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5 de junho de 2017

Sobre a nova proposta para as relações filogenéticas dos principais grupos de dinossauros e as implicações em sua origem e diversificação

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Esqueletos montados dos dinossauros mais popularmente conhecidos, o Triceratops horridus, um ornitísquio e o Tyrannosaurus rex, um terópode, no museu de história natural de Los Angeles. Os dois grupos de dinossauros foram unidos na nova proposta filogenética, formando o grupo Ornithoscelida.


Em março deste ano de 2017 foi publicado na renomada revista científica Nature um novo trabalho sobre a filogenia dos principais grupos de dinossauros com base nas formas mais primitivas. Os resultados dos estudos realizados pelos pesquisadores Matthew G. Baron, David B. Norman e Paul M. Barrett (afiliados à University of Cambridge e ao Natural History Museum em Londres) modificam de forma significativa as relações de parentesco conhecidas para os principais grupos de dinossauros há mais de um século.

Explicando de modo geral, filogenia é um método de análise evolutiva que visa agrupar os organismos de acordo com características em comum, estabelecendo relações de parentesco e encontrando os chamados grupos naturais, clados ou táxons, que são agrupamentos de organismos semelhantes de acordo com ancestralidade comum. Para isso, sistemática filogenética utiliza uma série de ferramentas e áreas de estudo para basear os seus resultados, são algumas delas: a cladística, taxonomia, embriologia, genética, entre outras. 

Em análises filogenéticas, os pesquisadores buscam ao máximo os grupos naturais ou monofiléticos (fig. 1), formados por organismos que compartilham um mesmo ancestral em comum. Caso contrário, o grupo é considerado artificial e geralmente é descartado ou alvo de novas análises, uma vez que o mesmo provavelmente não demonstra de forma acurada a evolução do grupo de organismos foco do estudo. Existem dois tipos de grupos artificiais: os parafiléticos e os polifiléticos. Grupos parafiléticos são aqueles que não incluem todos os descendentes a partir do ancestral comum que se está estudando. Já um grupo polifilético é formado por descendentes de mais de um ancestral comum.
Figura 1: Esquema demonstrando como são formados os grupos monofiléticos, parafiléticos e polifiléticos.

A classe “Reptilia” da maneira como foi proposta por Linnaeus (fig. 2), por exemplo, era considerada parafilética (por isso representada entre aspas), uma vez que não incluía as aves (e nem os mamíferos dependendo da definição de réptil), que consensualmente deveriam pertencer a este clado. Nestes casos o que pode ser feito é incluir os descendentes que estão faltando ou diminuir a inclusão do grupo, mudando sua definição, para evitar que algum descendente se encontre fora do mesmo.
Figura 2: Cladograma simplificado dos principais grupos de tetrápodes (basicamente os vertebrados terrestres com quatro membros, com exceções), demonstrando como era formada a classe “Reptilia” antes do emprego dos conceitos atuais de cladística e filogenia.


Até então, o grupo Dinosauria (fig. 3) era dividido em outros dois grupos, de acordo com o formato e arranjo dos ossos relacionados à cintura pélvica dos animais (fig. 4) Ornithischia e Saurischia. Sendo assim, Ornithischia compreendia os dinossauros com cintura pélvica parecida com o padrão das aves atuais e era composto em sua esmagadora maioria por dinossauros herbívoros dos grupos principais: Thyreophora (estegossauros e anquilossauros), Ornithopoda (iguanodontes, lambeossauros e hadrossauros) e Marginocephalia (paquicefalossauros e ceratopsídeos).

Figura 3: Árvore filogenética ilustrando as divisões tradicionais do clado Dinosauria, com seus principais representantes e ramos evolutivos.

Figura 4: Esquema demonstrando a posição e formato dos ossos da pelve ilustrando a famosa dicotomia entre os principais grupos de dinossauros.


Já o grupo Saurischia, onde a cintura pélvica é parecida com a de “répteis”, era composto majoritariamente por dois grandes grupos de dinossauros: Sauropodomorpha (“prossaurópodes” e saurópodes) e Theropoda (formado por quase todos os dinossauros carnívoros conhecidos e pelas aves). Há ainda um terceiro grupo de dinos, chamado de Herrerasauridae (Herrerasaurus, Staurikosaurus e outros), que constantemente tem suas relações filogenéticas atualizadas, sendo posicionado como basal em Saurischia ou em Theropoda ou até mesmo fora de Dinosauria, mas aqui vamos considerar as duas primeiras opções.

É importante ressaltar também que o formato da cintura pélvica separando dicotomicamente Saurischia e Ornithischia não denota intuitivamente a evolução dos grupos, uma vez que os dinossauros avianos, ou seja, as aves viventes são pertencentes ao grupo Saurischia.

O novo estudo propõe novas relações entre os grupos já citados, posiciona no grupo Saurischia apenas os Sauropodomorpha e os Herrerasauridae. Por outro lado, os Theropoda são posicionados como grupo irmão de Ornithischia, dando origem à um clado que já havia sido proposto anos atrás e que agora foi recuperado novamente por Baron e colegas, o clado Ornithoscelida (fig. 5).

Figura 5: Cladogramas demonstrando a configuração do grupo Dinosauria antes da nova proposta feita por Baron e colegas (à esquerda) e a nova proposta filogenética para o grupo (à direita).


Este artigo também sugere que o hábito de carnivoria estrita foi adquirido separadamente por herrerasaurídeos e terópodes, enquanto características, que antes eram consideradas convergências entre terópodes e ornitísquios basais ou primitivos, são tidas como estruturas homólogas entre os dois grupos, ou seja, estruturas que são resultado de um mesmo ancestral comum e que tem a mesma origem embriológica.

Vale lembrar que conforme os terópodes tornaram-se mais diversos, alguns grupos adquiram hábitos alimentares variados como insetivoria (alvarezssaurídeos e alguns manirraptores), piscivoria (Masiakasaurus e espinossaurídeos), herbivoria (Chilesaurus e Therizinosaurus) e onivoria (ovirraptores e ornitomimossauros), mas primitivamente e majoritariamente estes dinossauros eram carnívoros, considerando é claro apenas as linhagens não-avianas.

Outros dados relevantes recuperados neste artigo mostram uma relação mais íntima entre os dinossauros mais basais e grupos irmãos Laurasianos, ou seja, que foram encontrados em rochas da Laurásia (fig. 6), que compreende, grosso modo, os continentes do hemisfério norte. Até então as origens dos dinossauros eram firmemente traçadas para o antigo continente Gondwana ou mais especificamente o sul do Brasil e a Argentina. Os achados com os dinossauros mais antigos do mundo, tais como Eoraptor e Buriolestes, ajudam a evidenciar essa origem austral do grupo. Conforme dito pelos autores do trabalho, mais descobertas do Triássico devem ser realizadas para que afirmações com um grau mais alto de confirmação possam ser feitas.

Figura 6: Figura ilustrando o supercontinente Pangeia com a silhueta dos continentes para melhor entendimento de sua posição durante o período Triássico.


A obtenção destes resultados tem um impacto significativo no entendimento da história evolutiva dos dinossauros, principalmente no que tange a origem, diversificação e evolução inicial dos principais grupos, questão que está sempre em voga por conta de novas descobertas realizadas em depósitos fossilíferos triássicos, principalmente do Rio Grande do Sul e da Argentina, que contém os registros de dinossauros mais antigos do mundo e que estão sempre nos brindando com descobertas ilustres e de grande relevância jogando luz ao surgimento e evolução dos primeiros dinossauros.

É claro que não é apenas um estudo que vai estabelecer de forma fixa estas novas relações, e é esperado que a replicação dos resultados e novas descobertas gerem respostas do meio acadêmico, tanto apoiando a nova proposta como tentando refutá-la, até que se chegue a um consenso sólido acerca desta nova possibilidade.


Autoria do texto: Maurício Garcia

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