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27 de junho de 2017

Pesquisando a inteligência - não devemos temer o passado


O que é inteligência? Você já parou realmente para pensar nisso? A maior parte do que nós sabemos sobre inteligência está errada. Esse é o consenso entre cientistas cognitivos que pesquisam sobre aspectos da inteligência humana e animal. A pesquisa e o ensino em inteligência devem ser reformulados para que possamos de fato entendê-la.

A inteligência é definida no dicionário Aurélio como “Conjunto de todas as faculdades intelectuais (memória, imaginação, juízo, raciocínio, abstração e concepção).” Note que a definição engloba diversas habilidades cognitivas conhecidas, na psicologia, como funções executivas, que seriam atividades, por assim dizer, mais humanas.

Apesar de termos um entendimento razoável a respeito da inteligência, a pesquisa nessa área ainda está caminhando a passos curtos devido a alguns problemas, principalmente de cunho histórico, social e acadêmico. É o que foi discutido num editorial da revista Nature do mês passado, intitulado “Intelligence research should not be held back by its past.

O principal fator que prejudica o desenvolvimento da pesquisa e ensino sobre inteligência é o seu histórico. No passado, muitas pesquisas envolvendo craniometria (medição do tamanho da cabeça) e comparações de habilidades cognitivas entre diferentes “raças” acabaram por fundamentar teorias como a Eugenia e o Darwinismo Social, que por vezes pressupõem uma superioridade da raça ariana sobre as outras, e buscaram argumentos biológicos para sustentar-se.

Ilustração de um livro de 1857, usada para argumentar que os negros são intermediários entre um grego e um chimpanzé.

    Esses casos de pesquisa preconceituosa nos ajudam a entender por que essa área de estudo está tão negligenciada. Mas nenhuma área da ciência deveria ser freada por seu passado, já que é estudando melhor esses temas que podemos elucidar essas questões nebulosas. É justamente o que pesquisas de genética comportamental recentes têm mostrado: não há base genética-biológica para a discriminação de uma raça ou outra de acordo a com a inteligência.

Muitos esforços têm sido feitos para medir a inteligência do maior número possível de indivíduos, considerando grupos étnicos, socioeconômicos e educacionais. Uma pesquisa relatada em outra matéria da Nature estudou mais de 100 000 indivíduos, buscando variantes genéticas associadas ao QI, e após a análise dos resultados, mostrou-se inconclusiva.

    Sabendo que a inteligência é um traço complexo e envolve fatores hereditários e ambientais, sendo os ambientais muito plásticos e variáveis, como grau de educação - que por sua vez pode ter influência de fatores hereditários. Ou seja, será que um indivíduo adulto com alto QI o tem porque estudou mais ao longo da vida? Pode ser, mas será que ele estudou mais por razões hereditárias? Essas perguntas ainda estão em aberto e, para que possamos testar hipóteses que as respondam, não podemos temer as antigas pesquisas em inteligência, presunçosas e eugenistas.

    Concluindo, ainda podemos considerar três problemas principais que dificultam a pesquisa em inteligência até hoje:

  1. Medo do determinismo biológico. Pesquisas em genética da inteligência podem gerar resultados que, à primeira vista, nos mostram que “sem esse gene eu vou ser burro” ou que algum gene seja “necessário para um alto QI”. Muito pelo contrário, essas pesquisas têm mostrado, cada vez mais, o efeito esmagador do ambiente sobre a genética quando o assunto é habilidade cognitiva.

  1. A xenofobia. As pesquisas em inteligência foram muito usadas no passado por teóricos eugenistas de maneira a fundamentar a escravidão e o racismo estrutural, e hoje em dia há uma xenofobia crescente em países como os Estados Unidos, assim, há um receio de que pesquisas comparando classes étnicas possam justificar políticas xenofóbicas. Entretanto, se bem utilizados e discutidos, os resultados dessas pesquisas podem, na verdade, ajudar a combater ideais xenofóbicos.

  1. Preconceito. Muito já foi comentado sobre como muitos teóricos já consideraram que a habilidade cognitiva é um traço ligado à etnia. E um estudo recente mostrou que, na população estado-unidense, há diferença significativa entre o QI de brancos e negros. Isso pode parecer assombroso, mas na verdade essas diferenças refletem um processo histórico e cultural, que nada tem a ver com genética.

A inteligência é um traço muito complexo, não podendo ser explicada de maneira simples ou unidisciplinar, sendo necessários profissionais de diversas áreas para elucidar essa questão. É um assunto delicado, pois temos uma história maculada essa área, mas não devemos ter medo de fazer ciência.

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