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26 de setembro de 2016

Memórias e Engramas



A todo momento, estamos nos deparando com situações novas, percebendo diversos estímulos sensoriais, liberando hormônios e reagindo ao ambiente dinâmico em que vivemos. Para que nós (e outros animais) tenhamos a capacidade de ajustar o nosso comportamento ao ambiente de maneira adequada, é necessária a constante formação de memórias. Existe um complexo mecanismo neurobiológico que nos propicia o aprendizado, formação e a lembrança das memórias. Toda vez que se forma uma memória, há uma reorganização das conexões neuronais em determinadas regiões do cérebro, essa mudança na circuitaria neuronal é capaz de armazenar a informação correspondente à memória, e posteriormente, possibilitar a lembrança. Os cientistas que estudam memória normalmente utilizam o termo “engrama” para denominar esse conjunto de neurônios  que armazena uma determinada memória. Nessa visão, cada memória possui um engrama próprio, ou seja, um conjunto de neurônios que, quando ativado, permite que o indivíduo acesse aquela memória. A formação dos engramas é um processo bastante interessante, que lembra muito a famosa teoria da seleção natural. Mesmo antes da memória ser formada, já existe um número limitado  de neurônios que têm a possibilidade de formar o engrama, o que define quais neurônios irão manter a memória no fim do processo é o grau de atividade de cada neurônio no momento da experiência que gerou a memória, sendo que os neurônios mais ativos têm uma maior chance de se tornarem responsáveis pela memória no futuro. Ou seja, os neurônios que são mais ativos “vencem a competição”, e são “selecionados”  para fazer parte do engrama, enquanto os menos ativos não tornam-se de maneira nenhuma relacionados à memória.

Corte histológico mostrando neurônios marcados da amígdala lateral


Há algum tempo, os pesquisadores já conseguem manipular e estudar engramas individuais com êxito. Por outro lado, estudar como engramas múltiplos interagem continua sendo um desafio enorme. Recentemente, no mês de julho, foi publicado na revista “Science”, um trabalho de pesquisadores Norte-Americanos, liderados por Sheena Josselyn, no qual ficou demonstrado que a competição entre diferentes engramas influencia a formação e a evocação de memórias. No trabalho, os cientistas analisaram principalmente o aspecto temporal da interação entre engramas: duas memórias de medo foram formadas em um curto período de tempo (6h), e o resultado observado foi uma sobreposição entre os neurônios utilizados para a formação dos dois engramas. Quando a segunda memória era formada apenas 24h depois, no dia seguinte, este fenômeno não ocorreu.
O mecanismo que explica essa sobreposição é relativamente simples. O que ocorre é que no momento em que a primeira memória foi formada, há uma primeira etapa de competição entre os neurônios da amígdala, sendo que os mais eletricamente ativos possuem uma chance maior de desbancarem seus vizinhos e tornarem-se parte do engrama. Após a formação da primeira memória, os neurônios que “venceram” a competição e agora armazenam a memória continuam ativos por algumas horas, ou seja, se outra memória for formada num curto período de tempo, esses mesmos neurônios, alocados no engrama inicial têm grandes chances de também serem recrutados para a formação do segundo engrama.

Interessante é o fato de que quando duas memórias são armazenadas pelos mesmos neurônios, elas possuem um elo físico, e assim há grandes chances de que essa ligação cause alterações na maneira como essas memórias serão armazenadas e evocadas. Se inicialmente uma das memórias tiver alto valor emocional e a outra não, pode ser que ocorre uma transferência da valência emocional para a memória que era neutra.

As memórias são um dos elementos mais cruciais na vida humana, e não é exagero dizer que nós somos o que lembramos. Apesar disso, ainda resta muito para se descobrir no campo da neurobiologia da memória, principalmente à respeito das interações que ocorrem entre as memórias em nível sistêmico, pois há no cérebro uma rede de interações que é extremamente complexa e é capaz de captar, integrar, e enviar sinais para assim gerar comportamentos extremamente diversificados e adaptativos.



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