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9 de maio de 2017

Corroborando a Evolução com Criacionismo

 
Mas como assim? O criacionismo não é aquela teoria que está sempre indo contra a teoria evolutiva? Em geral, sim, e ainda continua na mesma linha de raciocínio desde o início dessa teoria na década de 1920, mas nada impede de se usar as ferramentas criacionistas para sustentar ainda mais a teoria da evolução iniciada com Darwin e Wallace e amplamente sustentada em evidências científicas até os dias atuais. Sei que pode estar soando muito estranho tudo isso, mas vamos entender tudo do começo.

Criacionismo se trata de uma vasta gama de linhas de pensamentos que, no geral, envolvem a crença de que a humanidade, a vida, a Terra e o universo são produtos da  criação de um agente sobrenatural, originadas de religiões monoteístas. Porém, o criacionismo vai além ao ambicionar oferecer um tipo de argumentação que não se restringe somente a convicções religiosas. Assim, busca fundamentar a afirmação da origem divina do universo e dos seres vivos em argumentos não somente advindos da religião, mas também científicos e filosóficos (isso segundo suas próprias conclusões pois o criacionismo e suas teorias são classificadas pela grande maioria da comunidade científica como uma pseudociência). Tais argumentos, em alguns casos, refutam completamente o evolucionismo biológico, e, em outros casos, aceitam parcialmente, mas, com ressalvas Em um desses últimos casos, existe um ramo do criacionismo que aceita que houve diferenciação entre os animais ao longo do tempo, mas ainda fazem oposição à teoria da origem comum de todas as formas de vida, amplamente sustentada pela ciência atualmente. Esse ramo é chamado Baraminologia e propõe origens independentes de vários grupos de animais e demais organismos, os quais são classificados de acordo com uma estrutura criacionista. Conforme os baraminologistas, cada “tipo” ou “grupo” (chamado de baramin) foi criado independentemente e sofreu diversificação subsequente. Por exemplo: todos os membros da família dos gatos(Felidae), são considerados representantes de apenas um baramin (incluído aqui leões, tigres, linces, leopardos, etc.), e essas várias espécies descenderam de um ancestral felídeo originalmente criado. Dessa forma há o baramin dos felídeos, dos insetos, dos girassóis, das aves e de diversos outros grupos.

Abaixo, na Figura 1, há uma representação comparando as teorias baraminologistas (esquerda) com a da origem única dos seres vivos (direita). Está mostrado, nas chamadas árvores filogenéticas ou cladogramas onde cada linha é uma espécie e quando há uma bifurcação significa que duas espécies surgiram de um mesmo ancestral, o tempo corre de baixo para cima no esquema (para entender melhor sobre os cladogramas recomendo esse vídeo). É possível ver na árvore da esquerda que houve um único momento onde vários grupos com variedades morfológicas entre si foram criados e a partir daí foram se diferenciando, mas não muito. Na direita, vemos algo substancialmente diferente, pois toda a variedade morfológica das espécies se diferenciaram a partir de uma primeira forma de vida. Uma outra característica importante a ser destacada nessa imagem seria o tempo,  aludindo a uma  diferença entre as duas teorias, já que pela ideia moderna de evolução a vida na Terra tem pelo menos 3,8 bilhões de anos e, segundo a Baraminologia, em torno de 6 mil anos, pois essa é a idade presente nos registros religiosos sobre os quais a Baraminologia se fundamenta.

Mas qual o critério utilizado para delimitar um baramin? Usualmente utiliza-se medidas morfológicas e/ou moleculares para encontrar gaps (espaços vazios) entre os grupos que seriam as evidências de que os grupos (baramins) foram criados separadamente. Esses gaps ocorrem entre organismos que possuem uma distância morfológica alta, ou, que não possuem características suficientes em comum para serem considerados do mesmo grupo. Para encontrar os baramins de forma precisa existem dois métodos, o ANOPA: analysis of patterns (análise de padrões) e o CMDS: classic multidimensional scaling (escala multidimensional clássica). Ambos usam matrizes com centenas de características dos seres em estudo para comparar e projetar em um gráfico tridimensional (assim como nessa imagem, onde a distância entre os pontos representa a distância morfológica dos grupos e os possíveis gaps).

Foi utilizando esses métodos advindos do criacionismo que o cientista Phil Senter, da Fayetteville State University no EUA, demonstrou, em 2010, a consistência da evolução discutindo que o grupo das aves está contido no grupo dos Coelurosauria, que apesar do nome lembrar coelho, significa na verdade “Lagartos de cauda” (do grego). Esse grupo inclui os Tiranossauros, os Velociraptores e os Oviraptores. Sim! Aves são dinossauros, você não sabia? entenda melhor.

É importante ressaltar que ANOPA E CMDS não são técnicas especificamente criacionistas, mas sim, técnicas matemáticas. E já que a matemática não tem credo, podem ser tranquilamente usadas fora da baraminologia. O cientista Phil Senter usou esses animais por justamente revelarem tal transição dos dinossauros não-aves para as aves, e, por isso, serem alvo de críticas de baraministas que preferem colocar aves em um baramin separado dos dinossauros. O que foi feito? Basicamente, ele pegou 89 gêneros já conhecidos por comporem o grupo dos coelurosauros e comparou pelos métodos citados 364 características entre eles, para assim estabelecer relações de proximidade. Com esses mesmos dados, além do gráfico tridimensional, ele montou uma árvore filogenética dos coelurosauros conforme a Figura 1 do artigo.

 E o resultado você já sabe, mais uma comprovação de que aves são descendentes de dinossauros.

Vamos entender melhor: os gráficos que ele obteve foram os citados na Figura 2 do artigo e neles podemos perceber que, através de uma análise minuciosa, Senter encontrou uma distância morfológica de 0,211 entre Archaeopteryx, espécie considerada essencial para a ligação dinossauros-aves, e o pássaro Confuciusornis. Já entre Archaeopteryx e Sinornithosaurus, este último um dinossauro mais próximo do grupo das aves, a distância foi de 0.213. Além de serem números bem similares, o interessante é que em alguns grupos de dinossauros bem estabelecidos e que seriam considerados baramins, como Dromaeosauridae, possuíam uma distância maior do que 0,213 entre seus próprios membros. Portanto, se dentro de um baramin havia uma distância dessas, enquanto em outras medidas feitas entre dois baramins a distância foi menor, não há como considerar que existe um gap entre eles, portanto são todos o mesmo baramin. Não se restringindo aos gêneros próximos às aves, esse padrão se repetiu ao longo de boa parte dos gêneros de Coelurosauria estudados, mostrando que todos tinham ancestrais em comum e relações próximas. Sendo assim, utilizando o método matemático baraminista, o grupo inteiro dos Coeulosauria  demonstrou ser um baramin.

- Ok, só que isso só aumentou o tamanho do baramin e não provou que a evolução é real. As aves podem ter evoluído de ancestrais dinossauros do grupo Coelurosauria, então, no início, o que foi criado era um primeiro coelurosauro - Poderia argumentar um baraminista. Porém, isso só é válido enquanto não é aplicado esse método para todo o grupo dos Dinossauros (Dinosauria) e verificado se há gaps que corroborem a ideia baraminista. O interessante é que esse mesmo pesquisador fez o estudo no grupo Dinosauria um ano depois e encontrou consistências que sustentam a teoria evolucionista de todos os dinossauros (incluindo as aves) serem relacionados filogeneticamente.

Outro fator a ser considerado é o de que nessa pesquisa não foi aplicado o método apenas com os registros fósseis mais recentes descobertos, como tratamos nesse texto. Senter também aplicou o método utilizando todos os dados registrados em até outras 4 datas, gerando mais 4 gráficos tridimensionais. mas que possuíam menos características a serem comparadas. Essas datas eram 1920, 1980, 1990 e 2000 e podem ser vistos seus gráficos nessa imagem. Se considerarmos os resultados de até 3 décadas atrás, veremos que há de fato um gap grande entre coelurosauros não-aves e as aves basais (Archaeopteryx), então, até esse momento, a teoria de que as Aves eram um baramin estava correta. No entanto, foi com mais pesquisas paleontológicas e descobertas de fósseis com características intermediárias que foi derrubada essa teoria. Com isso, podemos inferir que através de mais pesquisas e achados futuros que serão estabelecidas pontes entre os grupos de organismos que ainda encontram-se distantes o suficiente para serem considerados baramins separados. Ressaltando que a pesquisa citada aqui é de 2010, então, neste últimos 7 anos podem ter sido descobertas diversas novas evidências fósseis para preencher os gaps que ainda existiam dentro do grupo Coelurosauria.

Portanto apesar da vertente religiosa pela qual surgiu, nos casos em que há uma grande gama de evidências fósseis, esse método serviu muito bem para a pesquisa científica corroborar ainda mais a evolução dos organismos, e, apenas nos casos onde faltam evidências suficientes, o método possui utilidade ao criacionismo baraminista.

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