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25 de setembro de 2017

O Problema da Demarcação

Uma imagem da quântica do cérebro, que não existe.
(autor desconhecido). acesso: set 2017
O Problema da Demarcação surge com a pergunta: “Como diferenciar a Ciência da Não-Ciência?”. Veja, isso parece muitas vezes dado. Pessoas, principalmente divulgadores de ciência, afirmam “isso é científico, isso é pseudocientífico”. Mas permanece a questão: “como decidir se, de fato, é assim? ”

Há várias tentativas de resposta, umas melhores que outras, como de costume, e certamente, nenhuma conclusiva.  Na verdade, é raro (ou talvez nunca tenha acontecido) encontrarmos uma conclusão definitiva para um problema filosófico. Mesmo assim, pretendo dar condições frequentemente entendidas como necessárias (ainda que não suficientes) e também algumas dicas para que quando surgir alguém com papo cheio de certezas científicas garantindo coisas incríveis e maravilhosas, você, mesmo sem o conhecimento relativo à área possa intuir sua falta de cientificidade.

Para começar eu adoraria definir o que é ciência, contudo não consigo. Por duas razões:
  1. Ao longo da história da ciência, muitos métodos e muitas formas do fazer científico(que geraram grandes resultados) não são mais aceitáveis para os objetos de estudo atuais, tendo as ciências se diversificado amplamente com metodologias ainda mais plurais. As Não-Ciências também se modificam bastante ao longo do tempo. Ou seja, definir ciência de uma forma robusta e aceitável por todo mundo (ou quase todo mundo) é bastante difícil.  No entanto, não fiquem desapontados: há definições parciais que podemos adotar. Podemos elencar algumas características NECESSÁRIAS para ciência ainda que não sejam SUFICIENTES. Em outras palavras, isso significa que podemos afirmar que qualquer ciência tem que ter essas características, ainda que alguns corpos de conhecimento possam ter essas características e não serem ciência.
    Parece bastante claro que a ciência é um conjunto de teorias científicas. Mas se alguém pensar dez segundos nessa definição, notará que ela tem um grande problema: Da forma que ela se encontra, ela é circular. Ou seja, define-se algo utilizando essa mesma coisa, o que não ajuda em nada, uma vez que se eu não sabia o que era ciência, eu não saberei o que é algo científico.  Para resolver isso, podemos explicar teorias científicas em termos de outra coisa, que nós efetivamente sabemos o que é,em outras palavras, dar critérios para avaliar se alguma coisa é uma teoria científica. Um exemplo de definição circular é a famosa definição de “conjuntos” feita no século XIX pelo matemático Georg Cantor, Ele definiu conjuntos como “coleções de objetos”, mas o que é uma coleção senão um conjunto de objetos? partindo apenas dessa definição  não iriamos a lugar nenhum. Ele no seu trabalho dá exemplos do que são conjuntos e isso foi suficiente. O objetivo desse texto, por outro lado, não permite um recurso a exemplos, pois o que queremos é um critério, uma vez que, ao contrário dos conjuntos as ciências mudam e nascem.
Para fazer isso, começamos explicando o que é uma teoria, e creio que teremos que ser abrangentes. Lembra do que eu disse sobre termos muitas formas de fazer ciência e muitas ciências? Se formos muito restritos no que diz respeito ao que é uma teoria, corremos o risco de perder algo importante. chamaremos de teoria um conjunto consistente de proposições que descrevem e/ou explica algum fenômeno no mundo. A consistência significa que não teremos proposições contraditórias. Por exemplo:  “as espécies evoluem e ficam estáticas ao passar do tempo considerando as mudanças de ambiente.” Isso não será permitido, e creio ser bastante óbvio o motivo (há, contudo, uma explicação formal em Lógica que nos mostra o porquê de não aceitarmos contradições, mas é bastante técnica). Agora falemos de proposições. De forma não muito técnica, proposições são frases declarativas (não podem ser perguntas, ou imperativos) que podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. (na verdade, essa definição tem problemas bastante grandes, mas ela basta para o que pretendemos). Dito isso, vamos para a próxima parte: precisamos determinar o que faz uma teoria ser científica.

Que comece a diversão.
Tentativa de resolver o problema 1. Todo o conhecimento científico deve ser baseado na experiência. Fácil... fácil demais...
Bem, realmente isso não basta. A Matemática e a Lógica não são experimentáveis. No sentido de que para provar um teorema a respeito de geometria não caçamos no mundo triângulos perfeitos e medimos, elas têm seus próprios métodos de testes a saber as “provas”. Você não considera a matemática uma ciência? Tudo bem, (muitos discordam nisso, realmente eu, particularmente sou mais pluralista), mas ainda podemos ter o mesmo problema com a física teórica, com alguns aspectos da economia, da sociologia etc. Parece mais barato trocar de princípio, afinal é um pouco arbitrário demais simplesmente dizer que tantas áreas e grandes cientistas na verdade são não-ciências e não-cientistas. Mesmo assim, parece fundamental para o conhecimento científico a experiência. Paradoxal, não? Na verdade, não. A experiência é um critério para JUSTIFICAR uma teoria. Uma razão para aceitá-la. Mas mesmo ciência incorreta é ciência. E um cientista que errou ainda é um cientista. Entendeu a sutileza?
Tentativa número 2 Uma teoria científica é aquela que é testável
A diferença entre as duas tentativas é bastante sutil, mas importante.  A segunda ganhou pontos por incluir a matemática e a Lógica, se entendermos “testável” de forma suficientemente ampla. Ganhamos também a física teórica, a economia e etc. Essa ideia foi concebida com um nome diferente por um grande filósofo vamos repaginá-la e analisá-la mais de perto. Uma teoria é científica se for falseável.
Esse termo “falseável” obviamente não surgiu do nada. Karl Popper¹ foi um dos filósofos da ciência que mais conseguiram aderência dentro da comunidade científica pelo menos no que diz respeito ao Problema da Demarcação. Ele propõe que uma teoria científica não pode ser confirmada, uma vez que a tecnologia de verificação pode melhorar indefinidamente e a história nos mostra que mesmo teorias que foram testadas e confirmadas exaustivamente por muitos anos, se demonstraram incorretas (ou insuficientes) após novos testes. Por exemplo a mecânica clássica para corpos com velocidade ou massa muitíssimo elevados. Ele sugere então que as teorias científicas devem ser sempre revisadas e nunca podem ser confirmadas de fato, mas sim mantidas até encontrarmos um teste que falseie essa. Esse princípio é para mim um uma poderosa lição contra quem afirma que “a ciência é arrogante e acha que sabe de tudo”. Somos falíveis. Einstein era.  Newton era. Darwin era. Seu professor é. Você é. Eu sou. Autoridades não podem garantir a certeza do que dizem². A comunidade científica, por outro lado, assume isso. Para cada teoria descartada achamos uma mais próxima de como o mundo é. Para cada artigo publicado propondo uma explicação melhor, nossas mensurações ganham novas casas decimais de confiabilidade; nossos remédios ganham maior eficiência; nossas comunicações mais velocidade. Mesmo assim, nunca saberemos se essa teoria vigente é a que descreve o mundo. Devemos ser humildes. O critério é imperfeito, contudo. Por exemplo, um culto que afirma que uma espécie alienígena virá nos salvar no ano 3000 pode ser testado, não agora, claro. Pelo nosso critério ele seria científico. Poderíamos contra argumentar que ele é em princípio testável, mas não na prática. Contudo, o que é ou não testável é algo relativo aos limites da tecnologia disponível e isso está sempre mudando. Portanto diferenciar o que é falseável em princípio e de fato talvez não seja algo tão fácil. Contudo, toda a ciência deve ser falseável e podemos adotar esse como um critério útil, mas não decisivo. Infelizmente, Astrologia, Homeopatia e outras famosas pseudociências são falseáveis relativamente à algumas exposições de seus defensores. Seriam elas teorias científicas meramente incorretas? Não. Há outros critérios úteis. Critérios práticos e teóricos que fazem dessas teorias realmente “não-científicas”. Precisamos antes separar, entre as não-ciências, as pseudociências. As não ciências envolvem coisas normais do dia-a-dia, conhecimento de ordem prática “não coloque seu dedo no liquidificador, se você quer que ele continue com você”, por exemplo. Há também conhecimentos teóricos não-científicos como a Ética (para muitos, filosofia em geral), fofocas, artes, etc. já o termo “pseudo” nos leva diretamente a imaginar um tom depreciativo. O que geralmente é verdadeiro. Há razões para isso.  A argumentação e estrutura de exposição das ideias de um texto pseudocientífico geralmente é falacioso apelos à autoridade, falso dilema, escolha específica, generalização apressada etc. Isso tudo apenas para que ideias pareçam bem fundamentadas. Além desses vícios argumentativos há também a intenção de relatar algo a respeito do mundo e, comumente má-fé epistemológica (relativa às garantias de veracidade das afirmações) esse último ponto eu ilustro a seguir e o primeiro  eu guardarei para um texto futuro.  Eis algumas características para o reconhecimento de um texto pseudocientífico:
1-      As falácias se distribuem abundantemente. Sendo o apelo à autoridade o mais marcante. Albert Einstein pode ter sido um gênio e sem dúvida teve algumas boas frases na vida. Mas nem por isso é um guia para todas as coisas no mundo. Nem ninguém por ser um gênio em alguma área devia ser entendido como autoridade para qualquer uma.
2-      Usam termos sem defini-los. Energias, vibrações, (insira-qualquer-coisa-aqui) Quânticas, pontos vitais, consciência, alma, etc.. Isso dificulta bastante a análise e dá um ar de seriedade para algo que verdadeiramente significa nada ou muito pouco. É tão possível afirmar a verdade de uma frase como “as vibrações do cosmos reverberam no núcleo dos teus átomos revelando o salto das energias quânticas e liberando todo o poder da consciência.” Quanto “das coisas que são vermelhas apenas as mais alegres permeiam as paredes dos castelos da alma”. Pode parecer (ou mesmo ser) poético, e poli-interpretativo. Mas ciência não é arte, um efeito fotoelétrico não nos permite concluir qualquer coisa. Dessa forma a linguagem científica deve ser extremamente precisa ao descrever os fenômenos e a arte pode ser como o artista quiser. Esse tipo de linguagem também dificulta amplamente a falsificação da teoria, por não se saber exatamente o que testar. qual das interpretações seria a que realmente se afirma?
3-      Aparente cientificidade: Eles reestabelecem muitas vezes que o que fazem é ciência. Frases do tipo: “essa nova ciência”, “a ciência dos astros quânticos”, “a ciência das curas secretas”, “a ciência do espírito e não do corpo” e por aí vai. Se ao longo do texto for usada a palavra ciência mais de que 3 vezes em um parágrafo, desconfie.
4-      É comum usar resultados de experimentos ou princípios famosos interpretados pessimamente para dar esse ar científico: A Mecânica Quântica (esta sofre especialmente), a Evolução, o Teorema da Incompletude de Gödel e etc. tem aplicações muito específicas, por enquanto. E aliás, são muitíssimo bem conhecidos por pesquisadores. Qualquer um deles saberia se esses fenômenos provam a existência de vida após a morte ou coisas do tipo.
5-      Utilização de pesquisas isoladas como comprovação: há cientistas ruins e péssimos assim como para qualquer coisa. Um artigo, um livro não “prova” nada. A comunidade de pesquisadores de uma área que produz, discute e testa inúmeras ideias é nossa fonte mais confiável. Às vezes surgem uns ou outros pesquisadores que decidem que sabem a verdade e a academia não os reconhece por ser muito fechada a novas ideias. Contudo, com efeito, na história da ciência se alguém que tinha essa postura realmente atingiu seu objetivo eu desconheço. Creio que a razão disso seja, principalmente, devida ao fato de que essa premissa está errada. A academia é contra afirmações muito poderosas com pouca evidência. E até agora essa posição se mostrou sábia.
6-      Recurso à sabedoria ancestral de povos distantes: é muito comum ler coisas como “os antigos sábios chineses (indus, indígenas, etc.) afirmavam que tal-e-tal”. Note que nunca existiu internet, antibiótico, vacinas, expectativa de vida tão elevada e etc. Se há uma época em que o mundo está bem armado de conhecimento é agora e devido à ciência. Os sábios antigos podem ter (e têm) grandes ensinamentos morais, contudo quanto ao funcionamento do mundo é melhor ler o que dizem os cientistas, embora, não haja civilização melhor que outra, a tecnologia analisada puramente é  tanto melhor quanto mais acurada é o relacionamento com o mundo que fornece, nisso as técnicas da ciência ocidental são as melhores, por outro lado, a maior parte dos povos não ocidentalizados estão muito bem sem ela, pois vivem perfeitamente adaptados ao seu ambiente natal.
7-      A ciência “oficial”³ não aceita tal-e-tal por ser conservadora, reducionista, materialista, etc.: Não existe ciência oficial! Não existe “paradigma da ciência” em geral. Cada área lida com suas particularidades, algumas estão em plena aurora (neurobiologia vegetal, por exemplo) e outras estão relativamente mais consolidadas e por isso menos “na moda” (sim, há dessas coisas em ciência, afinal são seres humanos que precisam publicar artigos, ou seja, descobrir algo. Uma área exaurida não é tão convidativa), contudo, qualquer bom trabalho de investigação empírica que fosse realmente revolucionário seria muito bem o recebido, isso é, todos os pesquisadores da área iriam tentar mostrar que aquilo está errado, se não conseguirem “its revolution”.
8-      Por fim, um descaso com o “escopo das afirmações”: para explicar isso, usarei um exemplo. Imagine que alguém veja uma pessoa muito alta na rua. E depois essa pessoa comenta com você “eu vi a maior pessoa do mundo na rua”. Então você sabiamente pergunta “como você sabe que era a pessoa mais alta do mundo? ” E ela responde “era realmente muito grande, não há ninguém maior”. Você nota que afirmação bizarra? Faltam muitas evidências. O correto seria afirmar em formato de hipóteses “ele PARECE ser o mais alto” ou definir um contexto conforme a sua certeza “ele é o mais alto que EU JÁ VI”. Esse tipo de ultrapassagem de escopo é utilizado quando se faz uma afirmação gigantesca como “tudo é energia” derivado de coisas como princípio de conservação de energia, ou “você emite energias positivas e negativas” derivado da Teoria Quântica de Campos. As premissas não suportam nem um pouco a conclusão.


Note que eu apresentei características gerais de textos pseudocientíficos (coloquei alguns exemplos nos hiperlinks) e deixarei para outro texto os motivos que me levam a acreditar que servir-se de pseudociência para explicar fenômenos é um erro grave.
Agora, para finalizar sugerirei um jogo Bingo da Pseudociência: pegue aleatoriamente duas das características acima e dê para os participantes do jogo, depois um colega abre um livro de misticismo pseudocientífico em qualquer página e lê alto. Quem encontrar as características recebidas na leitura primeiro, ganha. Se ninguém ganhar nunca, entenda meu texto como refutado, porém eu creio que minhas chances são altas. Boa diversão.
Um último e breve aviso, todas as opiniões expressas no texto são minhas e qualquer consequências devem ser relegadas apenas a mim. A menos que sejam positivas, nesse caso elas são para todos do Sporum.
       Referências:
1-SILVA, P., A filosofia da Ciência de Paul Feyrabend, editora instituto Piaget Lisboa Press. 1998 Pp. 28-50
2-SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: A Ciência como um luz na escuridão, Editora Companhia de Bolso, 2006, pp 40-110
3-GOSWAMI, A.  O Médico Quântico, editora CULTRIX, press.2004, pp.11-45
                  

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