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19 de junho de 2018

É possível alterar ou apagar uma memória?


Pôster minimalista do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças | Autoria desconhecida. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/206743439122485488/




A memória tem uma natureza dinâmica. Apesar de nossa forte tendência de vê-la como uma representação precisa de eventos do passado, os estudos científicos sugerem que memórias não são entidades tão fixas como pensamos e podem estar sujeitas a mudanças.


O processo de formação de uma memória começa pela percepção de algum estímulo proveniente de uma experiência (poderíamos chamar também de percepção de uma “informação”), que será codificado pela ativação de determinados neurônios. A essa primeira etapa, damos o nome de aquisição. Assim, na aquisição ocorrerão mudanças físicas em neurônios do cérebro, formando um primeiro engrama e a chamada memória de curta duração, que pode então passar por processos fisiológicos que a estabilizarão e armazenarão no formato de uma memória de longa duração. A esse processo de formação da memória de longo prazo se dá o nome de consolidação (atenção aos termos em negrito).


Ok, mas afinal conseguimos de alguma forma alterar ou apagar uma memória? Talvez você já tenha assistido a um filme chamado Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças em que isso era possível sim (spoilers adiante). Foi o que os protagonistas Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) fizeram ao se submeter a um tratamento para apagar as memórias que um tinha do outro em vista de um relacionamento fracassado. O tratamento funciona e apaga totalmente as lembranças que um tem do outro. Claro que é uma ficção, mas será que a ciência poderia fazer isso no mundo real?
Existe uma situação em que uma memória já consolidada pode estar mais suscetível à interferências e alterações. Essa situação é chamada de estado lábil. Para colocá-la nesse estado, é preciso realizar sua reativação, a partir de algum tipo de estímulo lembrete. São esses estímulos que trazem à tona (ou seja, geram lembranças) essa memória aprendida anteriormente. Por exemplo aquele perfume do seu namorado ou namorada, se você sentí-lo em outra pessoa, pode acabar lembrando do seu parceiro. Após a evocação e a consequente labilização dessa memória, ela deve passar por um processo de reconsolidação para voltar a se estabilizar. Esse processo é gradual e perdura por algumas horas, perturbações durante esse período vão afetar diretamente o traço original da memória. Passado esse período, a memória é fixada e não pode mais ser modificada até uma nova labilização. A Figura 1 abaixo resume essas etapas.



Figura 1: Representação gráfica do processo de aquisição, consolidação, reativação e reconsolidação da memória | Autoria própria, adaptado de Franzen (2018)¹



Portanto é nesse momento de reconsolidação que novas informações podem ser incorporadas, gerando uma memória atualizada, ou seja, modificando ela. Bom, mas que perturbações são essas? É para responder essa pergunta que muitos estudos são feitos, tanto com técnicas farmacológicas como comportamentais.


A aplicação de fármacos no cérebro é feita em laboratórios. Testes mostraram que a memória pode ser prejudicada ao se aplicar um inibidor de síntese proteica após a reativação e durante a reconsolidação. Porém outros fármacos permitem que as memórias reativadas sejam potencializadas pelo aprimoramento de processos neuroquímicos ou celulares. Os diferentes caminhos que a memória pode tomar a partir de seu estado lábil estão resumidos na Figura 2. As interferências comportamentais (durante o período de reconsolidação) também podem causar amnésia, fortalecer a memória ou pôr em conflito entrelaçando  informações novas com as já existentes, desencadeando modificações nas lembranças futuras. Por exemplo, aprender uma nova lista de objetos após a reativação de uma lista previamente aprendida fez com que itens do segundo aprendizado se infiltrassem na memória da primeira lista. Essa característica de atualização de memórias é especialmente relevante para transtornos psiquiátricos relacionados à emoção, como o TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático), pois permite a modificação de memórias emocionais exacerbadas ou traumáticas com o intuito de reduzir seu impacto problemático.



Figura 2: Representação gráfica dos caminhos da memória após a reconsolidação. A partir de interferências, ou não, ela pode tomar o caminho do reforço, manutenção ou enfraquecimento. Autoria | Autoria de Franzen (2018)¹



Voltando ao filme do Jim Carrey, é curioso lembrar que o tratamento consiste em pegar todos os objetos que lembrem a pessoa a ser esquecida e apresentar um a um para o paciente enquanto os médicos fazem uma ressonância magnética do cérebro para saber onde o engrama está se formando. No mesmo dia à noite eles vão à casa da pessoa, que está sedada, e acoplam um aparelho à cabeça dela. Esse aparelho realizará algum procedimento não invasivo de apagamento de memória. Seria como se eles primeiramente dessem o estímulo lembrete para labilizar as memórias e durante o período de reconsolidação fizessem uma interferência amnésica nos engramas já conhecidos por eles. Porém, na vida real, a reconsolidação não apaga memórias. Os estudos da reconsolidação em humanos têm mostrado que a pessoa ainda se lembra do que aconteceu, indicando que o componente emocional da experiência (se ela é positiva ou negativa) é o que seria atenuado. Isso é bom porque não alteraria o histórico dela, sendo então uma vantagem ética importante. Portanto Joel e Clementine depois do tratamento talvez lembrariam um do outro, porém sem a carga afetiva que possuíam antes.


Outro momento que a memória está lábil é logo após a aquisição, pois ela é ainda de curto prazo e deverá ser consolidada para se estabilizar em nosso cérebro. Esse processo dura poucas horas também, e é semelhante ao de reconsolidação, com diferenças nas proteínas utilizadas e receptores envolvidos. Como a memória de curto prazo está instável nesse período, a injeção de um inibidor de síntese proteica produzirá um efeito amnésico, porém não completo. Sim, a memória poderá praticamente desaparecer antes mesmo que ela se fixe no cérebro. Como dito, esses procedimentos com fármacos são feitos em laboratório, mas em princípio interferências não farmacológicas (comportamentais por exemplo) devem ter também a habilidade de modificar ou apagar memórias ao influenciar nos processos de consolidação e reconsolidação.

Ilustração que demonstra a diversidade de informações e memórias formadas ou alteradas diariamente por nós | Autoria desconhecida. Fonte: http://psicofisiologiacuc.blogspot.com/2016/10/intervencion-del-sistema-nervioso-y_19.html


A existência desse processo de reconsolidação levanta uma importante questão: qual sua função adaptativa? seu papel biológico? Há várias discussões no meio acadêmico sobre isso, mas muitos sugeriram que a flexibilidade das memórias é fundamental para permitir que constantemente as memórias sejam atualizadas de acordo com novas experiências, o que é muito relevante, tendo em vista as mudanças circunstanciais de cada nova situação a que nos submetemos, todos os dias. Uma mesma situação nunca se repete exatamente como ocorreu inicialmente, por isso precisamos estar atentos e exibir respostas dinâmicas perante um ambiente dinâmico.


Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa
Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Cada prece é aceita, e cada desejo realizado
- trecho do poema “Eloisa to Abelard” de Alexander Pope -





Referências:
¹ FRANZEN, Jaqueline Maisa. Efeito do Midazolam Sobre A Reconsolidação e a Extinção da Memória Aversiva Contextual em Ratas. 2018. 124 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Pós-graduação em Farmacologia, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.

4 de junho de 2018

Da cerveja ao combustível: algas em nossas vidas

Bosque de algas marinas na California |autoria:Jim Patterson

Você sabe o que é uma alga? Sei que a pergunta parece boba, mas o grupo das algas é mais diverso do que você imagina! Então algas não são as plantas que estão na água? Pois bem, alguns autores consideram algumas algas como plantas, as algas vermelhas e verdes por exemplo, por estarem no clado Archaeplastida ou “Plants” , mostrado na figura abaixo. Mas como se pode observar, além das algas que estão no grupo das plantas, temos uma grande quantidade de algas distribuídas nos mais diferentes ramos da árvore da vida.

Árvore da vida demonstrando os diversos grupos onde algas são encontradas | autoria desconhecida

É consenso que as plantas evoluíram de algas verdes há 460 milhões de anos atrás. O termo “alga” é, na verdade, um aglomerado de grupos taxonômicos, como podemos ver. Portanto, a diversidade que encontramos nas algas é incrível, desde seres unicelulares medindo cerca de dois micrômetros (um centimetro equivale a dez mil micrômetros) aos gigantescos Kelps medindo até sessenta metros. Temos algas que fazem fotossíntese e outras que se alimentam de outros seres. Isso mesmo! algumas algas do grupo dos dinoflagelados 

O que você acharia de visitar uma praia e ver um verdadeiro “céu estrelado” esparramado por cima das areias? Isso é possível graças a algumas espécies de dinoflagelados que possuem bioluminosidade. A cena acima foi registrada nas Ilhas Malvinas |autoria :Will Ho 


Esses seres estão mais presentes em nossas vidas do que podemos imaginar; talvez você use produtos provindos deles sem nem saber. O Agar, por exemplo, é extraído de algumas algas vermelhas, e com ele são feitos meios de cultura para microorganismos muito usados  na biotecnologia e na microbiologia. O agar forma uma gelatina transparente, muito rica em fibra solúvel (94,8%) e minerais, ideal para espessar e gelificar alimentos sem alterar ou adicionar qualquer sabor. O seu poder de gelificação é 10 vezes superior ao da gelatina de origem animal, por isso é muito usado na indústria alimentícia para a produção de gelatinas, caramelos, recheios, marmeladas etc. O alginato, por sua vez, é extraído de algas pardas e é usado na produção de sorvetes, produtos lácteos e misturas para bolos. Ele também melhora as características sensoriais de produtos da indústria de bebidas. Em cervejas, por exemplo, ele estabiliza a espuma, deixando-a mais espessa.


Aposto que já tomou ou comeu algum desses | autoria desconhecida

As algas também desempenham uma função vital para o nosso planeta no processo de captura de gás carbônico. Os cocólitos, por exemplo, são uma espécie de algas que possui uma carapaça e desempenha um papel importante no sequestro de carbono da atmosfera. São responsáveis por 25% da captura anual de carbono no fundo do mar.


Atualmente, as algas estão sendo utilizadas também na produção de biocombustível. São necessários somente luz, água e dióxido de carbono, podendo inclusive serem cultivadas em quase todos os lugares, utilizando uma área muito menor comparadas àquelas que as monoculturas usariam para produzir a mesma quantidade de combustível. Existem duas formas de cultivá-las: uma considerada aberta, utilizando tanques, e outra fechada, com uso de biorreatores . O primeiro é bem simples; há alimentação das algas o dia todo, e é retirado um caldo das mesmas. Já os biorreatores atuam como receptores da energia solar e permitem culturas individualizadas.


Campo de produção de algas | autoria : Revista de divulgação do Projeto Universidade Petrobras e IF Fluminense

Enquanto a soja produz de 0,2 a 0,4 toneladas de óleo por hectare, o pinhão-manso produz de 1 a 6 toneladas de óleo por hectare e o dendê, de 3 a 6 toneladas de óleo por hectare, alguns afirmam que com um hectare de algas pode-se produzir 237 mil litros de biocombustível; outros, mais contidos, informam que em uma superfície equivalente a um hectare semeado com alga pode-se produzir 100.000 litros de óleo!


Como podemos ver as algas e seus produtos estão muito mais presente em nossas vidas que pensávamos, e que alga não é só aquela plantinha que tem no mar, elas estão nas árvores nos lagos e até em sua piscina. E num futuro não tão distante, quem sabe, até no tanque do seu carro.

Autor: Rafael de Lima

18 de maio de 2018

De couro até drones: possibilidades de criação com fungos

Produtos de arquitetura criados a partir de fungos | autoria desconhecida

Sabe aqueles bolores verdes que surgem no seu pão? Aquelas manchas escuras no teto do banheiro? Ou mesmo algumas doenças, como a candidíase, e até mais graves, aspergilose, por exemplo? São essas algumas das referências que fazem com que os principais fungos conhecidos sejam os bad guys do Reino Fungi.

No entanto, eles também são os produtores dos famosos queijos, como o gorgonzola e o camembert, produzidos a partir de fungos do gênero Penicillium spp., e ainda muitos têm ótimas propriedades como antibióticos contra várias infecções bacterianas inconvenientes.

Todas essas suas particularidades não estão à altura do potencial que carregam. Por exemplo, experimente imaginar-se com aquela jaqueta de couro maneira para conquistar o crush. Esse couro, na realidade, não é feito de boi, mas de micélio, estrutura vegetativa de grande parte dos fungos. Parece ficção científica? Talvez. E se pudéssemos fabricar nossas embalagens de isopor com a ajuda de fungos? Ou, ainda, construir um drone a partir de micélios?

Tudo isso é possível! Genial, não? Essas grandes inovações que buscam trazer os fungos como aliados no nosso dia a dia já são contemporâneas a nós.

A partir de uma pesquisa financiada pelo Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (US NSF), desenvolvida pela Rensselaer Polytechnic Institute e feita por Eben Bayer e Gavin McIntyre, dois pós-graduandos na época, surgiu uma alternativa para solucionar o uso indiscriminado do isopor, material não biodegradável que demora milhares de anos para se decompor. 

Eles recorreram aos fungos, organismos pouco conhecidos, mas que atendiam a todas as características para um substituto do isopor, já que o micélio suporta altas e baixas temperaturas e tem tempo de degradação rápido. Isso era apenas o começo da experimentação desses seres como solução!

Assim, em 2004, os antigos alunos abrem uma empresa, a Ecovative. A partir disso, começam a criar novos produtos com micélio como tijolos e artigos de decoração, mas seu carro-chefe ainda é o isopor micelial, o Mycobond.

Aparatos fundamentais na produção do MycoBond | adaptado de Ecovative 

O uso de fungos revolucionou e impulsionou novos empreendimentos e a criação de empresas (a Mycoworks, por exemplo) que produzem peças de vestuário que mimetizam o couro, utilizando apenas a parte vegetativa desses organismos.

Produtos desenvolvidos a partir de micélio | adaptado de Ecovative e MycoWorks

Você quer mais? Desde da descoberta da penicilina, um potente antibiótico produzido através do fungo Penicillium notatum, e a partir da Segunda Guerra Mundial, em que foi produzido em larga escala o medicamento, esses seres tornaram-se alternativa de matéria-prima para variados produtos.

Além disso, muito investimento está sendo feito para o uso deles na biorremediação, visando a recuperação de áreas ambientais afetadas por alguma substância química com uso de fungos. Por exemplo, associações e organizações já bem conhecidas, como a de Paul Stamets, investem em pesquisas na regeneração de áreas afetadas com derivados do petróleo. 

E, para finalizar, novos projetos quase futuristas estão acontecendo. Estudantes das universidades de Stanford, Spelman e Brown,  em parceria com a Ecovative Design e a Nasa, produziram um drone biodegradável. Esse protótipo participou, em 2014, na Competição Internacional de Máquinas Geneticamente Modificadas. Foram aproveitadas as propriedades inerentes da formação do micélio, composto por biomoléculas bem estruturadas, em que a base do drone é construída em poucas semanas, apenas com a inoculação do fungo desejado (no caso Streptomyces capreolus). Depois dessa etapa é realizada a esterilização para cessar o crescimento do organismo.

Drone biodegradável produzido a partir de micélio | Forbes

Todas essas possibilidades com o uso do micélio indicam como ainda não conhecemos bem esses seres conterrâneos a nós, que há tempos ocupam nichos ecológicos importantíssimos na biosfera. 

A partir deles, sabe-se de inúmeras interações benéficas e maléficas com outros organismos, como a associação com cianobactérias e/ou algas, formando os líquens e o parasitismo por fungos, como do gênero Cordyceps, em alguns insetos. Ademais, através de algumas dessas relações ecológicas, por exemplo as micorrizas, garantiram a conquista terrestre pelas plantas, elas gerando produtos da fotossíntese e eles auxiliando na absorção e fixação de nutrientes. 

Por isso, fungar não é só sinônimo de estragar, às vezes é justamente o contrário e necessário. Então não se engane! Os fungos sempre estiveram presentes no nosso cotidiano, só precisamos dar a chance de descobrir suas capacidades.

7 de maio de 2018

Botânica Forense: quando as plantas entram na cena do crime

Plantas frequentemente estão na cena do crime e podem ajudar a solucioná-lo | autoria desconhecida

Na sarjeta de um condomínio residencial de Taipei, em Taiwan, o corpo de uma jovem foi inesperadamente encontrado em uma calçada. Não se sabe as circunstâncias da morte, mas existe a suspeita de que ela teria sido atropelada por um caminhão e seu corpo foi arrastado até ali para disfarçar o acidente. Ao ser levada para a autópsia no hospital, porém, um pequeno detalhe chama a atenção dos legistas: emaranhado aos cabelos negros da jovem estava um pequeno ramo com um frutinho. E aquele pequeno ramo seria uma das principais chaves para descobrir quem matou a pobre moça de Taipei...

A botânica, ciência que estuda as plantas, é um campo de pesquisa muito rico e com muitas subáreas. Pode-se estudar a origem e evolução das plantas, a sua fisiologia, a sua anatomia, sua composição química, dentre muitas outras coisas. E, como os seres humanos dependem totalmente das plantas para viverem, existem muitas aplicações da botânica em nossas vidas. Para citar alguns exemplos, pode se buscar o melhoramento de espécies e variedades de vegetais para o consumo humano, o desenvolvimento de novos medicamentos e produtos à base de plantas, o uso de plantas para descontaminação do solo e o próprio paisagismo e jardinagem, uma aplicação muito nobre da botânica, diga-se de passagem.

Contudo, uma área ainda bastante subutilizada e até desconhecida da botânica é, justamente, a botânica forense. Ou seja, o uso de plantas e algas para ajudar a solucionar crimes e outros assuntos legais (nem só de crimes vivem os legistas). Assim como a medicina, a química e a balística podem vir em auxílio da Justiça ao contribuir para a solução desses problemas legais, a biologia, nas suas múltiplas formas, também pode (há um capítulo somente sobre entomologia forense — o uso de insetos para solucionar crimes — no recém-lançado livro do Sporum. Link para download aqui) e a botânica não faz exceção.

As plantas, por geralmente não poderem se mover, têm a anatomia de seus corpos e mesmo a sua bioquímica estreitamente relacionada ao lugar onde vivem. Desse modo, muitas plantas vivem somente em locais específicos, pois dependem da qualidade do solo, da quantidade de luz que recebem, da umidade e assim por diante. Saber a maneira como as plantas vivem e compreender a sua anatomia e fisiologia pode ser muito útil quando uma planta aparece numa cena de crime. A taxonomia, a anatomia, a fisiologia vegetal e a ecologia são disciplinas que auxiliam na identificação da planta e de seu local de origem, e isso pode ter valor de prova em um julgamento, indicando, por exemplo, onde a vítima estava quando foi morta, ou se foi movida de um lugar a outro.

Outra área importante da botânica é a palinologia, ou seja, o estudo do pólen. Estes minúsculos grãos extremamente resistentes são produzidos em locais e estações do ano específicas e podem durar milhares de anos. Assim, são úteis em estudos paleontológicos e arqueológicos, como o estudo que reconstruiu a trajetória que Ötzi, a múmia de mais de 5000 anos encontrada nos Alpes italianos, percorreu nas últimas horas antes de sua morte por meio de pólen encontrado em seu trato digestivo.

A comparação de grãos de pólen encontrados no controverso Sudário de Turim com o pólen de plantas endêmicas da região de Israel levou pesquisadores a afirmarem que a origem do tecido é a Palestina e que o corpo que o sudário supostamente envolveu teria recebido um funeral hebraico. Contudo, devido à delicadeza do tema esses estudos são muito criticados e não há consenso ainda sobre a origem do tecido. Quanto ao pólen utilizado para resolver crimes, falarei de um caso ocorrido em Magdeburgo mais adiante.

Diatomáceas e suas belíssimas carapaças podem ser usadas para elucidar crimes | autoria desconhecida

O estudo das algas também pode contribuir para análises forenses. De especial valia são as diatomáceas, minúsculas algas unicelulares que possuem belíssimas carapaças de sílica. Como a sílica é um mineral, não se degrada tão facilmente, permanecendo no corpo de uma vítima por muitas horas depois de o crime ter ocorrido e, por isso, essas algas são muito úteis para a criminalística. Por exemplo, se a vítima foi afogada, ou se afogou, ela irá acabar inalando água. Com a água vêm milhares de diatomáceas que acabam indo para os pulmões e, a partir daí, para a corrente sanguínea através de minúsculos ferimentos nos alvéolos pulmonares. Por fim, vão parar em órgãos internos e na medula óssea. Assim, se forem identificadas diatomáceas na medula de uma vítima, isso indica que ela estava viva quando entrou na água e que sua causa mortis foi afogamento.

Agora, alguns casos que foram elucidados com o auxílio da botânica forense.

O primeiro caso de que se sabe ter usado plantas para resolver um crime foi o que ficou conhecido como caso Lindbergh. Em 1932, nos Estados Unidos, o bebê Charles Lindbergh Junior foi sequestrado e assassinado e o principal suspeito era Bruno Richard Hauptman. A principal evidência que ligou o sequestro do bebê a Hauptman foi uma escada de madeira utilizada para acessar o segundo andar da casa dos Lindbergh. Através de estudos da anatomia das madeiras da escada, Arthur Koehler, do Laboratório de Produtos Florestais do Serviço Florestal dos EUA, além de identificar quatro espécies de árvores que compunham a escada, demonstrou através das marcas de aplainamento que a madeira utilizada na sua fabricação provinha de um depósito de madeira próximo à casa de Hauptman mesmo antes de ele ser considerado suspeito. Em seguida, Koehler percebeu que a escada havia sido trabalhada com uma ferramenta cujas marcas eram compatíveis um uma plaina de mão encontrada na casa do suspeito. Por fim, o padrão do nó de um dos degraus da escada coincidia com uma madeira cortada encontrada no sótão de Hauptman. Essas três linhas de evidências serviram de provas para a sua prisão e condenação à morte.

Casa da família Lindbergh com a escada usada pelo sequestrador e foto do bebê raptado | New York Daily News

Em relação ao pólen, em 1994 foram encontrados em uma vala 32 ossadas de homens na cidade de Magdeburgo, na Alemanha. Após muito estudo chegou-se a duas hipóteses sobre a origem dos esqueletos: a primeira é a de que os homens teriam sido assassinados pela polícia secreta nazista na primavera de 1945. Na segunda hipótese, as vítimas teriam sido soldados soviéticos mortos pela polícia secreta da Alemanha Oriental no verão de 1953. Palinólogos foram acionados para tentar descobrir esse mistério e recolheram das cavidades nasais dos crânios pólen que teria sido respirado pouco antes dos homens morrerem. As suas análises demonstraram que se tratava de pólen produzido por plantas que florescem nos meses de verão, demonstrando que a hipótese dos soldados soviéticos era a correta.

Outro caso interessante aconteceu em Taipei também, onde um homem foi encontrado morto em uma valeta ao lado de uma estrada, com os joelhos machucados e pedaços de grama agarrada em suas mãos fechadas. Na autópsia, identificou-se um pedaço de folha de bambu em seu estômago. Porém, não havia bambu na valeta. Com mais informações concluiu-se que ele havia sido vítima de um acidente de carro e estava sendo levado a um hospital quando os culpados mudaram de ideia e o abandonaram num bosque de bambu ali perto. Ele ficou algum tempo lá até se arrastar até a vala (como demonstrado pelas contusões nos joelhos e a grama das mãos) e morreu ali.

No Brasil, o caso mais famoso de um crime solucionado com o auxílio da botânica foi o assassinato da advogada Mércia Nakashima, em Nazaré Paulista, SP, no ano de 2010. Após o seu desaparecimento o seu carro foi encontrado no fundo de uma represa por bombeiros e, na manhã seguinte, seu corpo foi localizado. Do alto de uma colina a cerca de cem metros do local do crime uma testemunha que se preparava para pescar naquela madrugada relatou ter visto o carro ser empurrado para dentro da represa, ter ouvido gritos de mulher e viu um homem alto que não conseguiu identificar.

Carro da advogada Mércia Nakashima sendo retirado da represa de Nazaré Paulista | Paulo Toledo Piza

Um suspeito do crime era Mizael Bispo de Souza, ex-namorado de Mércia. Em meio às investigações foi encontrado no lodo preso à sola dos sapatos de Mizael e no tapete de seu carro algas verdes. O biólogo e professor Dr. Carlos Eduardo de Mattos Bicudo, especialista em algas, foi convidado para identificá-las e, de acordo com ele, havia 90% de probabilidade de pertencerem ao gênero Stigeoclonium. Segundo o biólogo, essas algas crescem entre 20 e 50 cm de profundidade em lagos de água doce, necessariamente aderidas a algum substrato, como lodo ou pedras. Segundo ele, a única maneira de aquelas algas estarem no sapato de Mizael seria se ele tivesse entrado na água. Além disso, elas estavam nos sapatos e tapete por um tempo compatível com o dia do assassinato, pois as algas são delicadas e teriam se estragado completamente se tivesse passado mais de três semanas. Ainda, aquelas algas sabidamente cresciam ali, pois haviam sido coletadas anos antes naquela mesma represa pela equipe de Bicudo em um estudo financiado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para estudar as algas do Estado de São Paulo, demonstrando a importância da ciência básica. Quem poderia imaginar que um inventário de algas seria útil mais tarde para solucionar um crime de repercussão nacional?

Algas do gênero Stigeoclonium ajudaram a solucionar o caso Mércia Nakashima | Birger Skjelbred

O depoimento de Bicudo foi uma das principais provas que levaram à condenação de Mizael a 22 anos e oito meses de prisão por ter brutalmente assassinado Mércia e empurrado seu carro para dentro da represa de Nazaré Paulista.

E em relação ao caso da jovem de Taipei que abre este artigo, após encontrarem o ramo em seus cabelos, os pesquisadores identificaram ser de uma planta conhecida como erva-moura (Solanum nigrum), da família das solanáceas, a mesma do tomate e da berinjela. Os pesquisadores voltaram à calçada onde a jovem foi encontrada e acharam mais ramos partidos da mesma planta. Ao olharem para cima encontraram-na plantada em uma jardineira a 3,5 metros de altura. Seria muito improvável que alguém no nível do chão tivesse arrancado aquele ramo. Quando analisaram as plantas os pesquisadores viram que havia alguns caules partidos e isso levou-os a concluir que a jovem não havia sido atropelada e sim caído do alto do prédio. Durante a queda seus cabelos roçaram nas plantas e arrancaram os ramos. Dias depois, quando a família foi contactada, descobriu-se que ela sofria de depressão e já havia feito uma tentativa de suicídio anteriormente. A conclusão foi que ela se suicidou.

Observando esses casos percebe-se que o estudo de plantas e algas pode ser muito valioso para ajudar a solucionar crimes e outros casos forenses. No entanto, essa ferramenta ainda é pouco utilizada, talvez porque as pessoas sempre tendem a subestimar a importância das plantas para o seu cotidiano. Quando ocorrer um crime novamente espero que os legistas se lembrem de perguntar, também, às plantas sobre o que ocorreu. Por vezes elas têm respostas surpreendentes.

A) Rua de Taipei onde foi encontrado o corpo da jovem, B) ramo de erva-moura preso em seus cabelos que ajudou a identificar a causa mortis | adaptado de Coyle et al., 2005.

Este texto foi baseado principalmente no artigo de Coyle e colaboradores, publicado na revista Croatian Medical Journal (em inglês), no artigo de Damas e colaboradores publicado na Revista Brasileira de Criminalística (em português), e na palestra proferida pela professora Dra. Lezilda Carvalho Torgan (da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul) no VIII Seminário em Botânica da Universidade Federal do Paraná que aconteceu em outubro de 2017 e que aguçou minha curiosidade pelo tema, levando-me a escrever este artigo, pelo que rendo os meus agradecimentos.

26 de abril de 2018

Sereias de verdade pesam mais de 300 kg


O mar está agitado e seus sentidos já não estão mais em dia graças ao balanço do navio. Um vai e vem infindável e uma saudade da terra firme, a qual os seus pés já não tocam a muito tempo. Depois de algumas bebidas a bordo, e quando o mar começa a acalmar, um canto suave é ouvido. Não é possível! Será que um dos tripulantes escondia uma voz angelical de mulher? Mas, e o que seria aquela forma tão bonita, com aqueles lindos cabelos longos, lá no horizonte, sentada em uma pedra? Parece que o canto vem de lá, e ele parece tão convidativo!

O mito das sereias é universal, em qualquer lugar do mundo já se ouviu histórias de homens navegantes que escutavam um canto enfeitiçador vindo dos mares e morriam afogados graças a ele. A figura da sereia (nome grego que tem o significado de: meio mulher, meio peixe) também é praticamente a mesma em todos os lugares: uma linda mulher de cabelos longos, com voz encantadora e uma cauda de peixe surpreendente no lugar das pernas e pés. Mas, você já pensou como pode, em tantos lugares diferentes, esse mito ter aparecido? E o que era a tal figura que eles avistavam? Seria possível uma mulher híbrida estar cantando para enfeitiçar homens marinheiros?

Com algum tempo de pesquisas, se chegou a uma conclusão e para a entendermos bem, é necessário que tenhamos compreensão do que era ser um marinheiro naquela época. Imagine que você é aquele marinheiro descrito no primeiro parágrafo deste texto: sem ver terra firme por muito tempo, com o balanço do mar constante alterando seus sentidos e provocando enjôos, e o mais importante: com bebidas fortíssimas e algumas intoxicações alimentares. O resultado de tudo isso? Alucinações, muitas alucinações! Mas, elas não eram sem fundamento, no final das contas os marinheiros, de fato, viam uma figura misteriosa no mar: uma forma que pesava em média 300 kg. 

A Ordem Sirenia, representada pelos únicos mamíferos aquáticos essencialmente herbívoros, recebeu esse nome justamente por conta do mito da sereia, e os membros atuais dessa ordem são os famosos peixes-boi (ou manati) e dugongos. Acredita-se que o que os marinheiros viam no mar eram peixes-boi repousando, animais com um corpo robusto, membros posteriores ausentes, cauda achatada e mamilos nas axilas. Os longos cabelos que eles atribuíam à lindas mulheres? Nada mais, nada menos do que algas que ficavam presas na cabeça desses mamíferos quando eles iam pra superfície. 


Peixe-boi (foto 1) e dugongo (foto 2). A principal diferença entre esses dois mamíferos é o formato da cauda: enquanto o dugongo tem uma cauda parecida com golfinhos, os peixes-boi possuem cauda em forma de leque. Além disso, perceba que o formato do corpo do dugongo é mais “hidrodinâmico”. 

Esses animais habitam rios, estuários e águas oceânicas costeiras rasas, e há apenas duas famílias viventes atualmente: Dugongidae, com duas espécies (Dugong dugon e a extinta Hydrodamalis gigas, conhecida como vaca marinha de Steller), e Trichechus, onde encontram-se as três espécies de peixe-boi: Trichechus senegalensis, Trichechus inunguis e Trichechus manatus

O fato dos mamilos dos peixes-boi serem nas axilas pode ter contribuído para a confusão desses seres com mulheres, já que quando uma fêmea amamenta, ela pode segurar seu filhote de forma semelhante aos seres humanos! Uma curiosidade é de que esses animais foram os primeiros mamíferos marinhos brasileiros a serem descritos, já nos anos 1500, e hoje nós contamos com espécies no nordeste e no Rio Amazonas

Ao mesmo tempo, todas as quatro espécies de Sirenios viventes estão ameaçadas de extinção, sendo que este é o mamífero aquático mais ameaçado de extinção do Brasil. Aqui, eles são protegidos por uma lei ambiental desde 1967, mas apenas na década de 80 é que se deu mais atenção à questão da proteção desses animais, com a criação do Projeto Peixe-boi Marinho. 

Legenda: Peixe-boi amamentando seu filhote dentro da água. Perceba a localização das mamas: na axila! 
Bom, agora a gente consegue entender melhor da onde surgiu tudo isso, né? A intoxicação, bebedeira e desidratação tomaram a frente e pegaram o trabalho de fazer com que um peixe-boi ficasse mais formoso e também perdesse uns quilinhos pra parecer com uma linda mulher. Não fica engraçado pensar que O GRANDE Ulisses, em a Odisséia, teve que ser amarrado no mastro do navio e fazer a tripulação inteira tapar os ouvidos com cera, só pra não ser tentado por um mero peixe-boi? 

The Sirens and Ulysses por William Etty, 1837 - o quadro mostra uma cena de Odisseia, de Homero, onde Ulisses resiste à tentação das sereias ao ser atado pela tripulação, enquanto eles tapavam os próprios ouvidos.