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1 de maio de 2017

A música da natureza!



Em um mundo onde tudo que não é tradição, é plágio, tentativas de inovação surgiram nas mais diversas áreas buscando resgatar a cultura que, quem sabe, perdemos com a vinda da modernidade. A segmentação das diversas áreas do conhecimento trouxe grandes avanços tecnológicos e aprofundamentos teóricos necessários para o desenvolvimento das mesmas, entretanto, sem querer parecer positivista, o reducionismo disseminado esbarrou diretamente com o avanço científico. Na tentativa de mitigar estes problemas, a interdisciplinaridade surgiu como uma possível solução para tapar o déficit criado principalmente pelos vácuos entre as diversas áreas do saber científico. No que vem a seguir, mostrarei algumas tentativas interessantes de mostrar um outro lado da produção musical, que envolve a interdisciplinaridade entre a música, engenharia e biologia, e talvez, fervilhar algumas ideias para os amantes dessas áreas!


Para termos um bom começo, olhemos para a história. Você já pensou no quão velha a música pode ser? Algumas pesquisas inferem que, como um resultado das interações humanas, a música, assim como a fala, iniciaram-se já nas primeiras populações humanas, tendo um papel importante na construção das sociedades e união de grupos desde os tempos mais remotos da humanidade. De toda forma, esta parte mais especulativa não exclui a atual classificação da história da música, a qual é extensa e complexa, que tem seu início com a “Música Ancestral” dos povos da Europa, África e Oriente Médio.


Nos situando em uma escala temporal, usarei como exemplo a Hurrian Hymn no.6, classificada como uma dessas “músicas ancestrais”, é uma melodia que provavelmente pertencia aos habitantes da cidade síria de Ugarit, datando de, no mínimo, 3400 anos atrás!
Esta Hurrian Hymn foi escrita naquelas tábuas de argila (que você talvez já tenha ouvido alguma vez na vida) e geraram grande discussão principalmente sobre qual era o som e o instrumento que eles usavam na época para tocá-la. Claro,  é no mínimo surpreendente poder ler,interpretar e ouvir uma música que alguém fez há uns 3000 mil anos atrás, mas, não podemos esquecer que a música tradicional, indígena e folk provavelmente já existiam há muito tempo, transmitidas pela tradição oral nas comunidades , e talvez, presente desde os primórdios da humanidade.

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Modernamente, a música, que passa por um contexto de experimentação e inovação, tem como simbolismo a plasticidade, podendo interagir com os mais diversos objetos e comportamentos humanos , refletindo em uma produção sonora que é o fruto de alguma dessas interações. Utilizemos como exemplo algo simples: o objeto guitarra é composto por cordas e a ação do indivíduo ao tocar essa corda é produzir um som (produção sonora) que é fruto da interação. Tendo isto em mente, fica fácil entender o que queremos tratar neste texto, não? Nos últimos tempos, várias “misturebas” musicais surgiram na tentativa de unir a natureza à produção sonora através das interações entre o sujeito e o objeto. Nisso, surgiram alguns projetos interessantes que obtiveram sucesso em tentar unir a natureza à produção musical.


Tenho em vista dois autores importantes e realizadores destes projetos. Céleste Boursier-Mougenot e Bartholomäus Traubeck.


Céleste Boursier-Mougenot, nascido em 1961, é um artista moderno francês,é habitante de uma cidade portuária chamada Sète, conhecida como a Veneza do Languedoc, possui características culturais muito únicas e peculiares, sendo parecida, de certa forma, com os bairros manézinhos que temos espalhados por Florianópolis. Celeste sempre fez sucesso com suas instalações musicais. inclusive uma de suas exposições foi parar na pinacoteca de São Paulo, como por exemplo. “From here to ear”, idealizado em 1999, é um projeto que envolve o uso de pássaros (Zebra finches) para produção de músicas através da aleatoriedade de suas interações com guitarras/ instrumentos de corda e percussão. Esqueceremos um pouco da metodologia e vamos analisar a experiência. Imagine: uma sala com uns 80 passarinhos e guitarras por todos os lugares, onde cada passo que você dá, desloca diretamente uns 15 passáros de lugar e, instantaneamente, um som é criado, novo e único. Para Celeste, esse é o grande lance da instalação, tentar envolver o indivíduo e a natureza diretamente na criação do som, que é fruto da interação humana com os pássaros. Deixarei na dúvida as questões éticas sobre utilizar animais para uma instalação artística. No caso de Celeste, há uma preocupação especial com isso, mas, tratando bem ou mal, seria válido utilizar animais em exposições mesmo assim?




Bom, agora, contarei um pouco de Bartholomaus Traubeck. Este sim, eu adoro! Bartholomaus é também um artista que trouxe uma proposta singular. Qual o som do tempo? Profundo isto, não? Na verdade, Traubeck faz a brincadeira de cortar anéis de árvores e ,através de um programa, extrai um som semelhante ao que o vinil faz com os LPs. Podemos dizer que, ao cortar o caule de uma árvore, encontramos ranhuras e anéis que indicam o crescimento e a idade da planta, não necessariamente indicando o tempo preciso, mas dando uma ideia do quão velha ela pode ser. Nisto, Traubeck criou um programa que utiliza as notas do piano como base e a textura/cor do tronco cortado como “start” de como o som irá começar. Se será mais forte ou mais suave, quem definirá isso é a textura e a cor do tronco. Logo após o “start”, através de um sensor e umas fórmulas  matemáticas que o programa usa, cada vez que um anel/ranhura passar por esse sensor luminoso, será codificado para transmitir um som de uma tecla de piano. O que ouvimos é a história de uns 70 anos de vida daquela árvore. Deste projeto, saiu um álbum chamado “Years”, (o qual recomendo para os leitores mais sonoros) onde o título das músicas são o nome da espécie de árvore que ele usou fazer para cada delicada faixa do albúm.


Esses dois projetos são algumas tentativas interessantes de apostar interdisciplinaridade voltadas  para aspectos culturais e mostrar que é possível inovar em tempos modernos.  Atualmente, Celeste continua com as exposições e Bartholomaus, após a criação do álbum, procura pesquisar por outras coisas, pois, em algumas entrevistas, ele declarou que já estaria super saturado deste projeto.


Também há um projeto em andamento criado pelo britânico Alex Metcalf que possui várias instalações por toda a Europa. Este projeto que acontece há uns 11 anos, consiste no uso de microfones super sensíveis em algumas árvores, geralmente de praças públicas, possibilitando ouvir o interior das mesmas! É como ouvi-las bebendo água, dizem alguns relatos. Deste projeto foi publicado um artigo (não de sua autoria, mas com a mesma tecnologia) no 21º Congrès Français de Mécanique que tentava associar a produção deste som com a formação de bolhas, processo este chamado de cavitação. Os pesquisadores usaram um mecanismo que possibilitou a inclusão da madeira em hidrogel para possibilitar a mesma pressão negativa encontrada nas árvores e, à partir daí , utilizaram os mesmos aparelhos sonoros na tentativa de buscar uma correlação do barulho com a formação de bolhas, usando como confirmação um aparelho óptico que também captava o processo de cavitação. Neste artigo, os resultados mostraram uma correlação de 99,4% entre o barulho que foi ouvido e a formação de bolhas.


Para o Brasil, não tenho conhecimento sobre algum projeto parecido, mas em termos musicais, nunca ficamos para trás quando o assunto é o envolvimento com a natureza. Em 1970-80, com a pegada hippie ainda em andamento, diversas bandas como Terreno baldio, Som nosso de cada dia, Som imaginário e Marconi Notaro (No Sub Reino dos Metazoários) tentavam unir o humano com a natureza, abordando questões do que somos realmente e qual nosso papel na Terra. Caetano e Gilberto Gil entraram na mesma onda em algumas músicas.  Obviamente, este tema é muito extenso e não pretendo me estender além desses poucos autores, mas acreditem, há muito mais! Além disso, não podemos esquecer que grandes canções brasileiras envolvem a natureza e a beleza natural como forma musical. Passaredo de Chico Buarque é uma que podemos citar, com toda certeza.


Por fim, principalmente para os interessados em música, vimos que é possível experimentar e criar a partir de associações relativamente simples! Este mix entre tecnologia, cultura e ciência vem sendo uma trindade extremamente produtiva e abrangente. Além disso, no projeto de Alex Metcalf foi possível produzir até mesmo um artigo científico, mostrando que a união das diversas áreas do conhecimento só tem benefícios a carregar e caminhos para desbravar. E claro, a caminhada continua. Quem sabe você também não pode ser o próximo a produzir algo envolvendo esses temas, assim como Céleste, Bartholomäus e Alex?

Um comentário:

  1. Faltou falar da inesquecível obra prima chamada Spirogyra Story do nosso querido Jorge Ben Jor. Nada mais biológico do que uma música falando desse bichinho bonito verdinho que dá na água.

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