da filosofia grega, ele trabalha com conceitos de Anaximandro; dos materialistas iniciais, Lucrécio se fundamenta em Empédocles e Demócrito; e, finalmente, do período materialista tardio, ele bebe da fonte de Epicuro. A partir do seu trabalho de  compilação, extração e síntese de trabalhos clássicos Tito Lucrécio Caro consegue escrever sobre inúmeros temas da filosofia natural. 
          
Sistematização dos períodos da filosofia grega |  Henry Fairfield Osborn (1929), From the Greeks to Darwin

Assim como Demócrito e Anaxágoras, Lucrécio acreditava que os seres vivos originavam-se diretamente da terra através da abiogênese ou geração espontânea, ou seja, que os organismos eram concebidos naturalmente a partir de matéria orgânica ou inorgânica, como se estas apresentassem o princípio ativo da vida. Por outro lado, da mesma maneira que Empédocles e posteriormente Epicuro, Lucrécio entendia que alguns desses seres originados da terra mostravam-se incapazes de sobreviver e eram, assim, substituídos por outros. Apenas aqueles que tinham as capacidades necessárias ao ambiente ou, ainda, aqueles que eram acoplados ao seu meio conseguiam sobreviver e gerar descendentes. 

Em De Rerum Natura, o autor expressa sua concepção da origem da vida através da geração espontânea aleatória. Esse caráter de aleatoriedade faz com que muitos seres surjam sem as estruturas necessárias para a sobrevivência e que outros não consigam crescer ou chegar até a maturidade. Ele destaca, nesse sentido, três características necessárias para sobrevivência das criaturas: alimentação, formação das sementes geradoras e o sexo. Lucrécio acredita em uma certa ligação entre as linhagens que sobrevivem; partindo do organismo originalmente formado até os que vemos atualmente, o sopro da vida foi protegido do início ao fim. O autor chega até a tecer algumas palavras sobre as transformações que a espécie humana foi sofrendo ao longo do tempo, de um tipo mais selvagem até os tipos modernos. Consegue perceber alguma semelhança com aquilo em que acreditamos atualmente?

Porém, é preciso ter cuidado com conclusões precipitadas. É fundamental relembrar que Lucrécio não acreditava na origem comum da vida, não aceitava algo parecido com a árvore da vida. Ele entendia que todas as espécies tinha sua origem especial: aquelas que não conseguiam sobreviver eram extintas, enquanto aquelas que conseguiam davam seguimento a suas linhagens. Existe, portanto, segundo ele, uma certa luta pela sobrevivência, na qual só alguns organismos permanecem na Terra. Contudo, em seu poema, o autor não aceita a transformação de uma espécie em outra, mas apenas transformações dentro da mesma espécie, já que cada espécie teria sua criação especial através da geração espontânea. 

Não podemos esquecer que Lucrécio era um homem de sua época. Compartilhava de um certo estilo de pensamento e participava de um coletivo específico de pensadores. Não podemos caracterizar seu pensamento como darwiniano ou darwinista, muito menos como evolutivo, já que esses modos de pensar só foram desenvolvidos muitos séculos depois. Lucrécio não expressa um pensamento evolutivo, mas sim anti-teleológico e mecanicista, uma oposição direta ao platonismo dominante em sua época. Lucrécio se vale do esforço pela sobrevivência e das extinções para explicar a adaptação de categorias de seres formados por geração espontânea, desenvolvendo uma escala de perfeição, o que constitui pensamento muito diferente do que hoje entendemos como evolução.

É preciso ter em mente que nem todo esquema que apresente extinções em sua formulação pode ser caracterizado como evolutivo². Enquanto atualmente as extinções entram como um conceito importante dentro do arcabouço evolutivo, antes de Darwin e Wallace a extinção era um argumento dos criacionistas contra a evolução, já que, se as criaturas pudessem se adaptar evoluindo em face das mudanças ambientais, não veríamos extinções de espécies no registro fóssil, não é mesmo?

Atualmente o conceito de seleção natural é definido pela união das seguintes afirmações: 1) Há uma imensa variabilidade nas populações naturais; 2) grande parte dessa variabilidade é herdada; 3) o sucesso na luta pela sobrevivência é dependente dessa constituição herdada; 4) essa sobrevivência desigual, ou reprodução diferencial, é o que constitui o processo de seleção natural. Lucrécio pensou em pelo menos uma dessas características, construindo assim as bases para aprofundamentos posteriores.


Referências Bibliográficas:

¹Darwin, Charles. A Origem das Espécies. 6. ed. Portugal: Planeta Vivo, 2009.

²Campbell, Gordon Lindsay, et al. Lucretius on creation and evolution: a commentary on De rerum natura, book five, lines 772-1104. Oxford University Press on Demand, 2003.

³Lucretius, Titus. On the Nature of Things. Tradução, introdução e notas de Martin Ferguson Smith. Indianapolis and Cambridge, Hackett. 2001.

⁴Greenblatt, Stephen. A virada. Editora Companhia das Letras, 2012.

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