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19 de junho de 2018

É possível alterar ou apagar uma memória?


Pôster minimalista do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças | Autoria desconhecida. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/206743439122485488/




A memória tem uma natureza dinâmica. Apesar de nossa forte tendência de vê-la como uma representação precisa de eventos do passado, os estudos científicos sugerem que memórias não são entidades tão fixas como pensamos e podem estar sujeitas a mudanças.


O processo de formação de uma memória começa pela percepção de algum estímulo proveniente de uma experiência (poderíamos chamar também de percepção de uma “informação”), que será codificado pela ativação de determinados neurônios. A essa primeira etapa, damos o nome de aquisição. Assim, na aquisição ocorrerão mudanças físicas em neurônios do cérebro, formando um primeiro engrama e a chamada memória de curta duração, que pode então passar por processos fisiológicos que a estabilizarão e armazenarão no formato de uma memória de longa duração. A esse processo de formação da memória de longo prazo se dá o nome de consolidação (atenção aos termos em negrito).


Ok, mas afinal conseguimos de alguma forma alterar ou apagar uma memória? Talvez você já tenha assistido a um filme chamado Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças em que isso era possível sim (spoilers adiante). Foi o que os protagonistas Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) fizeram ao se submeter a um tratamento para apagar as memórias que um tinha do outro em vista de um relacionamento fracassado. O tratamento funciona e apaga totalmente as lembranças que um tem do outro. Claro que é uma ficção, mas será que a ciência poderia fazer isso no mundo real?
Existe uma situação em que uma memória já consolidada pode estar mais suscetível à interferências e alterações. Essa situação é chamada de estado lábil. Para colocá-la nesse estado, é preciso realizar sua reativação, a partir de algum tipo de estímulo lembrete. São esses estímulos que trazem à tona (ou seja, geram lembranças) essa memória aprendida anteriormente. Por exemplo aquele perfume do seu namorado ou namorada, se você sentí-lo em outra pessoa, pode acabar lembrando do seu parceiro. Após a evocação e a consequente labilização dessa memória, ela deve passar por um processo de reconsolidação para voltar a se estabilizar. Esse processo é gradual e perdura por algumas horas, perturbações durante esse período vão afetar diretamente o traço original da memória. Passado esse período, a memória é fixada e não pode mais ser modificada até uma nova labilização. A Figura 1 abaixo resume essas etapas.



Figura 1: Representação gráfica do processo de aquisição, consolidação, reativação e reconsolidação da memória | Autoria própria, adaptado de Franzen (2018)¹



Portanto é nesse momento de reconsolidação que novas informações podem ser incorporadas, gerando uma memória atualizada, ou seja, modificando ela. Bom, mas que perturbações são essas? É para responder essa pergunta que muitos estudos são feitos, tanto com técnicas farmacológicas como comportamentais.


A aplicação de fármacos no cérebro é feita em laboratórios. Testes mostraram que a memória pode ser prejudicada ao se aplicar um inibidor de síntese proteica após a reativação e durante a reconsolidação. Porém outros fármacos permitem que as memórias reativadas sejam potencializadas pelo aprimoramento de processos neuroquímicos ou celulares. Os diferentes caminhos que a memória pode tomar a partir de seu estado lábil estão resumidos na Figura 2. As interferências comportamentais (durante o período de reconsolidação) também podem causar amnésia, fortalecer a memória ou pôr em conflito entrelaçando  informações novas com as já existentes, desencadeando modificações nas lembranças futuras. Por exemplo, aprender uma nova lista de objetos após a reativação de uma lista previamente aprendida fez com que itens do segundo aprendizado se infiltrassem na memória da primeira lista. Essa característica de atualização de memórias é especialmente relevante para transtornos psiquiátricos relacionados à emoção, como o TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático), pois permite a modificação de memórias emocionais exacerbadas ou traumáticas com o intuito de reduzir seu impacto problemático.



Figura 2: Representação gráfica dos caminhos da memória após a reconsolidação. A partir de interferências, ou não, ela pode tomar o caminho do reforço, manutenção ou enfraquecimento. Autoria | Autoria de Franzen (2018)¹



Voltando ao filme do Jim Carrey, é curioso lembrar que o tratamento consiste em pegar todos os objetos que lembrem a pessoa a ser esquecida e apresentar um a um para o paciente enquanto os médicos fazem uma ressonância magnética do cérebro para saber onde o engrama está se formando. No mesmo dia à noite eles vão à casa da pessoa, que está sedada, e acoplam um aparelho à cabeça dela. Esse aparelho realizará algum procedimento não invasivo de apagamento de memória. Seria como se eles primeiramente dessem o estímulo lembrete para labilizar as memórias e durante o período de reconsolidação fizessem uma interferência amnésica nos engramas já conhecidos por eles. Porém, na vida real, a reconsolidação não apaga memórias. Os estudos da reconsolidação em humanos têm mostrado que a pessoa ainda se lembra do que aconteceu, indicando que o componente emocional da experiência (se ela é positiva ou negativa) é o que seria atenuado. Isso é bom porque não alteraria o histórico dela, sendo então uma vantagem ética importante. Portanto Joel e Clementine depois do tratamento talvez lembrariam um do outro, porém sem a carga afetiva que possuíam antes.


Outro momento que a memória está lábil é logo após a aquisição, pois ela é ainda de curto prazo e deverá ser consolidada para se estabilizar em nosso cérebro. Esse processo dura poucas horas também, e é semelhante ao de reconsolidação, com diferenças nas proteínas utilizadas e receptores envolvidos. Como a memória de curto prazo está instável nesse período, a injeção de um inibidor de síntese proteica produzirá um efeito amnésico, porém não completo. Sim, a memória poderá praticamente desaparecer antes mesmo que ela se fixe no cérebro. Como dito, esses procedimentos com fármacos são feitos em laboratório, mas em princípio interferências não farmacológicas (comportamentais por exemplo) devem ter também a habilidade de modificar ou apagar memórias ao influenciar nos processos de consolidação e reconsolidação.

Ilustração que demonstra a diversidade de informações e memórias formadas ou alteradas diariamente por nós | Autoria desconhecida. Fonte: http://psicofisiologiacuc.blogspot.com/2016/10/intervencion-del-sistema-nervioso-y_19.html


A existência desse processo de reconsolidação levanta uma importante questão: qual sua função adaptativa? seu papel biológico? Há várias discussões no meio acadêmico sobre isso, mas muitos sugeriram que a flexibilidade das memórias é fundamental para permitir que constantemente as memórias sejam atualizadas de acordo com novas experiências, o que é muito relevante, tendo em vista as mudanças circunstanciais de cada nova situação a que nos submetemos, todos os dias. Uma mesma situação nunca se repete exatamente como ocorreu inicialmente, por isso precisamos estar atentos e exibir respostas dinâmicas perante um ambiente dinâmico.


Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa
Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Cada prece é aceita, e cada desejo realizado
- trecho do poema “Eloisa to Abelard” de Alexander Pope -





Referências:
¹ FRANZEN, Jaqueline Maisa. Efeito do Midazolam Sobre A Reconsolidação e a Extinção da Memória Aversiva Contextual em Ratas. 2018. 124 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Pós-graduação em Farmacologia, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.

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