Logo



Menu

Posts Recentes



13 de abril de 2018

A bioquímica por trás de um litrão


O que monges medievais, guerreiros nórdicos, diplomatas prússios e estudantes da universidade têm em comum? Todos eles complementavam suas dietas e rituais sociais com cerveja. Seja qual for o tipo, o preço e a quantidade de lúpulo, a cerveja é um líquido de amplo consumo. Sua fabricação foi tornada uma arte por inúmeros mestres cervejeiros e cada detalhe na execução dos rigorosos métodos de fabricação importa para que grãos, flores e fungos façam apresentem em conjunto o melhor dos gostos, destacando as características singulares de cada tipo desse mágico refresco alcoólico.

Os efeitos sociais e bioquímicos do consumo de cerveja já são bem conhecidos por todos, no entanto, esse pequeno texto se dedicará a analisar cientificamente os procedimentos para a fabricação de cerveja, sem, no entanto, adentrar nos meandros técnicos das explicações.

O nome em inglês e alemão (beer/bier) para cerveja deriva do latim bibere que significa “beber”. O local da sua origem é controverso, mas a sugestão mais plausível é de que ela nasceu na Mesopotâmia ou no Egito cerca de 8000 anos antes da era Comum (a.C). É interessante ressaltar que o hábito do consumo e fabricação de bebidas alcoólicas é mundialmente encontrado. E, assumindo uma definição bem ampla de ‘cerveja’, pode-se afirmar que ela já existia, entre outros lugares, como na Amazônia! (onde aqui ela era feita de mandioca). Ela se desenvolveu pelo mundo todo principalmente em padarias (onde era feita majoritariamente por mulheres) e em mosteiros, onde monges estudavam a teologia e os segredos da santidade cristã e nas horas vagas faziam e fermentavam seu prazer na vida. Mas como, afinal, se faz cerveja?

Primeiramente, os ingredientes!

O primeiro passo é o mais óbvio, colher os ingredientes fundamentais da cerveja. Seguiremos a ideia da lei de pureza na qual a cerveja possui apenas 3 ingredientes: malte de cevada, lúpulo e água.

A cevada é um dos grãos de domesticação mais antiga. Estava presente já nas primeiras grandes civilizações mediterrâneas e do Oriente Médio. Ela é rica em proteínas e amidos. Os amidos são açúcares complexos, moléculas grandes que servem, em geral, para guardar energia para as plantas sobreviverem em épocas de escassez. Os seres humanos são capazes de quebrar o amido em açúcares menores e digerí-los, porém vários outros seres vivos não têm essa capacidade, entre eles as leveduras sobre quem falaremos mais em breve.

O lúpulo é uma planta da espécie Humulus lupulus e usamos suas flores para incorporar o gosto amargo, delicioso e característico. Foi usado inicialmente devido a esse amargor, no entanto se observou posteriormente que ele também mantém a cerveja sem estragar por mais (muito mais) tempo.

A água é um líquido e vocês a conhecem. Vou acrescentar apenas que dependendo dos minerais diluídos na fonte a cerveja pode ter gostos diferentes e até ser incapaz de ser usada para fazer alguns estilos de cerveja, muito importante também é regular o índice de acidez da água, tal cuidado é fundamental para que o processo funcione.

Comecemos então: uma vez colhidos os ingredientes temos que ter em mente qual cerveja faremos. A cerveja é uma bebida de baixo teor alcóolico de fermentação simples (não destilada). Ela é gaseificada e tem algumas propriedades de gosto,coloração e densidade, é relativo a esses últimos que nós iremos escolher o estilo da cerveja: queremos ela mais amarga ou menos? Com gosto de frutas cítricas, doces, caramelo, lúpulo ou especiarias? Indiferente da resposta que dermos, o processo de fazer a cerveja é quase o mesmo se modificando nas escolhas de lúpulo, malte e adjuntos (outras coisas que se coloca junto com o lúpulo para dar toque especiais). A ideia geral por trás da fabricação de cerveja é liberar açúcares pequenos a partir dos amidos que serão alimentos para as leveduras, elas se multiplicarão e depois serão obrigadas a fazer processos anaeróbios para produzir sua energia; e os principais resíduos desse processo são o álcool e o CO2. O álcool é um efetivo fungicida e sua presença começa a restringir a capacidade máxima de leveduras até que o processo se estabilize e a produção de álcool cesse, quando se quer muito mais álcool faz-se uma destilação simples para retirar o álcool “puro” como é o caso da cachaça e da vodka, por exemplo. A cerveja não é destilada e, portanto, não tem um teor etílico elevado.

Isso é a ideia geral, o que acontece realmente é um tema bastante complexo.

Da água para...a cerveja!

Os grãos de cevada possuem várias proteínas e amidos, entre essas proteínas eles têm enzimas. A função das enzimas é facilitar reações químicas (geralmente em contextos biológicos.) tais como a quebra de açúcares maiores em açúcares menores. Para fabricar cerveja é necessário fazer o malte a partir da cevada, ou seja, torrar os grãos moê-los e, por fim, esquentá-los e misturar com água numa temperatura determinada. A parte da temperatura é muito importante, visto que a eficiência química das enzimas depende muitíssimo da temperatura e do grau de acidez (pH) em que estão. Agora temos o malte, seu cheiro adocicado nos indica que o processo de quebra dos açúcares maiores já começou. O próximo passo é colocar o recém-obtido malte de volta na água e cozinha-lo lentamente atingindo e mantendo temperaturas ideais e fixas por tempo determinado esse processo se chama brasagem.

Essa parte também tem a ver com as enzimas. Antes precisávamos despertar o potencial enzimático e agora vamos usar esse potencial. É preciso ficar mexendo para garantir que não haja parte do malte que fique mais frio ou mais quente que as outras, e assim, o produto final perder o seu equilíbrio. O caldo obtido depois de cozinhar e mexer é extremamente doce. As enzimas foram colocadas cuidadosamente nas suas temperaturas ótimas e fizeram sua magia. Os amidos foram quebrados da forma que fosse conveniente ao estilo de cerveja que se quer. Cada estilo de cerveja tem uma rampa de temperatura que determina por quais temperaturas específicas o caldo com o malte tem que ficar e por quanto tempo devem permanecer nelas. Depois há um processo de separação por filtração simples e as cascas de cevada junto com muitas proteínas e alguns açúcares são retirados do caldo açucarado chamado “mosto”. Esse subproduto é altamente nutritivo e é bom para fazer bolos e pães ou mesmo adubar uma horta. Em seguida se esquenta ao ponto de fervura para matar bactérias e desnaturar as enzimas que caso contrário iriam ficar trabalhando para além do tempo desejado. Outra coisa que se faz nesse instante da produção é a adição do lúpulo. O fato da água estar fervendo faz toda a diferença para a obtenção dos aromas da flor. Com o aumento da temperatura, a capacidade da água de dissolver os nutrientes e substâncias aumenta (existem casos em que a solubilidade reduz com o aumento da temperatura, mas não é esse) agora temos um mosto com aromas e sabores doces e amargos. Ainda assim se você tomar a cerveja nesse estado talvez ela não te surpreenda muito, mas aguarde...


O processo de produção da cerveja | Fonte: Jornal Diário de Pernambuco

A magia acontece em nível microscópico

Resfriamos o mosto e adicionamos as leveduras. Leveduras (Saccharomyces cerevisiae) são uma espécie de fungos. Elas são seres minúsculos e unicelulares que sobrevivem se alimentando de moléculas de açúcar que encontram no ambiente; não conseguem quebrar amido sozinhas e por isso nós facilitamos o trabalho nas etapas anteriores, no entanto, agora se encontram isoladas num lugar com comida e água abundante e uma temperatura ideal. É uma verdadeira tarde de inverno na casa da avó; elas estão prontos para se empanturrar. O mestre cervejeiro veda o mosto com a levedura dentro para que nenhuma espécie competidora venha roubar o açúcar dos fungos. Para se alimentar as leveduras fazem o processo de fermentação alcoólica. A fermentação em si é uma linda conquista da evolução. Um primor da bioquímica. É um conjunto de ações e reações extremamente complexo cuja natureza exata escapa nossos propósitos. O importante para nós é que ela é o meio pelo qual as leveduras conseguem se alimentar, não requer gás oxigênio e libera como subprodutos o álcool e o gás carbônico (CO2). Nessa etapa da produção o CO2 não é o objetivo, a formação do álcool e dos aromas complexos do malte e do lúpulo com o fermento são adquirido pela ação das leveduras. O tempo em que o mosto permanece parado deixando-as agindo depende de cada cerveja também, isso porque as variadas cervejas tem graduações igualmente distintas de teor etílico.

No envase, parte final do processo, retira-se a maioria das leveduras que a essa altura se multiplicaram e se tornaram algo fisicamente parecido com uma argila meio estranha e pálida. Retirado isso, sobra um líquido parecido com cerveja, contudo sem o gás, que foi perdido na hora que retiramos a massa de leveduras. Não há problema nisso, porque é no envase que a magia acontece. Adicionando açúcar nas garrafas, as leveduras, agora em muito menor número, produzem pouco álcool e gás, o suficiente, no entanto, para gaseificar uma garrafa e assim completar essa maravilha sociobiológica.

As questões interessantes a respeito da cerveja não se encerram tão facilmente. Alguns fatos interessantes sobre ela brotam aqui e ali ao longo de toda a história humana, tornando a bebida além de gostosa, um ícone cultural. Inúmeras histórias começam, acabam ou ocorrem devido a ela. De novo e como sempre, a ciência se aproximou da técnica humana explicando e ampliando seu sucesso, garantindo que a lei de pureza seja algo meramente estilístico, quando já foi uma medida de segurança sanitária. Os acadêmicos dedicados a entender o comportamento dos seres minúsculos e os mestres da técnica cervejeira encontraram uma intersecção e dela obtemos o litrão nosso de cada dia. Um brinde à cerveja!

Referências:

ROSA, N. A.; AFONSO J. C.; A Química da Cerveja; Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. Vol. 37, N° 2, p. 98-105, MAIO 2015; Disponível em:< http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc37_2/05-QS-155-12.pdf> Acesso em: 15/03/18

31 de março de 2018

Cinquenta Tons do Sexo: Quando o binário dá lugar ao amplo espectro sexual


A ideia de dois sexos é simplista. Biólogos agora acham que há um maior espectro que esse.”
As categorias de macho (XY) e fêmea (XX), antes encaradas como bem definidas e opostas, estão sendo colocadas à prova. Isso porque estudos recentes tornaram cada vez mais complexas as relações entre essas categorias. E esses estudos aumentam ano a ano, principalmente pelo advento das tecnologias do DNA e da modernização das técnicas moleculares, as quais possibilitam maior acesso e análises dos genomas. A seguir, exponho alguns estudos realizados nos últimos anos que mostraram o quão complexa é a categoria do sexo e como a biologia pode (e deve!) contribuir para seu entendimento.

 “Colcha de retalhos” celular
A ideia de que todas as células de um indivíduo do sexo masculino são XY e todas as do sexo feminino são XX, agora divide espaço com uma visão dos indivíduos enquanto verdadeiras “colchas de retalhos” quanto ao sexo de suas células. Isso quer dizer que algumas pessoas do sexo masculino podem ter células no seu corpo que possuem cromossomos XX, enquanto alguns indivíduos do sexo feminino podem ter populações celulares que contenham cromossomos XY. Essa situação pode acontecer devido a diferentes processos como o mosaicismo, o quimerismo e o microquimerismo. 

No mosaicismo (figura 1) o indivíduo se desenvolve de um único zigoto, mas acaba havendo divisão desigual dos cromossomos sexuais, formando um mosaico, ou seja, num mesmo organismo, células com diferentes sexos. Por exemplo, um zigoto XY pode desenvolver um organismo com populações celulares diferentes, compostas de XY ou até X. Ao fim do desenvolvimento, se a maioria das células desse indivíduo for composta por apenas um X, esse indivíduo será do sexo feminino e terá uma condição chamada Síndrome de Turner. Contudo, se a maioria das células contiverem os cromossomos XY, será formado um indivíduo do sexo masculino.

O quimerismo (figura 1) ocorre quando dois zigotos se fundem no útero. Assim, se um deles tiver o par de cromossomos XY e o outro XX, haverá populações celulares dos dois cariótipos no indivíduo. Em um artigo publicado em 2011, o geneticista Paul James e colaboradores relataram o caso de uma mulher de 46 anos que possuía grande parte do seu corpo composto por células com cromossomos XY. Esse caso se trata de uma forma de quimerismo, onde a paciente não sofreu nenhum prejuízo quanto à fertilidade, uma vez que estava grávida do quarto filho no momento do diagnóstico.

setembro de 2002 • CIÊNCIA HOJE • 67
Figura 1. Representação do quimerismo e mosaicismo.
Uma variação do quimerismo, chamada microquimerismo (figura 2), ocorre quando células-tronco do feto ultrapassam a placenta, chegando ao corpo materno, e o contrário também ocorre. Em uma revisão publicada na revista Nature em 2015, Claire Ainsworth afirma que os trabalhos que mostraram esse processo desestabilizaram a divisão dos sexos, uma vez que pessoas do sexo masculino podem carregar células de suas mães e pessoas do sexo feminino que geraram indivíduos do sexo masculino podem “hospedar” suas células. E o mais interessante é que já foi evidenciado que essas células se integram e são funcionais nos “tecidos do hospedeiro”.

An external file that holds a picture, illustration, etc.
Object name is JTR2012-724382.001.jpg
Figura 2. Microquimerismo na gravidez. Células-tronco
do feto passam para o corpo materno e vice-versa.
Para além do binário: as várias facetas do sexo
Ainda na mesma revisão, Ainsworth relata que a categoria do sexo está sendo redefinida. No lugar de um binarismo simplista formado apenas por macho e fêmea, agora se fala em um amplo espectro do sexo. A autora relata que os estudos das Desordens do Desenvolvimento Sexual (DSD) expuseram esse amplo espectro através do relato de uma diversidade para além das categorias bem definidas de macho e fêmea. 

As relações do sexo se mostram cada vez mais complexas, uma vez que são relatados cada vez mais casos de discordância entre sexo cromossômico e sexo gonadal/anatômico. Essas condições intersexuais, também chamadas DSD, como relatado anteriormente, são desafiadoras para os médicos e familiares da criança que na maioria das vezes escolhem se ela vai ser criada como um menino ou como uma menina. Uma revisão sobre as DSD, publicada em 2014, evidenciou que essas condições são encontradas em um a cada 100 nascimentos, expondo que essas variações são mais comuns do que se supunha até então.

Desse modo, a figura 3 representa o amplo espectro sexual derivado das diversas pesquisas sobre as DSD. Com certeza essas descobertas não se assentam muito bem em um mundo binário e supostamente bem definido, dividido em machos e fêmeas. 
Figura 3. Espectro Sexual. Representação do espectro sexual, com fêmea e macho típicos nos polos e as nuances entre essas categorias. As complexas relações entre o sexo cromossômico, gonadal e genital são evidenciadas, sendo responsáveis pela formação das diversas categorias intermediárias do sexo. Adaptado de Brito, 2015.
Outra reflexão interessante trazida pela autora Claire Ainsworth refere-se ao fato de que os sistemas legais acabam se ancorando nessas categorias do sexo, partindo do pressuposto que elas são distintas e bem delineadas. Desse modo, aqueles que por alguma razão não se enquadram nessas dicotomias podem ter seus direitos legais influenciados, uma vez que esses sistemas legais se apoiam no sexo que é atribuído no nascimento.

Termino com um comentário de John Achermann, da University College London’s Institute of Child Health, que resume muito bem as ideias aqui apresentadas: “Eu penso que há maior diversidade entre macho e fêmea, e há certamente uma área de sobreposição onde algumas pessoas não podem facilmente se definir dentro de uma estrutura binária.”

Texto escrito e enviado por: Bruno Tavares. 

16 de março de 2018

Importância das bromélias para a biodiversidade

Anfíbio nas folhas da bromélia / Paulo Roberto Corte
A família Bromeliaceae, das bromélias, é constituída por cerca de 1.500 espécies, podendo ser epífitas (vivem sobre outras plantas sem causar prejuízo), terrestres ou, ainda, viver sobre rochas, sendo o seu habitat principalmente a Mata Atlântica. Mas um fato que poucas pessoas sabem é que as bromélias, além de possuírem uma importância econômica, tanto para a ornamentação como para uso alimentício (um exemplo é o abacaxi), são importantes para a biodiversidade do meio ambiente.

Essas plantas possuem cisternas onde ocorre o acúmulo de água no seu interior, podendo armazenar até litros em certas espécies! O armazenamento é importante já que traz resíduos orgânicos com nutrientes e poeira que garantem a nutrição da planta e formam um ambiente ideal para a sobrevivência de diversos organismos vivos.

Geralmente as espécies dessa família apresentam um aspecto que se destaca com flores coloridas, atraindo diversos polinizadores como beija-flores, morcegos, borboletas, abelhas e besouros que se alimentam do néctar abundante encontrado nessas plantas.

As bromélias apresentam interações com outros animais que podem acabar sendo parcial ou totalmente dependentes dessas plantas. Elas são utilizadas como abrigo, alimento, reprodução e cuidados com a prole, sendo consideradas um microhabitat.

As interações com as bromélias podem ser:

Com artrópodes (como aranhas, abelhas e formigas): as bromélias são usadas principalmente como um meio de reprodução. Um exemplo são as formigas que usam a planta como uma espécie de casa e em troca protegem a bromélia contra algum animal que pode consumi-la ou até mesmo na dispersão das sementes;

Com aves: a principal ave encontrada relacionada com as bromélias são os beija-flores, que consomem o néctar e realizam a polinização;

Com mamíferos: muitos morcegos também utilizam o néctar como alimento e fazem a polinização, principalmente em flores que se abrem à noite e que possuem um cheiro marcante;

Com anfíbios: os anuros (sapos, rãs e pererecas) utilizam as bromélias não só para depositar seus ovos, mas também como um abrigo durante sua vida por ser um local úmido e mais escondido de predadores, e, por isso, os anuros preferem bromélias com cisternas que armazenam água.


Bromélias e o mosquito da dengue!


Pouco tempo atrás as bromélias estavam sendo eliminadas e sendo alvo de pesticidas devido a suspeita de que os tanques que armazenam água nessas plantas seriam um local para proliferação do mosquito da dengue (Aedes aegypti).


Entretanto com as pesquisas feitas pelo Instituto Oswaldo Cruz no Jardim Botânico do Rio de Janeiro mostraram que na análise da água armazenada de 156 bromélias, houve um índice muito baixo de Aedes aegypti e Aedes albopictus (outro vetor do vírus da dengue). “Apenas 0,07% e 0,18% de um total de 2.816 formas imaturas de mosquitos coletadas nas bromélias durante o período de um ano correspondiam ao Aedes aegypti e Aedes albopictus, sugerindo que as bromélias não constituem um problema epidemiológico como foco de propagação ou persistência desses vetores”, afirma o biólogo Marcio Mocelin que desenvolveu a pesquisa. Portanto as bromélias não são o principal foco de proliferação dos vetores da dengue, não havendo a necessidade da eliminação destas, sendo mais importante direcionar a prevenção para locais com água parada, principalmente piscinas, lixo destampado, caixa d'água destampada, pneus, entre outros.



Curiosidade sobre as bromélias


  • Existem espécies de bromélias, como a Brocchinia reducta, que são carnívoras. Para capturar insetos, essa planta possui o crescimento vertical de suas folhas formando um tubo. Dentro desses tubos essa espécie conta com a presença de pelos formando um tipo de pó branco onde os insetos ficam presos e acabam se afogando na água armazenada pela planta;



  • Há certas bromélias que podem chegar a uma altura de 10 metros, um exemplo é a Puya raimondii;



Puya raimondii / Wikimedia Common
  • As bromélias podem ser encontradas em alturas de até 4000 metros.


Bromélias nas copas das árvores / Wikimedia Commons


¹ JUDD, W. S. Sistemática vegetal: um enfoque filogenético. Porto Alegre: Artmed, 2009.


Autoria: Equipe do PET Biologia da FURB

10 de março de 2018

De onde vem o medo das serpentes?

Indiana Jones: O personagem ofidiofóbico mais conhecido do cinema.

O medo de serpentes, que é chamado de ofidiofobia, é um dos mais predominantes do mundo. E algumas teorias defendem que isto provavelmente ocorre por uma herança ancestral, de quando esses animais exibiam um risco real a nossa sobrevivência. Outra causa que pode ser citada para tentar explicar o medo, muitas vezes irracional, sobre serpentes são todas as lendas, mitos e preconceitos  que cercam elas. Sendo que nas principais culturas do mundo sempre há uma serpente envolvida na história. 


Uma das mitologias mais conhecidas acerca de serpentes é a cristã que neste trecho deixa claro a aversão por esses animais: “Por meio dele, o amaldiçoado réptil que tentou a nossa venerada mãe Eva, exerce um fascínio inelutável sobre as vítimas que deseja capturar” (SANTOS,1994, p. 139). 
Mas este medo não atinge unicamente os seres humanos. Diversos grupos de  primatas reagem com notável agilidade à presença de serpente. E foi isso que fez a antropóloga Lynne Isbell, da Universidade da Califórnia (UC),  estudar melhor a ofidiofobia.

A teoria da antropóloga deu início a uma parceria dela com neurocientistas, que decidiram testá-la em primatas. Dois macacos participaram do experimento na Universidade de Toyama, no Japão. Eles analisaram a atividade neuronal, a área do cérebro conhecida como pulvinar, que aparenta estar envolvida com a atenção visual. Foram instaladas microssondas nos animais, e em seguida eles foram postos em frente a uma tela de computador para visualizar fotos de serpentes. As células pulvinares mandavam fortes impulsos ao ver as imagens das serpentes, e esta foi a primeira evidência neurocientífica que suporta a teoria da antropóloga. Mas o que mais chocou os cientistas é que os macacos do experimento nunca tiveram contato com serpentes, portanto esta era a primeira vez que eles as viam. A ofidiofobia é a mais prevalente das fobias no mundo e isto comprova que existe uma memória genética para esse tipo medo.

Mas o medo que nós humanos sentimos pode ser diferente, isso porque não reagimos a instintos como os primatas mais basais. Podemos apontar que além de todas as informações citadas o medo que os humanos sentem vem principalmente da ignorância e falta de informações a respeito das serpentes. E quando essas informações são disponibilizadas pela mídia sobre os ofídios, normalmente, está relacionada a algum trauma que alguém sofreu ou algum acidente perigoso, sendo que isso pode gerar ofidiofobia na pessoa.


A Associação Psiquiátrica Americana  descreveu alguns sintomas de ofidiofobia que podem ser categorizados como  físicos, mentais ou emocionais, como: ansiedade incontrolável, sentir que é preciso fazer alguma coisa para evitar as serpentes, gritar, chorar ou ter  dificuldades para respirar, tremores ou abalos violentos quando encontram ou veem fotos/imagens de serpentes na TV. Além disso a pessoa ainda pode sentir-se ansiosa ou ter aumento na freqüência cardíaca quando levado para locais onde estes animais podem estar presentes
FIGURA 1 - JIBÓIA (Boa constrictor) Fonte: Jibóia Brasil


Como evitar acidentes ofídicos?

É de extrema importância usar o material de segurança correto tendo em vista que aproximadamente 50% dos acidentes ocorrem do tornozelo para baixo. Portanto, usar uma bota já pode evitar metade desses casos. Além disso, 20% dos casos ocorrem na região das mãos e dos antebraços, estes podem ser evitados usando luvas e uma jaqueta espessa. E cerca de 5% ocorrem nas regiões dos braços, coxa, tronco, ombros e cabeça, esses podendo ser evitados com atenção onde se deita ou ao manusear troncos, folhas secas, etc. 

Outras medidas de grande valia são:
  • Não introduzir as mãos em buracos ou tocas;
  • Não segurar a serpente pela cauda;
  • Não caçar serpentes;
  • Caso resida no campo, manter os arredores da casa limpa;
  • Evitar revirar montes de folhas; 

Apesar que as serpentes podem oferecer um grande perigo em um encontro direto, devemos proteger esse grupo de animais, pois elas possuem um grande papel ecológico, colaborando no controle de roedores e outros pequenos mamíferos. Além disso, elas também servem como principal fonte de alimento para outros organismos como a Cariama cristata (Seriema) e até a própria serpente Ophiophagus hannah (Cobra-real), que não ocorre no Brasil.

O melhor método, ainda, para evitar encontrar uma serpente é não ir a campo ou a lugares em que haja registro de ocorrência desses animais. Porém, existe um número considerável de pessoas que trabalham, vivem e desfrutam dos prazeres do campo, sendo que essa dica não é muito útil para elas. Contudo, não há um método totalmente eficiente de garantir a impossibilidade de um acidente ofídico, mas existem medidas, que se tomadas, podem diminuir as chances de um encontro indesejável. 

FIGURA 2 - Jibóia arco-íris da Amazônia (Epicrates cenchria)  Fonte: Jibóia Brasil


Referências

FERREIRA, Hugo Fernandes, Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Disponivel em: <https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/44709624/Crenas_Associadas_a_Serpentes_no_Estado_20160413-23773-93r7l1. df?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expires=1520012385&Signature=mbNLUOemgoH6egLJ8KTBj4%2Ff%2F88%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DCrencas_associadas_a_serpentes_no_estado.pdf>. Acesso em 02/03/2018

SANTOS, E. Anfíbios e Répteis. Rio de Janeiro: Villa Rica, 1994. 



Autoria: Equipe do PET Biologia da FURB
(Esse foi o primeiro texto de divulgação publicado em parceria com o pessoal da biologia da FURB, mais textos interessantes virão e estamos muito agradecidos de contar com essa ajuda para dispersar mais conhecimento científico!)

23 de fevereiro de 2018

E a China já está editando o DNA de muitos humanos



Cientista jogando “Jenga” da vida real ao testar precipitadamente a técnica CRISPR-Cas9 em humanos. l Fonte: https://ideas.ted.com/the-promising-and-perilous-science-of-gene-editing/
Você se lembra do que já comentamos aqui no Sporum sobre a ferramenta de edição genética “CRISPR-Cas9”? Ela que promete revolucionar o tratamento de doenças e muitas outras coisas na breve vida dos humanos (Recomendo fortemente a leitura do link anterior caso você ainda não conheça sobre ela, ou então assista antes este lindo vídeo do Nerdologia sobre o assunto, para você não moscar nesse texto aqui).


Pois bem, também já deve ter ouvido falar que enquanto você aprende a regra de três na escola aqui, tem um asiático da mesma idade terminando seu doutorado no outro lado do mundo, né. Porém nem sempre essa pressa é a melhor coisa  e tem sido uma preocupação na China. Segundo uma investigação do Wall Street Journal, a edição de genes com CRISPR tem sido feita em vários seres humanos por lá desde 2015, antes disso o processo apenas havia sido testado em animais e outras formas de vida mais simples. Para você ver, muito antes de eu escrever para você sobre o futuro incerto dessa técnica em humanos, eles estavam se tornando o primeiro país a testar em nossa espécie e em larga escala. Claro que os motivos são dignos para tentar tratar doenças graves como o câncer, só que fazendo isso eles estão tomando sérios riscos.


China e uma representação da sua superpopulação. l Autoria desconhecida 


Mas qual é o problema então em já usar em humanos? Assim a ciência progride mais rapidamente e quem sabe conseguiremos curar alguns tipos de câncer? Yeah, science bitch

Não! Não é bem assim que as coisas devem funcionar. Há sérios motivos pelos quais isso não foi testado em humanos em outros países ainda e dois deles são os seguintes:
  • Uma resposta negativa do nosso sistema imunológico: estudos de Stanford demonstraram que o sistema imune humano pode dificultar a segurança e eficácia da técnica CRISPR-Cas9 simplesmente porque a Cas9 é uma proteína que vem comumente de duas bactérias, a Staphylococcus aureus e a Streptococcus pyogenes, e talvez você não saiba, mas a humanidade já está bem acostumada com elas infectando nossos belos corpos primatas, então já estamos naturalmente prontos para nos defendermos delas.

  • Cortes indesejáveis: como já sabemos, a técnica funciona com dois componentes, uma proteína que corta e um RNA que guia para o local que queremos cortar. Esse RNA tem em torno de 20 bases nitrogenadas e precisa se encaixar no local exato para cortar. O problema é que muitas partes do genoma possuem essa mesma sequência de bases, então a CRISPR pode facilmente cortar no lugar errado. Esse tipo de erro pode transformar o gene editado em um potencial causador de câncer. Felizmente tem um pessoal de uma tal de Microsoft Research que desenvolveu uma ferramenta de Inteligência Artificial que vai ajudar a melhorar a precisão da CRISPR. 

Ninguém precisa desanimar ainda. A ciência no ramo da engenharia genética realmente evolui rápido e nesses últimos anos foi fantástico o número de melhorias que essa técnica recebeu, e novas medidas estão sendo desenvolvidas para superar esses desafios citados. Grupos de pesquisa de outros países estão correndo para conseguir as autorizações para começarem pesquisas e tratamentos em humanos e muitos estão projetando começar neste ano de 2018 mesmo, em sua maioria com o máximo de cautela e rigor que a ciência exige para que seja eficaz. E assim a humanidade se desenvolve, cada vez mais brincando de deus.


Nota: esse texto foi basicamente uma tradução de partes de notícias da coluna The Download, da revista MIT Technology Review, com alguns floreios meus. As notícias estão referenciadas abaixo. Portanto atribuo o crédito ao pessoal da revista, que aliás é uma excelente fonte de conhecimento para saber do que há de mais “quente” no meio científico.