Logo



Menu

Posts Recentes



24 de outubro de 2016

Um pouco de ficção, literatura e ciência

     

       Ficção científica representa um ramo de criação artística, cujas obras possuem um enredo baseado no desenvolvimento científico e no fantástico. Sendo que através da literatura, tal gênero se iniciou, se firmou, e posteriormente teve um grande papel no desenvolvimento da sociedade e da própria ciência. Tal impacto poderia estar relacionado aos relatos cativantes de seus autores, por discutirem e divulgarem ciência de uma forma mais entendível pela população leiga, ou mesmo, por conta das visões proféticas de suas histórias.
          Discutindo o pavor que os avanços na ciência e tecnologia do século XIX geravam nas pessoas, a considerada primeira obra de ficção científica, o ‘’Frankenstein’’ de Mary Shelley, lançado em 1818, é a principal. Segundo um artigo publicado na revista Nature, essa obra trabalha assuntos discutidos em centros de pesquisa na Europa da época, como ressurreição gerada por eletricidade, teorias anatômicas e fisiológicas revolucionárias, e força vitalista. Até hoje, tal relato indaga outros temas controversos que permeiam a comunidade de especialistas e a população num âmbito geral, relacionados à responsabilidade e à ética que o cientista tem com sua pesquisa (às vezes envolvendo experimentação com seres vivos) e os perigos da interferência do seu trabalho no curso natural da vida. Com temática semelhante, surgindo da imbricada relação pesquisa-pesquisador, no livro ‘’Planeta dos Macacos’’ (1963) de Pierre Boulle, símios utilizados em experimentos de laboratório se rebelam. Já em ‘’Eu, Robô’’ (1950) de Isaac Asimov e ‘’2001: uma Odisséia no Espaço’’ (1968) de Arthur Clarke, é a vez de robôs tentarem superar e sobrepujar o homem.
           Em o Médico e o Monstro (1886), Robert Louis Stevenson discute e se aprofunda na dualidade boa e ruim dos sujeitos, com o altruísta personagem Dr. Jekyll buscando (e conseguindo) produzir uma fórmula química com a finalidade de se tornar Mr. Hyde, um ser grotesco e só assim capaz de se permitir realizar maldades. Já em ‘’Admirável Mundo Novo’’ (1932) de Aldous Huxley e na obra ‘’1984’’ de George Orwell (lançada em 1949), ambas ambientadas em futuros distópicos e representando as realidades de seus tempos; avanços em tecnologia acabaram proporcionando um grande controle governamental, relacionado a um regime político totalitário, divisão social em castas e um exacerbado controle de natalidade.
           Por conta de diversos contos de autores de ficção científica, foi despertada em leitores juvenis a vontade de se tornarem pesquisadores. A série de aventuras do personagem John Carter no planeta Marte (1917-1964) criada por Edgar Rice Burroughs, fomentou no infante Carl Sagan o gosto de se aventurar na exploração do espaço e na busca por vida extraterrestre. Futuramente, Sagan se tornou um grande divulgador científico sobre estudos do Cosmos. De acordo com um artigo publicado em 2016, sabe-se que o livro ‘’Guerra dos Mundos’’ de 1898 de H.G. Wells, que conta a história de uma invasão marciana à Terra, inspirou Robert Goddard – inventor do foguete propelido a combustível líquido, cuja pesquisa conduziu ao programa Apollo da NASA – a devotar sua vida a propiciar a existência de viagens espaciais.
          O alcance dessa última obra também pode ser visualizado pelo fenômeno gerado pelo radialista Orson Welles, ao pronunciar o conto na rádio, sendo ouvido por grande parte da população dos EUA. Orson anunciou a chegada de forma muito verossímil de alienígenas de Marte, exatamente no dia 31 de Outubro (dia das bruxas nos EUA) assustando as pessoas de que haveria uma invasão marciana. Entretanto, não relatou que era uma história ficcional, e no dia seguinte, pessoas começaram a fazer estoque de alimentos, se preparando para uma possível batalha para impedir um apocalipse marciano. Outras obras de Wells trabalham temas interessantes e completamente arraigados no imaginário das pessoas, como ‘’A Máquina do Tempo’’ (1895) e ‘’O Homem Invisível’’ (1897), por conta das possibilidades (e poderes) que forneceriam aos seus usuários.
         Júlio Verne chegou a extrapolar o funcionamento e desenvolvimento de tecnologias em pauta no século XIX europeu e norte-americano, através das histórias de seus dirigíveis, submarinos e foguetes lançados à Lua. Mesmo sem o conhecimento científico de hoje, conseguia criar e delinear histórias muito verossímeis baseadas em conceitos de geografia, biologia e física, como nos clássicos da literatura fantástica: Viagem ao Centro da Terra (1864), 20.000 Léguas Submarinas (1870) e Volta ao Mundo em 80 dias (1873). 
          Para isso, Verne discutia com amigos pesquisadores sobre descobertas e avanços em navegação aérea e balonismo. Citando um texto de um pesquisador brasileiro: ‘’o resultado é uma fascinante mescla de ficção e realidade, aventura e princípios científicos, que lhe renderam, inclusive, o título de profeta de feitos que a ciência produziria mais tarde’’. Há relatos que Verne inspirou em Santos Dumont, inventor e pesquisador brasileiro, a vontade de desenvolver aeronaves funcionais motorizadas mais pesadas que o ar, como o dirigível e o seu famoso 14-bis.
     Obviamente, poderiam ser citadas inúmeras outras obras da literatura e autores de ficção científica, que num movimento recíproco entre discussão de inovações tecnológicas de suas épocas e suas visões imaginativas para o futuro, acabaram por popularizar a ciência; tornando-a mais próxima da população, fazendo algo de divulgação científica ao mesmo tempo em que relatavam histórias fabulosas que repercutiam no próprio desenvolvimento da sociedade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário