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5 de novembro de 2017

10 Coisas que você aprendeu que NÃO são mais ou NUNCA foram verdade


    Passar conhecimento de geração para geração é uma das coisas que se acreditava ser única dos seres humanos, porém, hoje sabemos que muitos outros animais também fazem isso. Talvez o grande diferencial da nossa espécie seja as muitas e distintas possibilidades de fazermos isso e a grande quantidade de informação que transmitimos para nossos filhos, netos, amigos ou quaisquer outros indivíduos que acabamos convivendo. 

   No meio de tanta informação, é natural que alguns conhecimentos passados não sejam, de fato, verdadeiros, ou então estejam desatualizados. Não é difícil pensar em um exemplo desses, como  o mito de que comer manga com leite faz mal, ou aquele conhecimento aprendido na escola a poucos anos atrás, e que vem sendo atualizado: Plutão não é mais um planeta. 

  Aos poucos a ciência busca requalificar os fatos ao mesmo tempo em que descobre novas perspectivas. Além disso, ela deve fazer com que a informação chegue a todos… é por isso que a divulgação científica se faz tão necessária!

  Pensando nisso, trouxemos alguns exemplos de “fatos” que você provavelmente já ouviu e que nunca foram verdade, ou já não são mais:

1. “Diamantes são os materiais mais duros que existem” 

   O posto dos diamantes como “os mais duros do planeta” está sendo ameaçado não por uma, mas por duas substâncias: a lonsdaleíta e o nitrato de boro com estrutura cristalina de wurtzita, que são, respectivamente, 58% e 18% mais duros que o diamante. 
Em ordem: Nitrato de boro, diamante (no meio) e lonsdaleíta.

  A lonsdaleíta é originada em impactos de meteoros sobre a Terra e a wurtzita de nitrato de boro é encontrada apenas após violentas erupções vulcânicas. É por conta disso que ambos são raros de se encontrar e, consequentemente, ainda estão sendo testados para, enfim, assumirem o posto de substâncias mais duras. Por enquanto, vamos nos manter atentos sobre ambos, o diamante nunca esteve tão perto de perder seu reinado!

2. “Escravos construíram as pirâmides do Egito”

Construção das pirâmides. Fonte: web.
  Heródoto descreveu os construtores de pirâmides como escravos e os filmes de Hollywood propagaram esse mito. Mas, em 1990, um turista andando de bicicleta acabou descobrindo uma tumba, que continha alguns construtores das pirâmides. 

   Em 2010 mais tumbas foram descobertas próximas a Gizé, oeste do Cairo - Egito,  e nelas foi possível perceber que os trabalhadores eram livres e não escravos, ainda que fossem provenientes de famílias egípcias pobres. A honra de serem enterrados em tumbas perto das sagradas pirâmides dos faraós e a forma com que seus corpos foram preparados indica que eles eram respeitados e não menosprezados. Como disse o arqueólogo Zahi Hawass em uma entrevista: “Se fossem escravos, eles não poderiam ter construído suas tumbas ao lado da do faraó”. 

3. “As centopeias têm cem patas”

A belíssima centopeia azul - Pararhachistes potosinus. Fonte: web.
   A palavra “centopeia” significa “com cem pés” e esse falso “fato” de que elas possuem cem pés é passado de geração para geração, por muito e muito tempo. No entanto, já existem mais de 3 mil espécies de centopeias catalogadas ao redor do mundo, e todas elas possuem algumas características em comum: um corpo alongado, com uma cabeça e vários segmentos, cada um com um par de pernas, e não necessariamente cem patas 

   Mas, o que se sabe é que o número desses segmentos pode variar de 15 a 191, o que daria entre 30 e 382 pernas (Fonte: Ciência Hoje). E, para piorar ainda mais a situação desse mito, para que uma centopeia possua 100 pernas, ela teria de possuir 50 segmentos, certo? Acontece que não se conhece, até hoje, nenhuma centopeia com 50 segmentos ou, pior, com um número par de segmentos. 

4. “Touros se irritam com a cor vermelha”


   Na verdade, a capa dos toureiros poderia ser de qualquer cor: verde, azul, amarela… os touros não distinguem o vermelho e nem mesmo essas outras cores, eles apenas conseguem diferenciar o branco e preto, e alguns tons de cinza. O que o enfurece, na verdade, são os movimentos realizados pela capa e, é claro, todo o “circo” montado em torno dele para que se tenha esse espetáculo bastante primitivo e inadequado (não é?).

5. “Os seres humanos só usam 10% do cérebro”


   A possibilidade de que usando os 90% restantes do cérebro você consiga ter até mesmo super poderes é fantástica, mas não passa de um gigantesco mito

   Diferentes áreas do cérebro processam as informações e usam a maioria dos nossos tecidos. Todos aqueles com funções cerebrais normais utilizam cerca de 100% do cérebro diariamente. O nosso órgão está sempre ativo, mesmo quando estamos naquele famoso ócio. 
Filme "Lucy", onde a personagem adquire poderes ao começar a usar mais da sua capacidade cerebral.

6. “Camaleões mudam de cor para se camuflar”


   Mesmo conhecidos como “mestres do disfarce”, os camaleões, na verdade, fazem a troca de cor até mesmo visando o efeito contrário: chamar a atenção. Esses animais podem comunicar diferentes coisas, desde humor (machos com raiva, por exemplo) até receptividade para copular. 

7. “O número da besta é 666”

   Um fragmento do Livro do Apocalipse, do século 3, foi descoberto e analisado em 2005 e trouxe uma grande mudança. Por mais que “666” soe muito melhor, depois da utilização de novas técnicas de fotografia, especialistas em textos clássicos decifraram esse pedaço de texto que era parte de uma série de manuscritos e afirmaram: o verdadeiro número da besta é, o não tão legal, “616”. 

8. “Tudo é feito de matéria e toda matéria é feita de átomos”

   Essa frase é, provavelmente, uma das primeiras que você ouviu/vai ouvir e  aprendeu/vai aprender a repetir na hora de estudar química. No entanto, hoje sabe-se que também existe a antimatéria, que é formada por antiprótons, com carga negativa e pósitrons, com carga positiva. O conceito de antimatéria foi proposto pelo físico inglês Paulo Dirac em 1928, quando ele revisou a equação de Einstein e considerou que a massa também poderia ser negativa. Sabe-se que matéria e antimatéria não existem em conjunto, já que quando se encontram elas geram uma explosão, transformando a sua massa em energia. Acredita-se que elas existiam em quantidades iguais no Big Bang, mas que se destruíram e no fim sobrou mais matéria, que acabou formando os planetas e galáxias.  

9. “O primeiro animal no espaço foi uma cadela, a Laika”

   Na verdade, os primeiros animais a serem mandados para o espaço foram as moscas-da-fruta, enviadas junto com sementes numa espaçonave americana em julho de 1947

10. “Avestruzes enterram a cabeça quando estão em perigo”

   O mito criado por um historiador romano é bastante difundido e recriado até mesmo em desenhos animados. No entanto, o fato é que os avestruzes cavam buracos com seus bicos para fazerem ninhos para os ovos, não para se esconderem de predadores, como afirmou Plínio. Até porque, do que adianta um avestruz esconder só a cabeça, não é mesmo?

   Esses são apenas alguns exemplos de conhecimentos que acabam passando pra frente sem serem bem analisados… é claro que é bom duvidar de tudo, mas fique tranquilo, pois a Terra continua sendo redonda (por mais que, por incrível que pareça, esse conhecimento venha sendo questionado por uma nova onda de terraplanistas), algumas coisas são verdades mesmo, por mais que pareçam verdadeiras mentiras :D 

29 de outubro de 2017

Livro: SPORUM - Dispersando curiosidades biológicas



Seria possível existirem cavalos alados? O que são os fungos que transformam insetos em zumbis? Como os bilhões de neurônios que temos no cérebro se comunicam? Discutindo assuntos tão variados quanto a regeneração dos dentes ou a vida no espaço, este livro se propõe a trazer, de modo leve e divertido, uma série de textos curtos e interessantes sobre diversas áreas da biologia. Uma leitura que certamente interessará qualquer pessoa que gosta de aprender sobre a vida nos seus mais amplos aspectos.
Sporum orgulhosamente apresenta sua obra! Fruto de um trabalho árduo entre os esporádicos e os professores, a versão digital do livro já está disponível gratuitamente para download. Boa leitura
Muito em breve, a versão física também estará disponível!
link para download na página do PET-Biologia: http://www.petbiologia.ufsc.br/…/Sporum-Dispesando-Curiosid…
ou em: https://goo.gl/RWD8Wq

6 de outubro de 2017

Despertando com o documentário Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade


Capa do documentário Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade | Disponível em: https://app.box.com/v/cowspiracy/file/20102353329. Acesso em: 02/10/2017.


O Planeta Terra possui 510,3 milhões km2 de área total, sendo que quase 30% são áreas de terras emersas e o restante áreas dos mares e oceanos. Em uma área com tamanha extensão, uma espécie notoriamente se distingue de todas as outras. Com 7,6 bilhões de indivíduos e uma capacidade tão grande de se moldar às circunstâncias quanto de destruir aquilo que os mantêm vivos, o ser humano utiliza-se dos recursos naturais que são de vital importância para a sua sobrevivência, mas acaba sobre-explorando-os por ganância. O mundo já vem sofrendo as graves consequências desta sobre-exploração, está cada vez mais frequente acordarmos com notícias de tempestades violentas, queimadas gigantescas, quebra dos recordes de secas já registrados, geleiras derretendo, nível dos oceanos subindo, chuvas ácidas dizimando florestas e lagos, ... . Mas como podemos realmente fazer a diferença frente aos problemas climáticos que o planeta vem sofrendo e que todos já estão sentido suas consequências? O que podemos fazer para ajudar? Se formos procurar por esta resposta em jornais, revistas, sites, blogs, ONG’s, entre tantos outros, a esmagadora maioria nos dirá: recicle o seu lixo, mude as lâmpadas da sua casa, utilize torneiras e chuveiros de baixo fluxo, tome banhos mais curtos, feche a torneira para escovar os dentes, utilize descargas eficientes, equipamentos econômicos, apague as luzes ao sair dos cômodos, conserte vazamentos em encanamentos, ande de bicicleta, prefira transportes coletivos ao invés de individuais, … e a lista não acaba. E se todo mundo adotasse essa mudança de hábitos, será que realmente resolveríamos o problema? Sinto muito em lhe informar que a resposta é não!
A partir de agora serão apresentados fatos e depoimentos de especialistas que revelarão “O Segredo da Sustentabilidade”, slogan do documentário norte-americano Cowspiracy, de 2014, escrito e dirigido por Kip Andersen e Keegan Kuhn.
Segundo a entrevista dada no documentário pelo Dr. Richard Oppenlander, pesquisador ambiental, se ninguém mais usar qualquer gás ou combustível a partir de agora, ainda assim excederíamos as emissões máximas de gases do efeito estufa, simplesmente por causa da pecuária de consumo, conforme ele também revela em seu livro “Food Choice and Sustainability”.
A prática da agricultura animal produz mais gases de efeito estufa do que todas as emissões dos setores de transporte juntos, rodoviário, ferroviário, aéreo e marítimo. Comparando-se isso em porcentagem, são 51% das emissões de gases de efeito estufa produzido pela pecuária e seus subprodutos contra 13% das emissões dos setores de transporte. Como se isso já não fosse o bastante, o gás metano produzido pela pecuária é 86 vezes mais destrutivo que o CO2 produzido pela queima de combustíveis fósseis dos veículos. E o óxido nitroso, o qual a agricultura animal é responsável por 65% das emissões mundiais, tem potencial 296 vezes maior de causar o aquecimento global do que o CO2 por Kg.
As previsões são de que até o ano de 2040 as emissões de CO2 relacionadas a energia deverão aumentar 20%, enquanto que as previsões para o aumento das emissões da pecuária são de 85% até o ano de 2050, devido ao aumento no consumo de carne e laticínios. Então como o vilão número 1 do aquecimento global podem ser os setores de transporte e energia? Porque o silêncio das organizações ambientais e de todos sobre a agricultura animal se ela é a maior causa das mudanças climáticas, consumo de recursos e degradação ambiental? Para responder a isso sugiro fortemente que assista ao documentário Cowspiracy e veja as respostas destas grandes organizações do porquê contribuem para esconder esses impactos da sociedade. Mas o fato é que algumas pessoas realmente tentaram, e somente o Brasil é responsável por metade dos casos de assassinato a ambientalistas no mundo inteiro!
Segundo o Dr. Will Tuttle, autor do livro “The World Peace Diet”, hoje todos os seres humanos, juntamente com os animais de criação, representam 98% da massa vital da Terra, enquanto todos os animais silvestres e selvagens representam apenas 2%. A criação de animais para a alimentação é responsável por 30% da água consumida a nível mundial,enquanto o uso doméstico é de apenas 5%; ocupa cerca de 45% dos terrenos, é a responsável pela destruição de 91% da Amazônia brasileira, e é a principal causa da destruição de habitats e da extinção de espécies. Estima-se que 1 campo de futebol seja desmatado nas florestas tropicais a cada segundo para a agricultura animal, onde todos os dias cerca de 137 espécies de plantas e animais desaparecem.
Um hambúrguer de 113 g consome 2.498 L de água para ser produzido, ou seja, comer um hambúrguer seria equivalente a tomar um banho por 2 meses inteiros! Já no caso das vacas leiteiras, para a produção de 1 L de leite são necessários 1.000 L de água. Enquanto a população humana mundial consome 19,68 bilhões de litros de água e 9,51 bilhões de quilos de alimentos por dia, somente a população de vacas do mundo consome 8,6 vezes mais água e 6,4 vezes mais alimentos que o ser humano por dia! E esse não pode ser considerado um problema causado pela população mundial, é um problema causado pela população que consome carne e seus subprodutos, mas que afeta a todos!
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), mais de 70% dos peixes do mundo sofrem atualmente com a pesca predatória, o que tem reduzido drasticamente suas populações. Na forma que a pesca é feita hoje, basicamente por redes de pesca, algumas estimativas sugerem que para cada 1 Kg de peixe pescado há cerca de 5 Kg de outros animais pescados “acidentalmente”, como tartarugas, golfinhos, baleias e tubarões. Este último inclusive encontra-se bastante ameaçado por conta do consumo da carne de “cação” (lê-se tubarão) no Brasil.
O Dr. Will Tuttle, diz que no mundo estima-se que 1 bilhão de pessoas passem fome todos os dias, pois 52% dos grãos e legumes plantados são destinados à alimentação da pecuária. Indiretamente, é a população que consome carne novamente a responsável pela fome de 1/7 do planeta, juntamente com a desigualdade social e o desperdício, visto que o mundo já cultiva comida suficiente para alimentar 10 bilhões de pessoas, mas o destino deste alimento é para onde ele for capaz de gerar mais lucros, e neste caso aqueles que podem pagar priorizam a pecuária e não a população faminta! Entretanto, as pessoas não querem ter que ouvir isso, porque faz com que elas sintam-se desconfortáveis, como se tivessem que sair da sua zona de conforto e agir! Faz com que elas tomem a consciência de que algo precisa ser feito, de que uma mudança de hábitos é necessária, e muitos não querem ter que fazer isso. A questão é tão simples e ao mesmo tempo tão complexa, porque tudo só depende das pessoas quererem mudar.

Se frear o aquecimento global não for justificativa suficiente, que seja pelo desmatamento, uso da terra, escassez de água, fome, desequilíbrio das comunidades, perda de habitats, extinção de espécies, pelo futuro do planeta e das próximas gerações. Além de todas essas razões, as pessoas se abstraem do fato de que comer carne é tirar a vida dos animais. A maioria delas não seriam capazes de tirar a vida de um animal com as próprias mãos, mas tudo bem pagar para que outras pessoas tirem essas vidas por elas.

A conclusão é simples, alimentar uma pessoa em uma dieta vegana, a base de plantas, por um ano inteiro requer 1/6 de um hectare de terra, enquanto alimentar a mesma pessoa em uma dieta vegetariana, que inclui ovos e leite, requer 3 vezes mais terra. Alimentar um cidadão americano padrão, por exemplo, que consome carne, ovos e leite requer em comparação 18 vezes mais terra! Agora imagine este cenário em um mundo em que nascem 211 mil pessoas todos os dias! Um indivíduo com uma dieta vegana economiza 4.163,5 L de água, 20,03 Kg de grãos, 2 m2 de terreno florestal, 4,5 Kg de CO2 e 1 vida animal por dia!
Segundo o depoimento do Dr. Oppenlander no documentário Cowspiracy, quando as pessoas aderem às campanhas como ‘segunda-feira sem carne’, elas estão essencialmente contribuindo para a destruição do planeta apenas 6 dias por semana ao invés de 7. Elas criam uma falsa justificativa pelo o que estão fazendo nos outros dias da semana. Já o ex-pecuarista e autor de “Mad Cowboy”, Howard Lyman, é ainda mais incisivo em seu depoimento ao dizer que uma pessoa não pode ser ambientalista e ao mesmo tempo consumir produtos de origem animal! Segundo ele qualquer um pode se enganar o quanto quiser, e continuar alimentando o seu vício, mas não pode se considerar um ambientalista!
Estamos assistindo o mundo colapsar com o passar de cada ano, o planeta não irá suportar o atual crescimento e a manutenção de velhos hábitos da nossa população, todos colherão o que estamos plantando hoje. O segredo da sustentabilidade foi revelado e a mudança não virá enquanto cada um ficar esperando pela mudança do outro ou por um outro momento. “Seja a mudança que você quer ver no mundo” (Mahatma Gandhi).



Infográfico adaptado mostrando a diferença entre expectativa de vida e idade de abate dos animais na indústria | Disponível em: http://www.skoolofvegan.com/cartoons.html. Acesso em: 02/10/2017.

Referências:
COWSPIRACY: The Sustainbility Secret. Direção e Produção de Kip Andersen e Keegan Kuhn. Estados Unidos: A. U. M. Films First Spark Media, 2014. (91 min.).
Planetário da UFSC. Dados sobre o planeta Terra. Disponível em: <http://planetario.ufsc.br/dados-sobre-o-planeta/>. Acesso em: 02 out. 2017.

25 de setembro de 2017

O Problema da Demarcação

Uma imagem da quântica do cérebro, que não existe.
(autor desconhecido). acesso: set 2017
O Problema da Demarcação surge com a pergunta: “Como diferenciar a Ciência da Não-Ciência?”. Veja, isso parece muitas vezes dado. Pessoas, principalmente divulgadores de ciência, afirmam “isso é científico, isso é pseudocientífico”. Mas permanece a questão: “como decidir se, de fato, é assim? ”

Há várias tentativas de resposta, umas melhores que outras, como de costume, e certamente, nenhuma conclusiva.  Na verdade, é raro (ou talvez nunca tenha acontecido) encontrarmos uma conclusão definitiva para um problema filosófico. Mesmo assim, pretendo dar condições frequentemente entendidas como necessárias (ainda que não suficientes) e também algumas dicas para que quando surgir alguém com papo cheio de certezas científicas garantindo coisas incríveis e maravilhosas, você, mesmo sem o conhecimento relativo à área possa intuir sua falta de cientificidade.

Para começar eu adoraria definir o que é ciência, contudo não consigo. Por duas razões:
  1. Ao longo da história da ciência, muitos métodos e muitas formas do fazer científico(que geraram grandes resultados) não são mais aceitáveis para os objetos de estudo atuais, tendo as ciências se diversificado amplamente com metodologias ainda mais plurais. As Não-Ciências também se modificam bastante ao longo do tempo. Ou seja, definir ciência de uma forma robusta e aceitável por todo mundo (ou quase todo mundo) é bastante difícil.  No entanto, não fiquem desapontados: há definições parciais que podemos adotar. Podemos elencar algumas características NECESSÁRIAS para ciência ainda que não sejam SUFICIENTES. Em outras palavras, isso significa que podemos afirmar que qualquer ciência tem que ter essas características, ainda que alguns corpos de conhecimento possam ter essas características e não serem ciência.
    Parece bastante claro que a ciência é um conjunto de teorias científicas. Mas se alguém pensar dez segundos nessa definição, notará que ela tem um grande problema: Da forma que ela se encontra, ela é circular. Ou seja, define-se algo utilizando essa mesma coisa, o que não ajuda em nada, uma vez que se eu não sabia o que era ciência, eu não saberei o que é algo científico.  Para resolver isso, podemos explicar teorias científicas em termos de outra coisa, que nós efetivamente sabemos o que é,em outras palavras, dar critérios para avaliar se alguma coisa é uma teoria científica. Um exemplo de definição circular é a famosa definição de “conjuntos” feita no século XIX pelo matemático Georg Cantor, Ele definiu conjuntos como “coleções de objetos”, mas o que é uma coleção senão um conjunto de objetos? partindo apenas dessa definição  não iriamos a lugar nenhum. Ele no seu trabalho dá exemplos do que são conjuntos e isso foi suficiente. O objetivo desse texto, por outro lado, não permite um recurso a exemplos, pois o que queremos é um critério, uma vez que, ao contrário dos conjuntos as ciências mudam e nascem.
Para fazer isso, começamos explicando o que é uma teoria, e creio que teremos que ser abrangentes. Lembra do que eu disse sobre termos muitas formas de fazer ciência e muitas ciências? Se formos muito restritos no que diz respeito ao que é uma teoria, corremos o risco de perder algo importante. chamaremos de teoria um conjunto consistente de proposições que descrevem e/ou explica algum fenômeno no mundo. A consistência significa que não teremos proposições contraditórias. Por exemplo:  “as espécies evoluem e ficam estáticas ao passar do tempo considerando as mudanças de ambiente.” Isso não será permitido, e creio ser bastante óbvio o motivo (há, contudo, uma explicação formal em Lógica que nos mostra o porquê de não aceitarmos contradições, mas é bastante técnica). Agora falemos de proposições. De forma não muito técnica, proposições são frases declarativas (não podem ser perguntas, ou imperativos) que podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. (na verdade, essa definição tem problemas bastante grandes, mas ela basta para o que pretendemos). Dito isso, vamos para a próxima parte: precisamos determinar o que faz uma teoria ser científica.

Que comece a diversão.
Tentativa de resolver o problema 1. Todo o conhecimento científico deve ser baseado na experiência. Fácil... fácil demais...
Bem, realmente isso não basta. A Matemática e a Lógica não são experimentáveis. No sentido de que para provar um teorema a respeito de geometria não caçamos no mundo triângulos perfeitos e medimos, elas têm seus próprios métodos de testes a saber as “provas”. Você não considera a matemática uma ciência? Tudo bem, (muitos discordam nisso, realmente eu, particularmente sou mais pluralista), mas ainda podemos ter o mesmo problema com a física teórica, com alguns aspectos da economia, da sociologia etc. Parece mais barato trocar de princípio, afinal é um pouco arbitrário demais simplesmente dizer que tantas áreas e grandes cientistas na verdade são não-ciências e não-cientistas. Mesmo assim, parece fundamental para o conhecimento científico a experiência. Paradoxal, não? Na verdade, não. A experiência é um critério para JUSTIFICAR uma teoria. Uma razão para aceitá-la. Mas mesmo ciência incorreta é ciência. E um cientista que errou ainda é um cientista. Entendeu a sutileza?
Tentativa número 2 Uma teoria científica é aquela que é testável
A diferença entre as duas tentativas é bastante sutil, mas importante.  A segunda ganhou pontos por incluir a matemática e a Lógica, se entendermos “testável” de forma suficientemente ampla. Ganhamos também a física teórica, a economia e etc. Essa ideia foi concebida com um nome diferente por um grande filósofo vamos repaginá-la e analisá-la mais de perto. Uma teoria é científica se for falseável.
Esse termo “falseável” obviamente não surgiu do nada. Karl Popper¹ foi um dos filósofos da ciência que mais conseguiram aderência dentro da comunidade científica pelo menos no que diz respeito ao Problema da Demarcação. Ele propõe que uma teoria científica não pode ser confirmada, uma vez que a tecnologia de verificação pode melhorar indefinidamente e a história nos mostra que mesmo teorias que foram testadas e confirmadas exaustivamente por muitos anos, se demonstraram incorretas (ou insuficientes) após novos testes. Por exemplo a mecânica clássica para corpos com velocidade ou massa muitíssimo elevados. Ele sugere então que as teorias científicas devem ser sempre revisadas e nunca podem ser confirmadas de fato, mas sim mantidas até encontrarmos um teste que falseie essa. Esse princípio é para mim um uma poderosa lição contra quem afirma que “a ciência é arrogante e acha que sabe de tudo”. Somos falíveis. Einstein era.  Newton era. Darwin era. Seu professor é. Você é. Eu sou. Autoridades não podem garantir a certeza do que dizem². A comunidade científica, por outro lado, assume isso. Para cada teoria descartada achamos uma mais próxima de como o mundo é. Para cada artigo publicado propondo uma explicação melhor, nossas mensurações ganham novas casas decimais de confiabilidade; nossos remédios ganham maior eficiência; nossas comunicações mais velocidade. Mesmo assim, nunca saberemos se essa teoria vigente é a que descreve o mundo. Devemos ser humildes. O critério é imperfeito, contudo. Por exemplo, um culto que afirma que uma espécie alienígena virá nos salvar no ano 3000 pode ser testado, não agora, claro. Pelo nosso critério ele seria científico. Poderíamos contra argumentar que ele é em princípio testável, mas não na prática. Contudo, o que é ou não testável é algo relativo aos limites da tecnologia disponível e isso está sempre mudando. Portanto diferenciar o que é falseável em princípio e de fato talvez não seja algo tão fácil. Contudo, toda a ciência deve ser falseável e podemos adotar esse como um critério útil, mas não decisivo. Infelizmente, Astrologia, Homeopatia e outras famosas pseudociências são falseáveis relativamente à algumas exposições de seus defensores. Seriam elas teorias científicas meramente incorretas? Não. Há outros critérios úteis. Critérios práticos e teóricos que fazem dessas teorias realmente “não-científicas”. Precisamos antes separar, entre as não-ciências, as pseudociências. As não ciências envolvem coisas normais do dia-a-dia, conhecimento de ordem prática “não coloque seu dedo no liquidificador, se você quer que ele continue com você”, por exemplo. Há também conhecimentos teóricos não-científicos como a Ética (para muitos, filosofia em geral), fofocas, artes, etc. já o termo “pseudo” nos leva diretamente a imaginar um tom depreciativo. O que geralmente é verdadeiro. Há razões para isso.  A argumentação e estrutura de exposição das ideias de um texto pseudocientífico geralmente é falacioso apelos à autoridade, falso dilema, escolha específica, generalização apressada etc. Isso tudo apenas para que ideias pareçam bem fundamentadas. Além desses vícios argumentativos há também a intenção de relatar algo a respeito do mundo e, comumente má-fé epistemológica (relativa às garantias de veracidade das afirmações) esse último ponto eu ilustro a seguir e o primeiro  eu guardarei para um texto futuro.  Eis algumas características para o reconhecimento de um texto pseudocientífico:
1-      As falácias se distribuem abundantemente. Sendo o apelo à autoridade o mais marcante. Albert Einstein pode ter sido um gênio e sem dúvida teve algumas boas frases na vida. Mas nem por isso é um guia para todas as coisas no mundo. Nem ninguém por ser um gênio em alguma área devia ser entendido como autoridade para qualquer uma.
2-      Usam termos sem defini-los. Energias, vibrações, (insira-qualquer-coisa-aqui) Quânticas, pontos vitais, consciência, alma, etc.. Isso dificulta bastante a análise e dá um ar de seriedade para algo que verdadeiramente significa nada ou muito pouco. É tão possível afirmar a verdade de uma frase como “as vibrações do cosmos reverberam no núcleo dos teus átomos revelando o salto das energias quânticas e liberando todo o poder da consciência.” Quanto “das coisas que são vermelhas apenas as mais alegres permeiam as paredes dos castelos da alma”. Pode parecer (ou mesmo ser) poético, e poli-interpretativo. Mas ciência não é arte, um efeito fotoelétrico não nos permite concluir qualquer coisa. Dessa forma a linguagem científica deve ser extremamente precisa ao descrever os fenômenos e a arte pode ser como o artista quiser. Esse tipo de linguagem também dificulta amplamente a falsificação da teoria, por não se saber exatamente o que testar. qual das interpretações seria a que realmente se afirma?
3-      Aparente cientificidade: Eles reestabelecem muitas vezes que o que fazem é ciência. Frases do tipo: “essa nova ciência”, “a ciência dos astros quânticos”, “a ciência das curas secretas”, “a ciência do espírito e não do corpo” e por aí vai. Se ao longo do texto for usada a palavra ciência mais de que 3 vezes em um parágrafo, desconfie.
4-      É comum usar resultados de experimentos ou princípios famosos interpretados pessimamente para dar esse ar científico: A Mecânica Quântica (esta sofre especialmente), a Evolução, o Teorema da Incompletude de Gödel e etc. tem aplicações muito específicas, por enquanto. E aliás, são muitíssimo bem conhecidos por pesquisadores. Qualquer um deles saberia se esses fenômenos provam a existência de vida após a morte ou coisas do tipo.
5-      Utilização de pesquisas isoladas como comprovação: há cientistas ruins e péssimos assim como para qualquer coisa. Um artigo, um livro não “prova” nada. A comunidade de pesquisadores de uma área que produz, discute e testa inúmeras ideias é nossa fonte mais confiável. Às vezes surgem uns ou outros pesquisadores que decidem que sabem a verdade e a academia não os reconhece por ser muito fechada a novas ideias. Contudo, com efeito, na história da ciência se alguém que tinha essa postura realmente atingiu seu objetivo eu desconheço. Creio que a razão disso seja, principalmente, devida ao fato de que essa premissa está errada. A academia é contra afirmações muito poderosas com pouca evidência. E até agora essa posição se mostrou sábia.
6-      Recurso à sabedoria ancestral de povos distantes: é muito comum ler coisas como “os antigos sábios chineses (indus, indígenas, etc.) afirmavam que tal-e-tal”. Note que nunca existiu internet, antibiótico, vacinas, expectativa de vida tão elevada e etc. Se há uma época em que o mundo está bem armado de conhecimento é agora e devido à ciência. Os sábios antigos podem ter (e têm) grandes ensinamentos morais, contudo quanto ao funcionamento do mundo é melhor ler o que dizem os cientistas, embora, não haja civilização melhor que outra, a tecnologia analisada puramente é  tanto melhor quanto mais acurada é o relacionamento com o mundo que fornece, nisso as técnicas da ciência ocidental são as melhores, por outro lado, a maior parte dos povos não ocidentalizados estão muito bem sem ela, pois vivem perfeitamente adaptados ao seu ambiente natal.
7-      A ciência “oficial”³ não aceita tal-e-tal por ser conservadora, reducionista, materialista, etc.: Não existe ciência oficial! Não existe “paradigma da ciência” em geral. Cada área lida com suas particularidades, algumas estão em plena aurora (neurobiologia vegetal, por exemplo) e outras estão relativamente mais consolidadas e por isso menos “na moda” (sim, há dessas coisas em ciência, afinal são seres humanos que precisam publicar artigos, ou seja, descobrir algo. Uma área exaurida não é tão convidativa), contudo, qualquer bom trabalho de investigação empírica que fosse realmente revolucionário seria muito bem o recebido, isso é, todos os pesquisadores da área iriam tentar mostrar que aquilo está errado, se não conseguirem “its revolution”.
8-      Por fim, um descaso com o “escopo das afirmações”: para explicar isso, usarei um exemplo. Imagine que alguém veja uma pessoa muito alta na rua. E depois essa pessoa comenta com você “eu vi a maior pessoa do mundo na rua”. Então você sabiamente pergunta “como você sabe que era a pessoa mais alta do mundo? ” E ela responde “era realmente muito grande, não há ninguém maior”. Você nota que afirmação bizarra? Faltam muitas evidências. O correto seria afirmar em formato de hipóteses “ele PARECE ser o mais alto” ou definir um contexto conforme a sua certeza “ele é o mais alto que EU JÁ VI”. Esse tipo de ultrapassagem de escopo é utilizado quando se faz uma afirmação gigantesca como “tudo é energia” derivado de coisas como princípio de conservação de energia, ou “você emite energias positivas e negativas” derivado da Teoria Quântica de Campos. As premissas não suportam nem um pouco a conclusão.


Note que eu apresentei características gerais de textos pseudocientíficos (coloquei alguns exemplos nos hiperlinks) e deixarei para outro texto os motivos que me levam a acreditar que servir-se de pseudociência para explicar fenômenos é um erro grave.
Agora, para finalizar sugerirei um jogo Bingo da Pseudociência: pegue aleatoriamente duas das características acima e dê para os participantes do jogo, depois um colega abre um livro de misticismo pseudocientífico em qualquer página e lê alto. Quem encontrar as características recebidas na leitura primeiro, ganha. Se ninguém ganhar nunca, entenda meu texto como refutado, porém eu creio que minhas chances são altas. Boa diversão.
Um último e breve aviso, todas as opiniões expressas no texto são minhas e qualquer consequências devem ser relegadas apenas a mim. A menos que sejam positivas, nesse caso elas são para todos do Sporum.
       Referências:
1-SILVA, P., A filosofia da Ciência de Paul Feyrabend, editora instituto Piaget Lisboa Press. 1998 Pp. 28-50
2-SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: A Ciência como um luz na escuridão, Editora Companhia de Bolso, 2006, pp 40-110
3-GOSWAMI, A.  O Médico Quântico, editora CULTRIX, press.2004, pp.11-45
                  

11 de setembro de 2017

Quando você olha no olho de um cão, ele te olha de volta

    
Você diria "não" para um carinha tão simpático? | Autor desconhecido


A domesticação é um processo onde uma população é isolada reprodutivamente de outra intencionalmente pelos seres humanos. A consequência desse processo é uma tendência à especiação, refletida por mudanças morfológicas, comportamentais e genéticas. A domesticação de animais e plantas precede o surgimento das primeiras civilizações humanas. Acredita-se que essas atividades vêm sendo realizadas pela nossa espécie há pelo menos 10.000 anos, podendo ser ainda um pouco mais antigas, como sugerem alguns artigos. Esse processo, primordial para a agricultura e pecuária, marcou de vez a transição de um estilo de vida nômade de nossos ancestrais para um estilo sedentário. Isso não refletiu somente em um crescimento considerável nos níveis populacionais de nossa espécie, como também foi um dos responsáveis na formação dos conceitos iniciais de família, moeda, propriedade privada e até mesmo de Estado. Entretanto, antes mesmo dos humanos realizarem o manejo de animais e plantas selvagens, objetivando uma maior disponibilidade e facilidade na obtenção de alimento, os cachorros (Canis lupus familiaris), nossos tão fiéis companheiros, já nos acompanhavam em nosso estilo de vida errante e cercado pela hostilidade do mundo selvagem.

Conforme já abordado aqui no blog em outro texto, não existe um consenso sobre há quanto tempo ocorreu a domesticação dos lobos que deu origem aos nossos tão queridos cães, sendo esse um debate sempre incendiado conforme novos estudos são publicados. Acredita-se, contudo, que esse processo de divergência genética entre as populações de lobos selvagens e os domesticados deu-se entre 20.000 e 40.000 atrás, com indícios sugerindo que talvez tenha ocorrido mais de uma vez ao longo da história humana. Isso torna ainda mais complicada a tarefa de demarcar qual o período exato em que nossos amigos caninos abandonaram a vida selvagem para viver ao nosso lado.
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Representação artística de lobos domesticados e seres humanos em seus primeiros assentamentos
 | Autor desconhecido


O início das relações harmoniosas com o ser humano deu-se a partir da aproximação de lobos que possuíam um comportamento menos agressivo, e que, aparentemente, tinham uma tendência menor a evitar a presença humana, seguindo os assentos humanos em busca de comida fácil. Essa hipótese é reforçada por estudos que analisam padrões e efeitos de domesticação em outros animais, como raposas. Após algumas gerações de seleção artificial realizada pela nossa espécie, esses lobos domesticados já conviviam conosco harmoniosamente oferecendo proteção (e recebendo proteção para seus filhotes), além de serem hábeis e precisamente úteis ao auxiliar na caça por alimento nos assentamentos humanos. Através da seleção de outras características desses animais, tanto comportamentais quanto morfológicas, incontáveis variações foram surgindo nessas populações e assim, surgiram o que chamamos hoje de cães, com suas inúmeras raças e peculiaridades.


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A seleção artificial levou ao surgimento de incontáveis variações morfológicas e anatômicas. Uma árvore filogenética ilustrando as raças existentes de cães e outros canídeos| Fonte: von Holdt et al., 2010 


Curiosamente, o processo de domesticação canina difere sutilmente da domesticação de outros animais. Isso porque quando comparamos nossa relação atual com os cães e com outros animais por nós domesticados, notamos que o primeiro grupo está intimamente associado com cotidiano humano, e não por acaso, seus representantes recebem o apelido de “melhor amigo do ser humano”. Além do valor econômico (o uso de cães para pastoreio, por exemplo), os cães apresentam também um valor simbólico, religioso e emocional muito forte, como pode ser observado ao longo de boa parte das diferentes civilizações da história humana, reforçando a relação íntima dos nossos amiguinhos de cauda inquieta com os nossos antepassados. Apenas outro animal compartilha uma relação e um histórico tão próximo conosco: o gato (Felis silvestris catus), o queridinho da internet

Os cães não são os únicos capazes de reconhecer e interpretar sinais humanos. Os gatos também possuem essa habilidade | Autor desconhecido


 Apesar da hipótese de que os gatos domesticaram a si mesmos, é inegável que esses animais também adaptaram-se ao longo de incontáveis gerações para conviver e comunicar-se com nossa espécie. Entretanto, quando nos referimos à comunicação entre seres humanos e outros animais, a sofisticação dos cachorros e sua capacidade de compreensão impressiona. Em outras palavras, é quase como se eles tivessem evoluído para aprender a reconhecer e interpretar a linguagem humana e nossos gestos específicos. Seria esse comportamento uma mera coincidência ou um sinal de coevolução?

Gesticular é tão importante para a comunicação humana quanto escrever, falar ou usar expressões faciais, acreditando-se que essa característica específica humana está diretamente associada com o aprendizado de palavras. Um estudo publicado em 2011, pela Universidade de Eötvös Loránd, em Budapeste, traz uma abordagem evolutiva acerca da comunicação humano-cão através dos gestos. No estudo verificou-se o quão notória é a capacidade dos cães em reconhecer os gestos humanos (distinguindo até mesmo variações desses) e sinais através de olhares. Curiosa é também a habilidade em reconhecer palavras, mudanças de entonação e mudanças de humor de uma pessoa, e tudo isso, mesmo com pouco tempo de vida ou sem exigir um grande e exausto adestramento. Isso é um fator decisivo, pois aponta o quão naturalmente propensos são os cães para se relacionar com os seres humanos. Uma das hipóteses para essa característica atual dos cães, é que, ao longo do tempo, os seres humanos selecionaram especificamente os indivíduos com maior capacidade em aprender a compreender as nuances humanas e seus sinais.

Em um estudo de 2003, comparou-se espécies de animais que foram treinados para reconhecer gestos humanos, olhares ou palavras (como chimpanzés), e ficou nítida a diferença no desempenho entre as espécies: os cães obtém um desempenho superior a outros animais (como chimpanzés, cabras, ratos etc) em diversos testes. Comparando ainda o desempenho dos cães, com espécimes domesticados de lobos-cinzentos (Canis lupus), observou-se que essa habilidade cognitiva está associada com a interação visual entre o animal e o ser humano. Em outras palavras, isso sugere que os cães possuem um desempenho melhor pois encaram muito mais atentamente o ser humano, além de serem detentores de uma maior plasticidade significativa em reconhecer variações no uso desses gestos e olhares. 

Em um exemplo prático, seria muito mais vantajoso ao ser humano animais que mantivessem contato visual durante uma ordem específica, como durante a caça, rondas ou pastoreio. Ainda em um outro estudo sobre a comunicação entre seres humanos, os cães e os gatos, foi observado que enquanto os cães, quando se deparam com uma situação insolúvel (como ter que escolher entre duas caixas onde apenas uma contém comida, sem saber distinguir qual), possuem uma tendência a buscar o contato visual humano em busca de uma solução para o dilema, os gatos simplesmente decidem resolver as coisas por si mesmos, ignorando a presença humana como um fator favorável para a solução de seus problemas.

A busca por uma melhor compreensão acerca da capacidade cognitiva dos cães e outros animais em comunicar-se conosco ainda continua (como na tentativa de pesquisadores em compreender se os golfinhos possuem realmente uma linguagem), juntamente com a tentativa de elucidar os processos e causas que levaram a essa incrível relação interespecífica. Portanto, da próxima vez em que você olhar para seu cão, e tiver a impressão de que ele talvez entenda o que você está sentindo ou dizendo, tenha em mente que provavelmente isso não seja uma possibilidade tão remota assim. 


Autor desconhecido


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