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5 de dezembro de 2018

Tamanho do cérebro é documento quando falamos de inteligência?

Por Axel Fogaça Rosado, Patrícia Aparecida Ferrari e Vanessa Schadeck Deconto


É fácil perceber que o ser humano está longe de ser o maior mamífero em relação a tantos outros exemplos de animais terrestres e aquáticos, entretanto, dificilmente alguém irá afirmar que exista algum animal mais inteligente que o ser humano. Afinal, o que é inteligência? O que confere essa capacidade intelectual diferenciada aos humanos? Talvez você possa pensar na relação do tamanho do cérebro com o do corpo, resposta em parte correta. Mas primeiro vamos contextualizar seu o funcionamento analisandos significados e consequências dessa nossa capacidade intelectual comparada aos outros animais.

O corpo de um organismo tende a se desenvolver de forma harmoniosa para garantir a manutenção de suas necessidades, com o intuito de manter-se vivo. Conforme a complexidade corporal aumenta, é preciso que ocorra uma diferenciação em sistemas específicos, como sistema respiratório, sistema digestório, sistema nervoso, entre outros, para que esse equilíbrio seja mantido. 

Vamos pensar agora no sistema nervoso. Ele basicamente funciona como uma grande rede que capta estímulos externos do ambiente e internos do próprio corpo, para no fim gerar uma resposta adequada. É composto por uma variedade de células; entre elas há os neurônios, cujo funcionamento baseia-se nas comunicações feitas entre eles. Esse sistema, sobretudo, resume-se a captar as informações, integrá-las gerando uma resposta e, por fim, executar essas respostas. Por ser semelhante a uma rede, quanto mais células ou neurônios envolvidos nesta circuitaria, mais eficiente e complexa pode ser a resposta a um estímulo.

Ficou confuso? Tente associar a um computador, onde os clicks do mouse ou o teclado geram inputs (entradas de informação), o processador integra-as com os programas que possui, e a tela gera o output (saída ou resposta adequada à esses estímulos).

E a inteligência onde entra nisso tudo? Sua definição e compreensão ainda são motivo de debate, já que envolvem diferentes aspectos, como conhecimento, criatividade, resolução de problemas e formas de integrar as informações obtidas do meio ambiente. Logo, sabemos que atualmente a “inteligência” pode ser compreendida como uma série de conjuntos necessários para realizar algo, como assimilar, processar e resumir. Isso é bem visível a partir de contextos específicos nos quais existem diferentes formas de “inteligência”, como a musical, verbal, lógico-matemática, espacial, cinestésica, intrapessoal e interpessoal¹. 

Mas afinal, como podemos medir a inteligência de um organismo? Contar o número de neurônios do cérebro e associar essa medida aos comportamentos observados de um animal de acordo com a complexidade? A pesquisadora Suzana Herculano-Houzel explica neste vídeo o que o cérebro humano tem de tão especial.

Figura 1. Esquema representando as diferentes características anatômicas do cérebro dos animais | Fonte: Herculano-Houzel (2012)

Número de neurônios x volume do cérebro

É comum a ideia citada acima de pensar no funcionamento do sistema nervoso como baseado nas interações e nas redes formadas entre os neurônios; entretanto, na prática, essa afirmação não é tão simples de ser respondida.

A partir da pesquisa de Herculano-Houzel foi possível contestar algumas relações evolutivas sobre a inteligência. Diferentes volumes corporais possuiriam variados tamanhos de cérebro, pois necessitariam de neurônios em quantidades adequadas para suportar as demandas do corpo ao executar uma atividade. Assim, comparando vários mamíferos, conforme sua massa corporal aumenta ou diminui, o volume cerebral acompanha essa proporção. Então, os animais maiores seriam os mais inteligentes? Tendo em vista essa relação, seria viável afirmar que dentre os mamíferos terrestres, o elefante pelo seu volume corporal seria o animal terrestre “mais inteligente”. Parece estranho, não? De fato é, um estudo de Houzel em 2017 indicou que vertebrados menores podem apresentar comportamentos tão ou mais complexos que os dos elefantes, como os macacos, golfinhos, corvos, papagaios e os humanos.

Como justificar essa complexidade maior e variada de inteligência em animais que possuem um menor número de neurônios?

Quantidade de neurônios x inteligência

Nesse caso, a quantidade de neurônios no cérebro do animal é apenas parte da equação para decifrar seus comportamentos e sua inteligência. Então por que apesar do elefante possuir uma quantidade superior de neurônios, ele não é mais “inteligente” que os seres humanos? Essa questão reside no fato da distribuição desses neurônios não ser padrão entre as espécies, ela não segue uma tendência exata entre os diferentes seres vivos, cada grupo possui uma anatomia cerebral levemente distinta.

Nos elefantes, por exemplo, a maioria dos neurônios está concentrada em uma estrutura chamada de cerebelo, que é responsável pelo controle dos movimentos, como foi demonstrado no estudo de Suzana Herculano-Houzel e co-autores em 2014. Já na região do córtex cerebral - área responsável por funções mentais mais complexas, como a atenção e o raciocínio - os elefantes apresentam um número menor de neurônios em comparação com o cérebro de um ser humano. Portanto, a diferença crucial estaria no número de neurônios concentrados no córtex cerebral, e não na quantidade total de neurônios no cérebro todo. No fim, a distribuição desses neurônios é mais importante para efeitos de comportamento do que a suas quantidades, embora, mesmo com essa diferença de distribuição neural, os elefantes possam apresentar comportamentos típicos associados aos humanos, como o interesse maior por esqueletos e cadáveres de indivíduos de sua própria espécie quando comparado aos de outras espécies.

Referências:

¹ GAZZANIGA, Michael S.; HEATHERTON, Todd F.. Ciência Psicológica. 2. ed. São Paulo: Artmed, 2007. 624 p.

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