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18 de maio de 2018

De couro até drones: possibilidades de criação com fungos

Produtos de arquitetura criados a partir de fungos | autoria desconhecida

Sabe aqueles bolores verdes que surgem no seu pão? Aquelas manchas escuras no teto do banheiro? Ou mesmo algumas doenças, como a candidíase, e até mais graves, aspergilose, por exemplo? São essas algumas das referências que fazem com que os principais fungos conhecidos sejam os bad guys do Reino Fungi.

No entanto, eles também são os produtores dos famosos queijos, como o gorgonzola e o camembert, produzidos a partir de fungos do gênero Penicillium spp., e ainda muitos têm ótimas propriedades como antibióticos contra várias infecções bacterianas inconvenientes.

Todas essas suas particularidades não estão à altura do potencial que carregam. Por exemplo, experimente imaginar-se com aquela jaqueta de couro maneira para conquistar o crush. Esse couro, na realidade, não é feito de boi, mas de micélio, estrutura vegetativa de grande parte dos fungos. Parece ficção científica? Talvez. E se pudéssemos fabricar nossas embalagens de isopor com a ajuda de fungos? Ou, ainda, construir um drone a partir de micélios?

Tudo isso é possível! Genial, não? Essas grandes inovações que buscam trazer os fungos como aliados no nosso dia a dia já são contemporâneas a nós.

A partir de uma pesquisa financiada pelo Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (US NSF), desenvolvida pela Rensselaer Polytechnic Institute e feita por Eben Bayer e Gavin McIntyre, dois pós-graduandos na época, surgiu uma alternativa para solucionar o uso indiscriminado do isopor, material não biodegradável que demora milhares de anos para se decompor. 

Eles recorreram aos fungos, organismos pouco conhecidos, mas que atendiam a todas as características para um substituto do isopor, já que o micélio suporta altas e baixas temperaturas e tem tempo de degradação rápido. Isso era apenas o começo da experimentação desses seres como solução!

Assim, em 2004, os antigos alunos abrem uma empresa, a Ecovative. A partir disso, começam a criar novos produtos com micélio como tijolos e artigos de decoração, mas seu carro-chefe ainda é o isopor micelial, o Mycobond.

Aparatos fundamentais na produção do MycoBond | adaptado de Ecovative 

O uso de fungos revolucionou e impulsionou novos empreendimentos e a criação de empresas (a Mycoworks, por exemplo) que produzem peças de vestuário que mimetizam o couro, utilizando apenas a parte vegetativa desses organismos.

Produtos desenvolvidos a partir de micélio | adaptado de Ecovative e MycoWorks

Você quer mais? Desde da descoberta da penicilina, um potente antibiótico produzido através do fungo Penicillium notatum, e a partir da Segunda Guerra Mundial, em que foi produzido em larga escala o medicamento, esses seres tornaram-se alternativa de matéria-prima para variados produtos.

Além disso, muito investimento está sendo feito para o uso deles na biorremediação, visando a recuperação de áreas ambientais afetadas por alguma substância química com uso de fungos. Por exemplo, associações e organizações já bem conhecidas, como a de Paul Stamets, investem em pesquisas na regeneração de áreas afetadas com derivados do petróleo. 

E, para finalizar, novos projetos quase futuristas estão acontecendo. Estudantes das universidades de Stanford, Spelman e Brown,  em parceria com a Ecovative Design e a Nasa, produziram um drone biodegradável. Esse protótipo participou, em 2014, na Competição Internacional de Máquinas Geneticamente Modificadas. Foram aproveitadas as propriedades inerentes da formação do micélio, composto por biomoléculas bem estruturadas, em que a base do drone é construída em poucas semanas, apenas com a inoculação do fungo desejado (no caso Streptomyces capreolus). Depois dessa etapa é realizada a esterilização para cessar o crescimento do organismo.

Drone biodegradável produzido a partir de micélio | Forbes

Todas essas possibilidades com o uso do micélio indicam como ainda não conhecemos bem esses seres conterrâneos a nós, que há tempos ocupam nichos ecológicos importantíssimos na biosfera. 

A partir deles, sabe-se de inúmeras interações benéficas e maléficas com outros organismos, como a associação com cianobactérias e/ou algas, formando os líquens e o parasitismo por fungos, como do gênero Cordyceps, em alguns insetos. Ademais, através de algumas dessas relações ecológicas, por exemplo as micorrizas, garantiram a conquista terrestre pelas plantas, elas gerando produtos da fotossíntese e eles auxiliando na absorção e fixação de nutrientes. 

Por isso, fungar não é só sinônimo de estragar, às vezes é justamente o contrário e necessário. Então não se engane! Os fungos sempre estiveram presentes no nosso cotidiano, só precisamos dar a chance de descobrir suas capacidades.

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