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9 de julho de 2019

RPG, quando a fantasia e o ensino se unem

Por: Rafael de Lima


Rajesh, Leonard, Sheldon e Howard jogando RPG | Big Bang Theory


Dragões, cavaleiros com suas armaduras pesadas duelando em um combate mortal, magias e aventuras. Não, você não está em um episódio de Game of Thrones. Muitas vezes estes são elementos encontrados nas narrativas de um jogo de RPG de mesa. Você já imaginou aprender física, química, biologia e outros conteúdos que vemos em sala de aula durante uma aventura? Pois bem, o RPG pode sim ser usado como um componente didático. Mas primeiro, que tal falar um pouco sobre o que é o RPG? 

Bom, RPG é a sigla inglesa de Role-Playing Game, que em português significa "jogo de interpretação de personagens". Diferentemente de outros jogos, neste não há vencedores ou perdedores, o jogo é o desenrolar de uma história que é narrada por um dos jogadores, conhecido também como Mestre. Ele tem um papel fundamental no jogo: o de criar a história em que os outros jogadores estão inseridos. Ele será o narrador, aquele que será os olhos, ouvidos e todo o universo em que os personagens dos jogadores estarão vivendo. O restante dos jogadores, por sua vez, interpretarão um personagem pré definido ou criado por eles naquele mundo, muitas vezes utilizando uma ficha de criação de personagem. 

A história nunca está pronta, ela sempre está em desenvolvimento, dependendo das ações realizadas pelos personagens dos jogadores. Cada jogador tem liberdade para tomar a atitude que achar verossímil ou conveniente para o seu personagem. O mestre não tem controle sobre os jogadores, esta característica dá o caráter coletivo e cooperativo ao RPG. Diferente de outros jogos, o RPG não é linear, os jogadores irão construir a história em conjunto, pois cada decisão tomada por eles levará a uma consequência que poderá alterar o rumo da história do mestre.

Uma das características mais marcantes do RPG é sua interatividade. O jogador faz o que ele quiser no mundo que está inserido. Por exemplo, se ele quiser entrar na taberna da cidade, subir numa mesa para dançar e cantar, ele pode, a interação vai até onde a criatividade do jogador alcançar. Mas como todo jogo, ele também possui regras. Estas estão disponíveis nos livros chamados “Módulos Básicos”. Conhecidas também como mecânicas, elas  definem a criação de personagens dentro da história. Delimitam suas características e determinam os resultados de suas ações, a quantidade de dano causado por uma queda ou quão boa foi a apresentação demonstrada em nosso exemplo anterior. Essas informações devem ser coerentes para formarem um sistema de regras funcional.

Não importa qual sistema de regras adotado pelos jogadores, a regra fundamental é se divertir. Mark Rein-Hagen¹ demonstra em sua obra Vampiro: A Máscara e Lobisomem: “Você deve adaptar este jogo de acordo com a sua necessidade – se as regras o atrapalharem, então ignore-as ou mude-as. No fim, a verdadeira complexidade e beleza do mundo real não pode ser captada por regras; é preciso narrativa e imaginação para fazer isso”. Também conhecida como Regra de Ouro, citada em diversos livros de RPG, ela dá a liberdade para que o mestre e seus jogadores modifiquem ou criem sua próprias regras em favor da diversão e assim permitindo que a história se desenvolva melhor.
Mas de onde surgiu isso tudo? Quando alguém sentou numa mesa e criou o jogo com a maior qualidade gráfica e jogabilidade do mundo apenas usando papel e lápis?

Quem diria que um dos precursores do RPG de mesa seriam os jogos de guerra de tabuleiro. Pois bem, em 1953, Charles Roberts criou um jogo que você provavelmente já ouviu falar ou até mesmo já jogou, chamado WAR, e durante as décadas de 1960 e 1970 estes tipos de jogos ganharam muita popularidade e permitiram o surgimento de uma indústria ligada a este tipo de entretenimento. Mas não foi só isso, este jogo estabeleceu também uma grande e estável subcultura de jogos de estratégia e operações militares, conhecidos como war games (populares entre os adolescentes e adultos de classe média norte americana com fã-clubes, revistas próprias e jargões ou vocabulários específicos). 

Com uma comunidade interessada em jogos e grupos formulando regras para estes, as bases do RPG já estavam se formando. Porém faltava algo, faltava a subjetividade da magia que jogos de guerra não tinham na época, faltava a fantasia. Então, foi publicado o  livro que representou um marco para toda fantasia medieval atual, algo com tanta importância que inspira pessoas até hoje. Se você leu até aqui, com certeza já viu ou ouviu falar sobre O Senhor dos Anéis. John Ronald Reuel Tolkien, em 1966, lançou  a trilogia que fez os jogadores substituírem as batalhas napoleônicas pelas batalhas da Guerra do Anel, e os soldados de Napoleão por elfos, orcs, hobbits e anões. A fantasia que faltava, agora estava presente, e não demorou para que, em 1974, Dave Arneson e Gary Gygax dessem origem ao primeiro RPG lançado comercialmente e até hoje mais jogado no mundo: Dungeons & Dragons. Se você gostou e quer saber mais  sobre  a história do RPG veja aqui.

Hoje, depois de 45 anos existem dezenas de RPGs de mesa: Dungeons & Dragons, 3D&T, Storyteller, Call of Cthulhu, GURPS, Old Dragon, Dungeon World, Tormenta, entre outros, cada um com seu estilo e regras próprias para se jogar.

Dado de  20 faces, muito utilizado no RPG, conhecido como D20| Autor desconhecido

O RPG no ensino

Por apresentar características como socialização, cooperação, criatividade, interatividade e interdisciplinaridade, o RPG, sendo bem planejado, pode ser uma ferramenta muito prática e lúdica para ser utilizada no ensino.

Imagine só: você é um marinheiro em um navio espanhol em pleno século XVI e está partindo para o Novo Mundo. Você e seus colegas estão na cabine do capitão, observando em um mapa a rota que o navio fez quando, de repente, gritos vindos do convés revelam que uma embarcação pirata se aproxima! O capitão ordena que preparem os canhões, mas para que o disparo seja preciso em um navio pirata em movimento, deve-se calcular a  trajetória do tiro versus a velocidade de deslocamento do alvo.

Nesse breve exemplo, podemos observar quão interdisciplinar o RPG pode ser. Podemos abordar História das Grandes Navegações, Geografia na interpretação de mapas, Física e Matemática para calcular a trajetória da bala do canhão e, quem sabe, um pouco de ecologia marinha caso nossa embarcação afundasse, não é mesmo?

Isto já está sendo feito aqui no Brasil. O primeiro RPG com temática nacional foi “O Desafio dos Bandeirantes”, escrito por Carlos Klimick, Luiz Eduardo Ricon e Flávio Andrade, publicado em 13 de Dezembro de 1992. Este RPG coloca os jogadores/alunos em aventuras  durante a colonização do Brasil. Imagine só quão divertido e imersivo seria aprender um pouco sobre o Brasil Colonial do ponto de vista de pajés, jesuítas e bandeirantes, podendo ainda interagir com figuras míticas brasileiras, como Saci e a Mula sem Cabeça.

Grandes eventos com a temática de união do RPG e o ensino foram feitos. Em 2002, ocorreu o Simpósio RPG & Educação, em São Paulo-SP,  realizado pela LUDUS CULTURALIS, que promoveu o intercâmbio entre pesquisadores e educadores.  Em 2003 e 2004, foram feitas novas edições do simpósio, que tiveram ainda mais participação do público e de palestrantes inscritos.

Desde então, iniciativas estão sendo tomadas por grupos em diferentes partes do Brasil para difundir o RPG como prática pedagógica. Como é o exemplo do professor de Física do Colégio de Aplicação da UFPE, Ricardo Amaral, que escreveu o livro “Rpg Na Escola - Aventuras Pedagógicas”, o qual é um suporte pedagógico para os professores que desejam aprender e aplicar esta prática com seus alunos. (Reportagem da TV Globo sobre o trabalho desenvolvido pelo professor Ricardo Amaral). Muito se tem pesquisado sobre o RPG de mesa e suas aplicações, inúmeros outros trabalhos  abordam sua potencialidade em ser uma ferramenta didática na escola ou em universidades, aqui temos alguns trabalhos de diversas disciplinas: Física, Educação Ambiental, História, Química, Artes, Geografia, Biologia. E não para por aí, há pesquisas sobre o uso do RPG até na Medicina e na Psicologia

Por fim, podemos perceber como o RPG é uma ferramenta versátil e divertida que, se trabalhada da forma correta, pode facilitar a apropriação de conhecimentos, ao mesmo tempo que entretém alunos e professores no processo de ensino-aprendizagem. Quem diria que um  jogo de interpretações teria tanto potencial na educação. Quando a fantasia e o ensino se unem, uma monótona aula pode se tornar uma grande aventura.



¹ Rein-Hagen, Mark. Vampiro: A Máscara e Lobisomem: Guia dos Jogadores.  São Paulo Devir, 1994.

10 de junho de 2019

Abraço de Dinossauro

Blue, a Velociraptor do filme Jurassic World


Por Cibele Martins Pinho




“Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”
Carl Sagan






Imagem representativa da diversidade do tamanho corporal entre os dinossauros | Autoria desconhecida

Os dinossauros surgiram na Terra há aproximadamente 230 milhões de anos e foram os seres dominantes por aproximadamente 150 milhões de anos, até seu desaparecimento. Mas afinal quem eram esses enormes animais que habitavam a nossa Terra? Qual seria a verdadeira forma corporal e fisiológica dos dinossauros? E podemos mesmo chegar a alguma verdade sobre esses animais? Tudo que sabemos sobre eles está baseado em evidências fósseis encontradas e analisadas por paleontólogos; no entanto, a cada nova descoberta percebemos que o que sabemos sobre os dinossauros muda, ou seja, a verdade sobre esses animais está constantemente sendo construída e desconstruída.

O biólogo Leandro Sanches falou na revista Super Interessante que “a relação entre dinossauros e aves é bem mais estreita do que se pensava, a ponto de podermos afirmar que eles continuam vivos. Assim como podemos notar no modelo evolutivo, seguindo a nova organização publicada na Nature, na figura da árvore da vida a seguir, as aves se originaram da mesma linhagem à qual pertenciam os Tiranossauros.

Árvore da vida: diagrama em forma de árvore, utilizado para representar as relações filogenéticas entre os dinossauros e seus parentes mais próximos | Autoria desconhecida - Modificado. 

Alguns dinossauros Ornithischia mais conhecidos são os iguanodontes, como os do filme Dinossauros da Disney, e os estegossauros. Já nos Saurischia, temos exemplos como os enormes herbívoros saurópodes, e os temíveis terópodes carnívoros Tiranossauro Rex e velociraptores. Existem teorias de que esses animais, e muitos outros dinossauros, não tiveram “sangue frio” como outros répteis, e sim “sangue quente”, ou ao menos em uma temperatura intermediária. Até mesmo Alan Grant, em 1993, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, chega a dizer sonhadoramente “podemos esquecer a teoria do sangue frio, ela não vale, estavam errados, esta é uma criatura de sangue quente” quando observa um pescoçudo comendo folhas no topo das árvores. Hoje, encontram-se evidências que mostram que os dinossauros não eram somente parentes das aves; alguns tinham até penas, e eles também já possuíam um controle de temperatura corporal parecido com seu futuro descendente, as aves.

Desenho ilustrativo de um Utahraptor revestido com penas | Paulo Sergio Silveira Junior

Primeiramente, qual a diferença de ectotermia e endotermia?

Antes de falar sobre como esses enormes animais mantinham sua temperatura corporal, devemos recapitular alguns conceitos. O animal é considerado ectotérmico quando não consegue gerar calor por mecanismos fisiológicos para aumentar a sua temperatura interna, logo, são os animais popularmente chamados de “sangue frio”. Neste caso, o animal só consegue aumentar sua temperatura interna através de comportamentos, como por exemplo ir para o sol ou aproveitar o calor de uma rocha encostando nela. Essa característica esteve presente nas linhagens de animais que viviam na terra antes dos dinossauros, como os répteis. Porém, as aves são animais endotérmicos, ou seja, são animais capazes de gerar calor interno por meio de respostas fisiológicas específicas. Em contraponto aos répteis de “sangue frio”, as aves teriam então “sangue quente”, mas em que ponto da árvore evolutiva o sangue “se tornou quente”? Vale lembrar que essa terminologia sobre a temperatura do sangue não é válida cientificamente, pois como vimos um réptil no sol tornaria seu sangue quente.

A)
B)
A) Exemplo de animal ectotérmico Imagem disponível | B) Exemplo de animal endotérmico Imagem disponível | Autorias desconhecidas


Temperatura corpórea e termorregulação

Em que ponto da evolução os animais passaram a manter sua temperatura corporal estável (homeotermia), independentemente das alterações ambientais, nunca se terá completa certeza. Porém, sabe-se que a endotermia (gerar calor interno) apareceu em algum ponto entre a família que compreende os crocodilos e jacarés e a família das aves, logo onde os nossos amigos dinossauros estão no meio. 

A diversidade absurda de espécies de dinossauros dificulta dizer quais os meios de termorregulação de cada animal. Muita gente generaliza, mas existiram dinossauros de tamanhos diversos, em ambientes diversos, em um espaço de milhões de anos sobre a Terra, o que torna a tarefa de discussão da homeotermia em dinossauros ainda mais difícil. Aliás, homeotermia significa que a temperatura corporal do animal é razoavelmente estável¹, por conta disso, tanto animais endotérmicos quanto ectotérmicos podem ser homeotérmicos. Como exemplo de animais, temos o Microraptor zhaoianus, que tem um tronco menor que 5 cm e o Diplodocus, com 10 m, são organismos com tamanhos corporais diferentes, por conseguinte, suas termorregulações provavelmente eram diferentes.

No entanto, algumas evidências e muitas notícias podem nos confirmar que um abraço de dinossauro não seria frio como de um jacaré, e nem tão quentinho como um abraço de um urso das montanhas (se vocês tiverem coragem de abraçá-los!), mas sim um meio termo entre as duas temperaturas corporais.


Imagem do filme “O bom dinossauro” representando um abraço de dinossauro | The Walt Disney Company

Então vamos às evidências!

Em 2009, uma pesquisa mostrou que um dos grupos de dinossauros mais próximos das aves pareceu apresentar altos índices de atividade metabólica (o que é metabolismo?). Em endotérmicos vivos, sabemos que o custo de energia necessária para manter uma alta taxa de metabolismo é grande. Os endotérmicos têm a capacidade de aumentar a atividade muscular liberando energia em forma de calor, fazendo com que esses animais tenham uma maior capacidade e velocidade de corrida. 

Os ectotérmicos têm uma velocidade de corrida menor do que os animais endotérmicos, apesar de suas corridas chegarem a velocidades semelhantes e seus corpos terem gastos de energia também semelhantes. Os animais ectotérmicos podem não conseguir chegar à velocidade de corrida exatamente igual à dos endotérmicos por não terem a capacidade de gerar tremor através dos músculos durante a corrida como os endotérmicos. Porém os animais que conseguem sua energia de fontes externas são em sua maioria pequenos, com sua superfície maior que o volume e têm formatos mais alongados e diversificados do corpo para favorecer e acelerar os processos de perda e ganha de calor. Caso animais como cobras e lagartixas fossem endotérmicos, suas taxas metabólicas para manter a temperatura corporal seriam muito altas pois teriam que compensar a perda rápida de calor com a extensão corporal muito grande. Logo, podemos ver que a endotermia tem maior vantagem em animais pequenos, então os dinossauros, em sua maioria animais muito grande, teriam problema com esse tipo de metabolismo, não é mesmo?

Na pesquisa mencionada anteriormente, evidenciou-se certa homeotermia (animais endotérmicos são capazes de manter sua temperatura estável e assim são chamados) por meio de uma análise da anatomia motora e do custo energético de se locomover para determinar uma taxa de gasto de energia durante a locomoção de algumas espécies de dinossauros bípedes (que andavam sobre dois membros). A análise levou em conta alguns parâmetros como o comprimento do membro do animal e quais músculos eram utilizados para a locomoção. Os valores encontrados foram comparados com os valores de animais ectotérmicos e endotérmicos atuais. 

Para entender melhor como é possível calcular a taxa metabólica locomotora de um dinossauro bípede que viveu há mais de 65 milhões de anos, podemos observar a figura da anatomia do dino, a qual mostra o método que liga a anatomia locomotora ao custo de caminhada e corrida já testado em animais atuais. Podemos observar na imagem o músculo em vermelho e a seta amarela que percorre a extensão do quadril até os dedos do animal. Foram calculados com os valores do comprimento da seta amarela os grupos musculares usados durante uma caminhada, o valor do comprimento do passo desse animal e o volume do músculo que foi usado. 




Anatomia do dino: Esquema representando os parâmetros utilizados para as análises da pesquisa de PONTZER, H. et al. 

Foram usados valores do comprimento do passo de dinossauros bípedes para analisar as capacidades aeróbicas para uma caminhada e para uma corrida lenta. Se essas capacidades fossem maiores que o valor previamente conhecido para a capacidade aeróbica de ectotérmicos, sugere-se então que os dinossauros tenham sido endotérmicos, como vocês poderão ver no gráfico logo a seguir. 



Gráfico de limites: Representação dos limites endotérmicos e ectotérmicos. 
Para se ter uma ideia, as taxas metabólicas gastas com a locomoção, que foram estimadas a partir da altura do quadril, excederam o máximo aceitável para animais ectotérmicos em corrida moderada para todos os bípedes analisados e em corrida lenta, menos para Archaeopteryx. Do mesmo modo que os custos locomotores baseados na quantidade de músculo ativo durante o exercício também ultrapassaram as capacidades ectotérmicas em todas as velocidades de corridas em animais grandes e em corrida moderada para animais menores. Animais como Dilophosaurus, Plateosaurus, Allosaurus, Tyrannosaurus, Compsognathus e Velociraptor tiveram suas taxas metabólicas dentro do intervalo dos endotérmicos. Apenas bípedes muito pequenos como os Archaeopteryx não obtiveram resultados fora da taxa metabólica dos ectotérmicos atuais, como podemos observar no gráfico de limites da imagem a seguir. Lembrando que foram usados valores de endotérmicos e ectotérmicos vivos para comparar com os valores obtidos nas análises dos dinossauros. 

Como podemos ver no gráfico de limites abaixo, da esquerda para a direita: Archaeopteryx, Marasuchus, Microraptor, Compsognathus, Lesothosaurus, Heterodontosaurus, Coelophysis, Velociraptor, Gorgosaurus, Dilophosaurus, Plateosaurus, Allosaurus, Tyrannosaurus. Os símbolos pretos são as estimativas a partir do volume muscular ativo, e os símbolos brancos são as estimativas da altura do quadril. O azul representa o limite ectotérmico, e o vermelho o limite endotérmico.

A pesquisa mostrou que a abordagem com base no volume muscular, que fornece estimativas mais altas de custo energético, é a que parece ser mais precisa para analisarmos dinossauros bem grandes, principalmente por conta da distensão muscular ereta dos membros para os maiores dinossauros, assim como hoje nos nossos elefantes.

Ao analisar as hipóteses com base na relação de parentesco dentro da história evolutiva, mostrou-se que o nível de metabolismo endotérmico em sustentar a velocidade de corrida lenta estaria em todo o grupos dos Dinossauros. Porém, baseando-se na altura no quadril para uma corrida moderada pode-se afirmar que a endotermia esteve presente algumas vezes antes de “surgirem” as aves modernas (as quais são certamente endotérmicas). Tendo essas evidências em mente, podemos sustentar a hipótese de endotermia para os dinossauros não aviários maiores, ou ao menos uma homeotermia acima da temperatura de ectotérmicos atuais. Sendo assim, mais frios que aves e mais quentes que crocodilos. 

Vale ressaltar que existem algumas análises utilizando métodos que usam reagentes do carbono nas amostras de cascas dos ovos de alguns titanossaurídeos para podem ajudar a determinar a temperatura corporal das dinossauros fêmeas durante a ovulação. Essa pesquisa evidencia que elas podem ter tido uma temperatura mais elevada do que se presumia. Então quem sabe a endotermia não tenha estado presente somente nos bípedes, mas também em animais quadrúpedes como os saurópodes de pescoço comprido (como exemplo temos os Brachiosaurus)!? Será que Steven Spielberg falando por meio de Alan Grant de Jurassic Park também estava correto lá em 1993? 

E você, aceitaria dar um abraço em um dinossauro para verificar sua temperatura? Por hora só seria possível abraçar seus parentes quentinhos que ciscam pelas fazendas, então aproveite o abraço, porque hoje você é o predador, e não ele. 

Referências:

¹POUGH, J. H.; C. M. Janis; J. B. Heiser. A vida dos Vertebrados. 4ª ed. São Paulo : Atheneu, 2008.

SILVA, Sandra. Enciclopédia ilustrada: os dinossauros e a pré-história. Baurueri, SP : Girassol, 2006.

27 de maio de 2019

Por que ursos podem vir a se tornar objeto de estudo da NASA?


Por: Anna Luiza Andriani, Bruno Losi Menna e Kathleen Terhaag

Adaptação de retrato de astronauta para a versão urso |

Você já pensou nas dificuldades que existem em ser um astronauta?

Em uma viagem espacial de grande distância, a pessoa lida com diversas dificuldades: longas viagens irão demandar longos períodos de tempo no espaço, o que significa que o astronauta precisará de um enorme estoque de comida e água. Animais como ursos negros (Ursus americanus), marrons (Ursus arctos) e polares (Ursus maritimus), permanecem fisicamente inativos dentro de suas tocas durante o inverno em uma espécie de sono da estação. São até 7 meses sem comer, defecar e com pouca ou nenhuma eliminação de urina ¹. Nas mesmas condições, somados à gravidade zero, humanos poderiam desenvolver doenças cardiovasculares, insuficiência renal, osteoporose, entre outras ². No entanto, ao saírem de suas tocas quando chega a primavera, os ursos não mostram nenhum sinal de danos no organismo. Considerando estas condições fisiológicas, pesquisadores têm investido em pesquisas biomiméticas (busca do aprendizado através de soluções oriundas da natureza) do mecanismo de economia de energia durante o sono com o objetivo de aplicar, em astronautas, as adaptações fisiológicas de animais que apresentam essa atividade. Essas pesquisas buscam possibilitar longas viagens espaciais e a aplicação em tratamento de doenças humanas, bem como de malefícios causados por uma baixa mobilidade ³.

Um estudo, em que ursos negros e ursos marrons foram utilizados como organismos modelo, constatou-se que, quando em estado de sono profundo, esses animais reduzem sua temperatura corporal de 38Cº para no máximo 33Cº, enquanto seu metabolismo diminui pouco, em torno de 25% em comparação com sua taxa de atividade normal. Nesse período, esses animais podem respirar apenas uma ou duas vezes por minuto, e seu coração desacelera entre as respirações, podendo bater novamente após até 20 segundos.  Essas adaptações fisiológicas fazem com que os ursos consigam diminuir o seu gasto e demanda de energia para se manterem vivos em um período do ano em que não é vantajoso estar ativo, buscando por comida e abrigo ¹.

Mas de que forma os ursos conseguem passar de 5 a 7 meses do ano dormindo e despertar sem grandes danos no organismo? Sabemos que esse sono não se trata de uma hibernação, pois não seria vantajoso para um animal tão grande diminuir seu metabolismo drasticamente, porém a resposta não é tão simples. O que se sabe é que parte do segredo está no plasma sanguíneo desses animais. De acordo com matéria publicada pelo The New York Times (2016), “as plaquetas (fragmentos do sangue que tem como uma das principais funções a de coagulação do sangue), durante esse período, tornam-se menos pegajosas, (as plaquetas são pegajosas quando identificam vasos danificados), atuando como um afinador natural do sangue, talvez para diminuir o número de coágulos que poderiam se formar durante longos períodos de imobilidade”. Um dos hábitos dos ursos que produzem essa modificação nas plaquetas, é o alto consumo de berries (frutas silvestres), que são ricas em antioxidantes, como a vitamina C e polifenóis, já comprovadas como altamente efetivas em oferecer proteção contra o desenvolvimento de câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose e doenças neurodegenerativas ⁴.

Urso negro se alimentando de Berries| Fonte: Mike McIntosh.

Porém, além de todas as características citadas anteriormente, um dos aspectos mais interessantes em todo esse processo é a não suscetibilidade à perda óssea desses animais, isto é, os ossos tendem a enfraquecer-se com a falta de atividade dos animais, mas nos ursos isso não acontece ⁵. Segundo Seth Donahue, professor de engenharia biomédica na Universidade Tecnológica de Michigan, “os ossos dos ursos quebram da mesma forma que os ossos dos astronautas que ficam dias na cama. A diferença é que o organismo deles absorve cálcio e outros minerais do sangue e os replicam nos ossos. Do contrário, a quantidade de cálcio no sangue atingiria concentrações mortais devido à baixíssima ou nenhuma excreção de ureia, acredita-se que, por conta disso, eles podem ter desenvolvido esse mecanismo de reciclagem de cálcio” ⁵,⁶. Eles também têm uma diminuição do remodelamento ósseo, essa capacidade única para conservar energia e prevenir a perda óssea durante esses períodos prolongados de sono profundo contribui para a capacidade de sobrevivência do animal em condições extremas.

Mas e a aplicação em humanos, como está sendo feita? Estudos estão sendo desenvolvidos com auxílio de anestésicos para realizar uma espécie de “sono” induzido em humanos. O grande desafio acontece porque, ao passar por um estágio de metabolismo baixo, o corpo não se recupera completamente. Atualmente, a Spaceworks está olhando para técnicas já em uso na medicina, ou seja, a hipotermia terapêutica. Usada pela primeira vez clinicamente há mais de 70 anos, essa técnica envolve o resfriamento do corpo de uma pessoa para perto do ponto de congelamento da água para retardar suas funções celulares e cerebrais. Esta técnica pode proteger os tecidos do paciente contra danos causados pela falta de oxigênio ou sangue, geralmente após um ataque cardíaco ou cirurgia, como um transplante de coração ³. No entanto, ela só se mostrou eficiente quando usada por um período máximo de 10 dias, um intervalo considerado curto, visto que só a ida até o espaço levaria em torno de 200 dias, nos quais eles teriam de passar muitas semanas dormindo e somente alguns dias acordados realizando suas atividades. Não se conhecem outros casos em que pessoas tenham ficado tanto tempo nessas condições e, por isso, ainda não está claro por quanto tempo a técnica pode ser usada com segurança.

Como podemos perceber, diversos estudos vêm sendo feitos no que diz respeito a descobrir como os ursos conseguem entrar em estado de sono profundo, o que seria extremamente vantajoso aos humanos. Apesar dessas habilidades fisiológicas que alguns deles adquiriram, um urso não seria um bom astronauta, porque provavelmente ficaria dormindo durante toda a missão, mas alguns de seus aspectos fisiológicos poderiam contribuir para uma melhor experiência em astronautas humanos, fazendo com que a viagem espacial se tornasse menos custosa fisiologicamente e suportável por mais tempo, podendo atingir, consequentemente, viagens mais distantes. Porém, com o avanço da ciência, tudo tende a se aprimorar e talvez, no futuro, consigamos aplicar ou, ao menos, induzir parte desses mecanismos fisiológicos vistos ao longo do texto em nossos astronautas humanos, melhorando assim as suas experiências espaciais. Enquanto isso, ficamos ansiosos para o que vem por aí quando se trata de aplicações de adaptações naturais e viagens no espaço.

Recorte de um modelo no qual humanos poderiam entrar em sono profundo e ser enviados ao espaço | Fonte: SpaceWorks.




Referências Bibliográficas

¹ REINACH, Fernando. Seis meses dormindo. O Estado de S. Paulo. Disponível em:
<http://www.estadao.com.br/noticias/geral,seis-meses-dormindo-imp-,715115>. Acesso em: 16 abr. 2018.

² Berg von Linde, Maria, Lilith Arevström, and Ole Fröbert. “Insights from the Den: How Hibernating Bears May Help Us Understand and Treat Human Disease.” Clinical and Translational Science. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26083277>. Acesso em:  28 Jun. 2018. 

³ PANKO, Ben. Can Humans Ever Harness the Power of Hibernation? Disponível em: <https://www.smithsonianmag.com/science-nature/can-humans-ever-harness-power-hiberna tion-180961835/>. Acesso em: 16 abr. 2018.

⁴ FRAGA, Cesar et al. Basic biochemical mechanisms behind the health benefits of polyphenols. Molecular Aspects Of Medicine, Buenos Aires, v. 31, n. 6, p.435-445, dez. 2010.

⁵ LAWRENCE, Meghan e Mcgee; CAREY, Hannah V.; DONAHUE, Seth W. Mammalian hibernation as a model of disuse osteoporosis: the effects of physical inactivity on bone metabolism, structure, and strength. American Journal Of Physiology. P. 1999-2014. dez. 2008.

⁶ LENNOX, Alanda R.; GOODSHIP, Allen E. Polar bears (Ursus maritimus), the most evolutionary advanced hibernators, avoid significant bone loss during hibernation. Comparative Biochemistry And Physiology Part A: Molecular & Integrative Physiology, Reino Unido, v. 149, n. 2, p.203-208, fev. 2008.

30 de abril de 2019

Quem inventou a seleção natural?

Por: Angelo Tenfen Nicoladeli



O desenvolvimento das ciências é realmente uma questão fascinante: como novas ideias nascem e se expandem em relação a outros conhecimentos já desenvolvidos ou em desenvolvimento, como o local onde cada pessoa nasce, o contexto em que ela vive e suas relações pessoais influenciam sua forma de pensar. Porém, quando tentamos reconstruir o desenvolvimento de um fato científico em uma chamada história da ciência, dificilmente conseguimos deixar evidente a complexidade de eventos pelo qual um fato passa ao longo de sua teorização.

Por isso, não é incomum a presença de mitos na história da ciência. Mitos no sentido de algo que foge à realidade. Um exemplo é a ideia do cientista louco: aquela pessoa que se tranca no laboratório fazendo diversos experimentos com o objetivo de descrever a realidade da natureza. Ou ainda o mito de um cientista totalmente neutro em relação a sua posição dentro da sociedade, como se pensasse somente nas futuras descobertas, cujas motivações não teriam influência do seu meio político, social e cultural. 

Existem mitos da história das ciências que são muito famosos, como, por exemplo, o da maçã caindo na cabeça de Newton ou, ainda, a história da banheira de Arquimedes. Entretanto, a maioria dos mitos criados é muito mais sutil. Vale, lembrar, por exemplo, o apagamento de pessoas que foram importantes ou deram significativas contribuições para o estabelecimento de um determinado fato científico, como no caso de Rosalind Franklin e a dupla hélice do DNA.

Um dos mitos da história da biologia é o de que Charles Darwin, sozinho, foi responsável por criar a Seleção Natural. Neste texto, busca-se falar sobre o conceito de seleção natural e sua história. Procura-se mostrar a multiplicidade histórica que esse conceito apresenta e, com isso, ir além do estereótipo de que Darwin criou a evolução e também a seleção natural. 

Não se pretende aqui desmerecer Darwin e sua importância para as Ciências Biológicas como um todo. Ele construiu um grande trabalho de síntese em sua época e escreveu um livro de grande repercussão, causando um impacto significativo na comunidade científica e na sociedade em geral. Porém, ninguém gera conhecimento sozinho. A ciência é feita dentro de coletivos, e é somente dentro desses coletivos de pensamento, onde diversas pessoas trocam ideias e interagem, que são construídos os fatos científicos.  

Charles Darwin escreveu uma teoria da evolução por seleção natural em seu livro Origem das espécies¹ publicado pela primeira vez em 1859. Esse famoso livro teve ao todo seis reedições, sendo que a última edição foi lançada em 1872. Ao longo dessas edições, sua teoria geral sofreu certas mudanças, como o acréscimo da noção de mecanismos não seletivos como importantes no processo de diferenciação das espécies.

Se você já se deparou com a Origem em suas mãos, pode ter percebido que há um prefácio no livro intitulado ‘‘Nota Histórica’’, no qual o autor faz um breve resgate histórico sobre os naturalistas e intelectuais, que, segundo ele, já tinham refletido a respeito da origem da vida e suas modificações, indo desde Lamarck e Buffon até seus contemporâneos, como Richard Owen e Wallace. O interessante dessa nota é que ela foi incluída apenas na terceira edição do livro. Johnson, um historiador da biologia, argumenta em um de seus artigos que possivelmente Darwin teria escrito tal nota histórica devido à pressão de alguns pesquisadores que já começavam a reivindicar crédito por ideias desenvolvidas no livro.
Nesse sentido, Darwin acaba se concentrando apenas nos estudiosos que em sua época estavam exigindo crédito pelo conceito de seleção natural desenvolvido em seu livro, como, por exemplo, Owen, Patrick Matthew e Dr. William Charles Wells. Em oito páginas de nota história, em nenhum momento são tratados pensadores anteriores a Lamarck e Buffon. Porém, em quem esses dois pensadores se basearam? Eles desenvolveram seus pensamentos do nada? É preciso ter em mente que a geração espontânea dos conceitos é um evento raro, e conceitos são em sua maioria gerados a partir de seus descendentes.

Conway Zirkle propõe que a história do conceito de seleção é muito mais antiga e pode ser traçada através dos seguintes pensadores: Empédocles (400 a.C.), Lucrécio (99-55 a.C), Diderot (1749), Maupertuis (1756), Geoffrey St. Hillaire (1833), Wells (1813), Matthews (1831), Darwin (1858), e Wallace (1858); logo, iniciando na Grécia Antiga, passando pelo Império Romano e chegando por fim em Darwin e Wallace. Aqui vamos focar em Lucrécio, autor em que já se pode encontrar uma protoideia da seleção natural. Note-se, apenas uma protoideia, já que ainda não se identifica a ideia em si, formada inteiramente, mas tão somente uma predisposição histórica de uma teoria moderna.  Em outras palavras, em Lucrécio podemos encontrar vestígios de um estilo de pensamento, resquícios ou ainda fragmentos de um modo de raciocinar sobre o esforço pela sobrevivência e a permanência do mais apto.

Há pouca informação sobre a vida de Lucrécio (99-55 a.C). Historiadores acreditam que ele tenha vivido a maior parte dos seus 44 anos de vida na cidade de Roma e arredores. Lucrécio foi o responsável por reviver os pensamentos de filósofos gregos como Empédocles, Anaximandro, Demócrito e Epicuro que nessa época jaziam apagados pela influência platônica e estoica. Ele conectou essas reflexões antigas com suas próprias observações da natureza, e, assim sendo, foi capaz de escrever sua obra De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas), escrita na forma de poema e compondo um total de 7400 versos divididos em cinco partes, cada uma destinada a um tema específico. É na parte V que Lucrécio discorre sobre a formação do mundo, da vida e seu desenvolvimento. Fala também da infinitude do universo, além de conter fragmentos discutindo a luta pela sobrevivência⁴.

Como ilustrado na imagem a seguir, é possível perceber que Lucrécio utiliza como fonte e inspiração para sua obra diversos autores: da primeira fase do período naturalista da filosofia grega, ele trabalha com conceitos de Anaximandro; dos materialistas iniciais, Lucrécio se fundamenta em Empédocles e Demócrito; e, finalmente, do período materialista tardio, ele bebe da fonte de Epicuro. A partir do seu trabalho de  compilação, extração e síntese de trabalhos clássicos Tito Lucrécio Caro consegue escrever sobre inúmeros temas da filosofia natural. 
          
Sistematização dos períodos da filosofia grega |  Henry Fairfield Osborn (1929), From the Greeks to Darwin

Assim como Demócrito e Anaxágoras, Lucrécio acreditava que os seres vivos originavam-se diretamente da terra através da abiogênese ou geração espontânea, ou seja, que os organismos eram concebidos naturalmente a partir de matéria orgânica ou inorgânica, como se estas apresentassem o princípio ativo da vida. Por outro lado, da mesma maneira que Empédocles e posteriormente Epicuro, Lucrécio entendia que alguns desses seres originados da terra mostravam-se incapazes de sobreviver e eram, assim, substituídos por outros. Apenas aqueles que tinham as capacidades necessárias ao ambiente ou, ainda, aqueles que eram acoplados ao seu meio conseguiam sobreviver e gerar descendentes. 

Em De Rerum Natura, o autor expressa sua concepção da origem da vida através da geração espontânea aleatória. Esse caráter de aleatoriedade faz com que muitos seres surjam sem as estruturas necessárias para a sobrevivência e que outros não consigam crescer ou chegar até a maturidade. Ele destaca, nesse sentido, três características necessárias para sobrevivência das criaturas: alimentação, formação das sementes geradoras e o sexo. Lucrécio acredita em uma certa ligação entre as linhagens que sobrevivem; partindo do organismo originalmente formado até os que vemos atualmente, o sopro da vida foi protegido do início ao fim. O autor chega até a tecer algumas palavras sobre as transformações que a espécie humana foi sofrendo ao longo do tempo, de um tipo mais selvagem até os tipos modernos. Consegue perceber alguma semelhança com aquilo em que acreditamos atualmente?

Porém, é preciso ter cuidado com conclusões precipitadas. É fundamental relembrar que Lucrécio não acreditava na origem comum da vida, não aceitava algo parecido com a árvore da vida. Ele entendia que todas as espécies tinha sua origem especial: aquelas que não conseguiam sobreviver eram extintas, enquanto aquelas que conseguiam davam seguimento a suas linhagens. Existe, portanto, segundo ele, uma certa luta pela sobrevivência, na qual só alguns organismos permanecem na Terra. Contudo, em seu poema, o autor não aceita a transformação de uma espécie em outra, mas apenas transformações dentro da mesma espécie, já que cada espécie teria sua criação especial através da geração espontânea. 

Não podemos esquecer que Lucrécio era um homem de sua época. Compartilhava de um certo estilo de pensamento e participava de um coletivo específico de pensadores. Não podemos caracterizar seu pensamento como darwiniano ou darwinista, muito menos como evolutivo, já que esses modos de pensar só foram desenvolvidos muitos séculos depois. Lucrécio não expressa um pensamento evolutivo, mas sim anti-teleológico e mecanicista, uma oposição direta ao platonismo dominante em sua época. Lucrécio se vale do esforço pela sobrevivência e das extinções para explicar a adaptação de categorias de seres formados por geração espontânea, desenvolvendo uma escala de perfeição, o que constitui pensamento muito diferente do que hoje entendemos como evolução.

É preciso ter em mente que nem todo esquema que apresente extinções em sua formulação pode ser caracterizado como evolutivo². Enquanto atualmente as extinções entram como um conceito importante dentro do arcabouço evolutivo, antes de Darwin e Wallace a extinção era um argumento dos criacionistas contra a evolução, já que, se as criaturas pudessem se adaptar evoluindo em face das mudanças ambientais, não veríamos extinções de espécies no registro fóssil, não é mesmo?

Atualmente o conceito de seleção natural é definido pela união das seguintes afirmações: 1) Há uma imensa variabilidade nas populações naturais; 2) grande parte dessa variabilidade é herdada; 3) o sucesso na luta pela sobrevivência é dependente dessa constituição herdada; 4) essa sobrevivência desigual, ou reprodução diferencial, é o que constitui o processo de seleção natural. Lucrécio pensou em pelo menos uma dessas características, construindo assim as bases para aprofundamentos posteriores.


Referências Bibliográficas:

¹Darwin, Charles. A Origem das Espécies. 6. ed. Portugal: Planeta Vivo, 2009.

²Campbell, Gordon Lindsay, et al. Lucretius on creation and evolution: a commentary on De rerum natura, book five, lines 772-1104. Oxford University Press on Demand, 2003.

³Lucretius, Titus. On the Nature of Things. Tradução, introdução e notas de Martin Ferguson Smith. Indianapolis and Cambridge, Hackett. 2001.

⁴Greenblatt, Stephen. A virada. Editora Companhia das Letras, 2012.

2 de abril de 2019

Procrastinação tem uma explicação?

Por: Karen Gruhn

Fonte:  Amy Rigby

Você tem uma tarefa a cumprir em um determinado prazo, mas o que você faz são muitas outras coisas exceto essa tarefa. Esse comportamento costuma ser chamado de procrastinação, que também pode ser definido como o atraso voluntário de uma atividade necessária ou importante, apesar de se esperar que as possíveis consequências negativas superem as consequências positivas do atraso.

Para algumas pessoas, a procrastinação pode se tornar problemática, resultando em ansiedade, queixas físicas e diminuição do bem-estar. A literatura científica reporta que os estudantes que procrastinam regularmente tendem a receber notas mais baixas nos exames finais, e esses alunos têm menos sucesso em seu curso de graduação. No entanto, embora sejam difundidos os aspectos negativos desse comportamento, há casos em que a pressão criada pela procrastinação pode melhorar o desempenho. Ainda assim, poucos estudos investigam os benefícios desse hábito.

Estudos revelam que o ato de procrastinar é uma condição altamente comum, especialmente entre estudantes do ensino médio e universitários, e ocorre independentemente dos distintos valores culturais, normas e práticas nas diversas populações humanas. Além disso, existem poucos estudos em relação ao seu tratamento, sendo necessárias novas pesquisas e ensaios clínicos para fornecer tratamentos psicológicos eficazes.

O pesquisador Piers Steel explica em seu livro The Procrastination Equation¹ a base neurobiológica da procrastinação e, ainda que seja uma aproximação de como funcionaria, ele a descreve como uma equação complexa constituída pela interação entre o sistema límbico e o córtex pré-frontal. Elucidando essa questão, o sistema límbico é rápido e definitivo e ajuda nas rápidas tomadas de decisões; por outro lado o córtex pré-frontal é o lugar onde surgem o planejamento e os benefícios futuros, ou seja, leva em consideração as decisões feitas a longo prazo. Desse modo, a procrastinação ocorre quando o sistema límbico veta os planos de longo prazo do córtex pré-frontal a favor do imediatismo. Quando os eventos próximos recebem esse impulso avaliativo do sistema límbico, a vivacidade aumenta e a atenção é focada nos aspectos imediatos e consumíveis como, por exemplo, em que se pode cheirar, ver, ouvir, tocar e provar.

Assim, muitas vezes qualquer atividade é adiada até que esteja próxima ou concreta o suficiente para receber um aviso do sistema límbico de que o tempo realmente está se esgotando. A partir deste momento, em que ambas as estruturas do cérebro estão finalmente chegando a um acordo, que é a hora do desespero, você passa até o último minuto escrevendo aquele trabalho que poderia ter feito há mais de uma semana. 

Para vencer a procrastinação, muitas ferramentas foram criadas e são de fato bastante úteis. Uma dessas ferramentas se chama "Pomodoro", sendo uma técnica inventada por Francesco Cirillo na década de 80 e ainda hoje amplamente utilizada e muito eficaz. Essa técnica consiste basicamente em marcar o cronômetro para 25 minutos e desligar todas as interrupções e, então, focar na sua atividade. Quando acabar o tempo, é a hora do relaxamento mental, pois é importante dar uma pausa, permitir ao cérebro mudar o foco de uma forma agradável por um algum tempo, embora essa pausa deva ser breve, de 3 a 5 minutos no máximo. Após fazer quatro pomodoros, ou seja quatro ciclos de foco total, é importante dar uma pausa mais extensa de 15 a 30 minutos, e depois disso é possível retornar ao ciclo inicial e repetir o processo.

Como funciona a técnica pomodoro em cinco passos | Fonte: Ederson Melo

Portanto, ao que tudo indica, adiar ou prolongar uma situação para ser resolvida depois é uma conduta praticada pela grande maioria das pessoas sem qualquer discriminação cultural. Sabe-se que o processo evolutivo exerceu um papel determinante em estabelecer a interação de instinto e razão, a qual permitiu a existência da espécie humana como a temos atualmente, incluindo a procrastinação. Desse modo, todos estamos sujeitos às interações neurobiológicas que nos foi destinada, porém é possível utilizar ferramentas para ludibriar nosso cérebro e buscar alcançar nossas metas a longo prazo. 

Referência:

¹ S. Piers. The Procrastination Equation. Estados Unidos da América. New York: Harper, c2011.