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26 de abril de 2018

Sereias de verdade pesam mais de 300 kg


O mar está agitado e seus sentidos já não estão mais em dia graças ao balanço do navio. Um vai e vem infindável e uma saudade da terra firme, a qual os seus pés já não tocam a muito tempo. Depois de algumas bebidas a bordo, e quando o mar começa a acalmar, um canto suave é ouvido. Não é possível! Será que um dos tripulantes escondia uma voz angelical de mulher? Mas, e o que seria aquela forma tão bonita, com aqueles lindos cabelos longos, lá no horizonte, sentada em uma pedra? Parece que o canto vem de lá, e ele parece tão convidativo!

O mito das sereias é universal, em qualquer lugar do mundo já se ouviu histórias de homens navegantes que escutavam um canto enfeitiçador vindo dos mares e morriam afogados graças a ele. A figura da sereia (nome grego que tem o significado de: meio mulher, meio peixe) também é praticamente a mesma em todos os lugares: uma linda mulher de cabelos longos, com voz encantadora e uma cauda de peixe surpreendente no lugar das pernas e pés. Mas, você já pensou como pode, em tantos lugares diferentes, esse mito ter aparecido? E o que era a tal figura que eles avistavam? Seria possível uma mulher híbrida estar cantando para enfeitiçar homens marinheiros?

Com algum tempo de pesquisas, se chegou a uma conclusão e para a entendermos bem, é necessário que tenhamos compreensão do que era ser um marinheiro naquela época. Imagine que você é aquele marinheiro descrito no primeiro parágrafo deste texto: sem ver terra firme por muito tempo, com o balanço do mar constante alterando seus sentidos e provocando enjôos, e o mais importante: com bebidas fortíssimas e algumas intoxicações alimentares. O resultado de tudo isso? Alucinações, muitas alucinações! Mas, elas não eram sem fundamento, no final das contas os marinheiros, de fato, viam uma figura misteriosa no mar: uma forma que pesava em média 300 kg. 

A Ordem Sirenia, representada pelos únicos mamíferos aquáticos essencialmente herbívoros, recebeu esse nome justamente por conta do mito da sereia, e os membros atuais dessa ordem são os famosos peixes-boi (ou manati) e dugongos. Acredita-se que o que os marinheiros viam no mar eram peixes-boi repousando, animais com um corpo robusto, membros posteriores ausentes, cauda achatada e mamilos nas axilas. Os longos cabelos que eles atribuíam à lindas mulheres? Nada mais, nada menos do que algas que ficavam presas na cabeça desses mamíferos quando eles iam pra superfície. 


Peixe-boi (foto 1) e dugongo (foto 2). A principal diferença entre esses dois mamíferos é o formato da cauda: enquanto o dugongo tem uma cauda parecida com golfinhos, os peixes-boi possuem cauda em forma de leque. Além disso, perceba que o formato do corpo do dugongo é mais “hidrodinâmico”. 

Esses animais habitam rios, estuários e águas oceânicas costeiras rasas, e há apenas duas famílias viventes atualmente: Dugongidae, com duas espécies (Dugong dugon e a extinta Hydrodamalis gigas, conhecida como vaca marinha de Steller), e Trichechus, onde encontram-se as três espécies de peixe-boi: Trichechus senegalensis, Trichechus inunguis e Trichechus manatus

O fato dos mamilos dos peixes-boi serem nas axilas pode ter contribuído para a confusão desses seres com mulheres, já que quando uma fêmea amamenta, ela pode segurar seu filhote de forma semelhante aos seres humanos! Uma curiosidade é de que esses animais foram os primeiros mamíferos marinhos brasileiros a serem descritos, já nos anos 1500, e hoje nós contamos com espécies no nordeste e no Rio Amazonas

Ao mesmo tempo, todas as quatro espécies de Sirenios viventes estão ameaçadas de extinção, sendo que este é o mamífero aquático mais ameaçado de extinção do Brasil. Aqui, eles são protegidos por uma lei ambiental desde 1967, mas apenas na década de 80 é que se deu mais atenção à questão da proteção desses animais, com a criação do Projeto Peixe-boi Marinho. 

Legenda: Peixe-boi amamentando seu filhote dentro da água. Perceba a localização das mamas: na axila! 
Bom, agora a gente consegue entender melhor da onde surgiu tudo isso, né? A intoxicação, bebedeira e desidratação tomaram a frente e pegaram o trabalho de fazer com que um peixe-boi ficasse mais formoso e também perdesse uns quilinhos pra parecer com uma linda mulher. Não fica engraçado pensar que O GRANDE Ulisses, em a Odisséia, teve que ser amarrado no mastro do navio e fazer a tripulação inteira tapar os ouvidos com cera, só pra não ser tentado por um mero peixe-boi? 

The Sirens and Ulysses por William Etty, 1837 - o quadro mostra uma cena de Odisseia, de Homero, onde Ulisses resiste à tentação das sereias ao ser atado pela tripulação, enquanto eles tapavam os próprios ouvidos.


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