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1 de fevereiro de 2018

O dia em que a Ciência forçou pássaros a assistirem TV

Ilustração de chapim-real (Parus major) | Autor: Basil Ede
Muitos dos animais impalatáveis (ou seja, que possuem um sabor muito ruim), tóxicos, peçonhentos ou venenosos possuem cores fortes e vibrantes, associadas muitas vezes com os padrões de manchas e listras pelo corpo que chamam a nossa atenção pela beleza exuberante. Engana-se, entretanto, quem pensa que esses animais andem por aí exibindo suas cores e desenhos com a ingênua intenção de que sua arte seja apreciada. Seus corpos indiscretos fazem parte de uma grande campanha publicitária para que predadores em potencial fiquem longe e não ousem se alimentar deles. Esse padrão de cores de alerta recebe um nome grande e feio: coloração aposemática, enquanto a estratégia em si é chamada de aposematismo.
Um polvo-de-anéis-azuis (gênero Hapalochlaena) com sua característica coloração aposemática. A quantidade de veneno dessa criaturinha simpática é o suficiente para matar mais de 20 seres humanos em poucos minutos | Autor: desconhecido
A eficácia dessa coloração aposemática em fazer com que predadores optem por deixar esses animais em paz é tamanha que, outros animais — que não são tóxicos, peçonhentos ou venenosos e são até bem saborosos se você usar os temperos certos — modificaram-se, ao longo de sua história evolutiva, de forma que seus corpos tenham tornado-se extremamente parecidos com os corpos dos animais que possuem a coloração aposemática, em uma forma de mimetismo que recebe o nome de mimetismo batesiano.

Porém, quando trata-se de aposematismo e mimetismo, uma peça parece não se encaixar: se todos os predadores precisam atacar suas presas (levando-as à morte na maior parte das investidas) para perceberem que isso é uma péssima ideia, seria então pouco provável que o aposematismo obtivesse algum sucesso em persistir como uma estratégia defensiva eficaz entre os animais, ou até mesmo chegar a desenvolver-se.


(A)

(B)
Na imagem (A), uma falsa-coral não-peçonhenta (Oxyrhopus guibei) mimetizando o padrão de cores e listras de uma coral-verdadeira (Micrurus corallinus) extremamente peçonhenta | Autores: Sacramento (Imagem A) e desconhecido (Imagem B)
Convenhamos, animais aposemáticos são alvos fáceis para até mesmo o mais incompetente e míope dos predadores e, diferente de algumas aves que utilizam as cores exuberantes para atrair a fêmeas, o risco que animais dotados de cores vibrantes correm ao estar tão expostos não é diretamente compensado pela possibilidade de deixar um maior número de filhotes. Então a incógnita manteve-se por muito tempo: como o aposematismo pôde ter emergido e obtido sucesso evolutivo e como persistiu, se, em um primeiro momento, ele nunca protegeu ninguém? Afinal, um sinal de alerta só é eficaz se o predador já souber o que aquilo significa, e, surpreendentemente, boa parte dos predadores não nascem sabendo que devem evitar animais com coloração aposemática, mas o fazem por algum motivo, até mesmo quando o animal em questão estiver apenas mimetizando um padrão aposemático (em outras palavras: imitando uma coloração chamativa).

Para entender esse dilema que alguns biólogos enfrentam há anos, é necessário recorrer a um pouco de imaginação e usar a fabulosa arte de contar histórias.

Imagine a seguinte situação:

Você é um chapim-real (Parus major). Você está há muitas horas sem alimentar-se e tudo o que seu bico tocou ao longo do dia não foi nada além de pedaços de pipoca mofada que tiveram de ser disputados arduamente com um grupo de pombos moribundos em uma praça melancólica e fria de alguma pequena cidade. Você é um animal versátil e sua dieta é bem variada, incluindo, às vezes, até mesmo parte de outros animais, como cérebros de morcegos e pardais desavisados. Infelizmente, para você, não é uma boa época do ano para conseguir alimento. Seu estômago ronca tão alto que você já não consegue mais escutar seu próprio canto. Eventualmente, você pega-se pensando em como as coisas seriam muito mais fáceis se tivesse nascido como um dos belos e inteligentes corvos (gênero Corvus). Eles passarão, você passarinho.

 Eis que então, já cansado de sentir pena (ou penas, no caso) de si mesmo, você nota que a vida aparentemente lhe deu uma colher de chá: no topo de uma pedra, próxima a você, repousa uma linda e colorida lagarta. Suas cores e seu padrão de manchas e listras são tão marcantes que fazem um letreiro neon com os dizeres “Por favor, eu estou aqui, venha me devorar!” parecer algo ridiculamente discreto e insignificante. Um único pensamento então lhe ocorre: “Hora do jantar!”.

Entretanto, você percebe que não é o único por perto com a intenção de encher sua moela. A poucos metros de você, outro chapim-real faminto observa atentamente o majestoso inseto. Não haverá diálogo, será uma competição, e você terá sorte se puder petiscar um pedacinho no final. Como a vida selvagem não dá espaço para a hesitação, ele parte para o ataque assim que nota sua presença, investindo precisamente contra o inseto. O seu adversário riria de você se pássaros pudessem rir.

Todavia, logo em seguida ao banquete, algo inesperado ocorre: o competidor repentinamente começa a chacoalhar freneticamente sua pequena cabeça, em espasmos repetitivos e intensos. Assustado, alça vôo desnorteadamente, em busca talvez, de uma fonte de água para aliviar o sabor horrível que agora predomina em seu paladar, mas sucumbe e despenca morto dos céus poucos metros depois. No fim das contas, o sabor da vitória não foi tão bom assim.

Outra lagarta, similar a que acabou de ser devorada, move-se despreocupadamente pelo gramado. Você até cogita atacá-la, mas desiste da ideia quando recorda-se do que houve com seu semelhante há poucos minutos. Você entendeu o recado que as cores passam: “Eu sou encrenca, não mexa comigo, idiota!”.

Satisfatoriamente você encontra algumas sementes e moscas por perto, e após a refeição, alça voo rumo à praça de alguma pequena cidade para roubar pedaços de bolacha de pombos moribundos.

Bem, a narrativa acima pode parecer um pouco exagerada, e propositalmente é, porém ilustra uma coisa que, a princípio, parece óbvia demais para ser levada em conta: assim como nós, seres humanos, os animais também podem aprender com os erros de outros animais. 



Em um experimento realizado com esses mesmos chapins-reais, pesquisadores usaram dois tipos de pequenos pacotes de papel contendo comida, dispostos em um local que simulava o ambiente natural dos pássaros: o primeiro foi marcado com cruzes e pouco destacava-se do ambiente, possuindo uma padrão mais críptico (isto é, um padrão camuflado); o segundo pacote, marcado com quadrados, contrastava com o padrão do ambiente e continha comida encharcada com fosfato de cloroquina, uma toxina suave e extremamente amarga que estimularia o processo de aprendizado associativo das aves da mesma maneira que dito no quadro anterior. Os pesquisadores dividiram então as aves em dois grupos: o primeiro grupo, antes de iniciar o experimento, assistiu a um vídeo em uma TV onde uma outra ave alimentou-se do pacote contendo a comida com a toxina, enquanto naturalmente reagia em desaprovação ao conteúdo desse pacote. O outro grupo de aves, logicamente, serviu como o grupo de controle, e participou do experimento sem passar pelo processo inicial com o vídeo. Isso permitiu aos cientistas reduzirem as chances de interferências no experimento e diminuiu a probabilidade de que os resultados obtidos pudessem ter sido uma mera questão de coincidência.


O resultado não foi uma surpresa. A maioria das aves que assistiu ao vídeo, rapidamente escolheu o pacote menos chamativo, enquanto entre as aves que não assistiram e, consequentemente, não estavam cientes dos “perigos”, o tempo para tomar uma decisão era maior, levando-as, na maior parte das vezes, à escolha do pacote contendo a comida amarga. Com esses dados e fazendo o uso de modelos matemáticos complexos para inferir a dispersão dessa informação dentro de uma população de predadores, os pesquisadores chegaram a conclusão de que a tendência dos predadores a evitar presas conspícuas (isto é, visualmente chamativas) após o contato com a informação desencorajadora (seja a natureza do contato direta ou indireta, como, por exemplo, ter observado a desgraça do coleguinha), resultaria em um cenário onde a quantidade de presas restantes no ambiente daria margem o suficiente para que a população de presas pudesse sobreviver, crescer e onde a coloração aposemática desenvolveria-se, tornando-a uma estratégia viável para evitar tornar-se o almoço de alguém. 

Esse comportamento, onde um chapim-real tornou-se ciente dos riscos em alimentar-se de um animal com coloração aposemática após observar os efeitos negativos do ato em outro indivíduo, passando a evitar o ato, é característico de um processo curioso chamado transmissão social.


A transmissão social ocorre quando uma mudança no comportamento de um indivíduo, ou uma informação (chamada informação social), é transmitida a outros indivíduos pelo convívio. Essas mudanças comportamentais são imitadas ou emuladas a partir da observação (onde ações diferentes são utilizadas visando um mesmo resultado), em um processo chamado aprendizagem social. Os motivos que levam à mudança de comportamento de um grupo podem estar relacionados às vantagens imediatas trazidas por sua execução ou ao próprio caráter social do ato em si, onde reproduzir um comportamento estreita a relação entre indivíduos de uma mesma população. Em outras palavras, agir de uma determinada maneira pode torná-lo descolado e fazê-lo ser socialmente aceito pelo bando. Essa transmissão social pode ocorrer tanto horizontalmente, entre indivíduos de uma mesma geração, quanto verticalmente, entre indivíduos da geração parental para a sua prole, e existem casos onde até mesmo entre indivíduos de espécies diferentes.

Etólogos (cientistas que estudam o comportamento animal) já identificaram essa transmissão de informação e aprendizagem social em diversos outros animais. Um dos casos mais famosos é o dos macacos-japoneses (Macaca fuscata), documentado por Kinji Imanishi na década de 50.

Na ilha de Koshima, no sul do Japão, uma jovem macaca foi vista retirando cuidadosamente a areia de suas batatas (que eram oferecidas pelos pesquisadores), lavando-as nas águas da praia. Algum tempo depois, outros macacos jovens estavam imitando aquele comportamento e, posteriormente, ensinando-o aos macacos mais velhos do grupo. Eventualmente, nas gerações seguintes, os macacos mais velhos (que foram ensinados pelos jovens) ensinaram os macacos mais jovens a lavar suas batatas. No fim, o comportamento, inicialmente observado em um único indivíduo, gradualmente espalhou-se pelo grupo de macacos da ilha, e lavar batatas nas águas da praia de Koshima havia tornado-se o esporte nacional.

Macacos-japoneses lavando suas batatas tranquilamente na praia. Acredita-se que o processo de lavar o alimento eliminava a areia, além de salgá-lo com a água marinha, tornando-o mais saboroso e mais fácil de comer | Autor: desconhecido

Essas diferenças comportamentais (tanto entre quanto dentro de uma mesma população) apontam que a informação social também pode atuar como um fator-chave para compreender mudanças no curso do processo evolutivo (como no caso de terem favorecido a emergência e persistência da coloração aposemática como estratégia defensiva) e, posteriormente, nos guia a um melhor entendimento de como isso pode levar às diferenças marcantes entre grupos de indivíduos de uma espécie.

Cetáceos e aves, por exemplo, possuem vocalizações e cantos diferentes dependendo da região geográfica habitada por suas populações; as preferências sexuais de fêmeas de moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster) podem ser transmitidas socialmente entre as fêmeas; corvos (gênero Corvus), macacos-prego (gênero Sapajus) e chimpanzés (Pan troglodytes) utilizam a informação social para confeccionar suas próprias ferramentas, enquanto galinhas (Gallus domesticus) e muitos símios possuem redes de aprendizagem social incrivelmente complexas. Até mesmo o processo de domesticação de cães e cavalos também relaciona-se com a transmissão de informação a partir da observação e imitação.

A quantidade de estudos que abordam a aprendizagem social e o papel da transmissão social na sobrevivência dos seres vivos cresce com o passar do tempo, levando a inevitáveis discussões fervorosas acerca da possível existência de culturas animais análogas à cultura humana. Seja como for, uma coisa é certa: a capacidade de construir e transmitir um conhecimento não é algo exclusivo de nossa espécie, e talvez apenas a complexidade desse processo seja diferente.


Você disse "lagarta na manteiga"? Corvo-do-havaí (Corvus hawaiiensis) usando graveto para "pescar" sua presa. Essas aves demonstraram ter muita facilidade em aprender esse comportamento uma com as outras | Autor: Ken Bohn/San Diego Zoo Global


Um comentário:

  1. Falou lagarta na manteiga.. e coberta de açucar? hahahh nunca confie em um pica-pau, inclusive acho que o azul e vermelho deles deve ser uma coloração aposemática pra você evitar encrencas.

    Parabéns pelo artigo Alyson, está de muita qualidade mesmo, dava até pra ser uma leitura obrigatória de Introdução à Ecologia ;) manda a ideia pro Selvino.

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