Logo



Menu

Posts Recentes



5 de dezembro de 2019

A evolução te dá asas


Fonte: Projeto Albatroz
“Aprender o segredo do voo de um pássaro era como aprender o segredo da magia de um mágico. Depois de conhecer o truque, você vê coisas que não percebia quando não sabia exatamente o que procurar” Traduzido de Orville Wright.
Texto escrito por: Bianca Bennemann, Bruna Bianchini e Camila Torres

Em um dia ensolarado, onde quer que estejamos – na cidade, na praia ou no meio da mata – é possível olhar para o céu e observar belas aves sobrevoando acima de nós, utilizando dessa capacidade para se locomover, se reproduzir, caçar, fugir de predadores e até mesmo realizar longas migrações. Você já se perguntou, ao ver uma ave se misturando com o azul do céu, por que ela pode voar e você não? Talvez até já tenha se perguntado como esses animais conseguem voar, mas sabe quais adaptações permitem que isso ocorra?

Bom, antes de começarmos a falar sobre o voo das aves, precisamos explicar a  origem desses animais. Existem diversas hipóteses sobre o surgimento desse grupo e a mais aceita atualmente é a “Teoria Dinossauros-Aves”. Proposta inicialmente por Huxley (1868-1870), ela surgiu a partir do descobrimento do fóssil de Archaeopteryx lithographica em 18611 (Imagem 1), um dinossauro inserido no grupo Theropoda - assim como o tiranossauro, os velociraptores e deinonicos. Por se tratar de um dinossauro com penas, esse foi o primeiro indício que dinos e aves teriam um ancestral em comum. Posteriormente, outro fóssil foi encontrado, de um dinossauro também pertencente ao grupo Theropoda e com características similares ao primeiro, fortalecendo ainda mais a hipótese.

Essa descoberta afirmou a identificação filogenética sobre em qual grupo o ancestral comum estaria inserido. Sob essa perspectiva, as aves teriam surgido a partir da evolução de animais terópodes, com a aquisição de algumas características anatômicas e fisiológicas. Quem diria que os aterrorizantes dinossauros se transformariam em pequenas e coloridas aves?
Reconstituição ilustrada de um Archaeopteryx lithographica | Autor: James Reece
O voo evoluiu apenas duas vezes no reino animal: no filo dos Artrópodes e nos Cordados, respectivamente. Nos Artrópodes, o voo surgiu nos insetos, que em sua forma adulta, são os únicos invertebrados aptos a voar, enquanto no grupo dos Cordados, que inclui os animais vertebrados, essa característica é única de aves, morcegos e dos já extintos pterodáctilos. Isso nos mostra que voar não é algo tão simples assim. O voo possui um alto custo energético (ou seja, muita energia é gasta para o animal se manter no ar) quando comparado à outras formas de locomoção, como nadar, correr ou caminhar. Isso significa que voar precisa apresentar um benefício para o animal e, de fato, ele apresenta. O voo possibilita a fuga da predação do solo, um modo mais econômico de forrageio e permite a ocupação de um ambiente menos movimentado - a atmosfera, fazendo com que o grupo supere obstáculos geográficos.

A realização do voo exige a integração de praticamente todos os órgãos e processos biológicos, especialmente os sistemas sensitivo, respiratório, cardiovascular e até o digestório, isso tudo para uma única atividade. Ao falar de características morfológicas, imediatamente lembramos do alongamento dos membros superiores do grupo, o que possibilita a formação de asas. As asas são proporcionais ao tamanho do animal e sua forma está intimamente relacionada com o comportamento apresentado pela ave, por exemplo, aves mergulhadoras apresentam asas curtas e relativamente pequenas, enquanto aves marinhas possuem asas longas e pontiagudas3. As asas são formadas por um conjunto de penas, estas apresentam uma morfologia variada de acordo com a região do corpo em que se inserem. As penas são responsáveis não só pelo voo, como também pelo isolamento térmico e comunicação visual. E olha que curioso: penas possivelmente evoluíram das escamas de seus ancestrais dinossauros.

Para que possam bater suas asas e se manter nos céus, as aves necessitam de uma musculatura peitoral desenvolvida (Imagem 2). O músculo grande peitoral é maior e fica responsável por abaixar as asas durante o voo, enquanto o músculo supracoracóide tem a função de levantar as asas3. Além de músculos, as aves, e somente elas, possuem ossos bem diferenciados, chamados de ossos pneumáticos. Eles são ossos ocos, preenchidos com ar, o que faz com que o esqueleto do animal seja mais leve, facilitando o voo. Somado a isso, as aves possuem uma característica fisiológica fundamental: a respiração. Isso mesmo, o sistema respiratório das aves é diferente de todos os outros grupos de animais. 
Musculatura peitoral envolvida no voo | Fonte: Victor Cadenas (via slideshare)
As aves e outros grupos de vertebrados, incluindo nós, mamíferos, possuímos em comum diversas estruturas no aparelho respiratório, como as narinas, cavidade nasal, laringe, traquéia, brônquios e pulmões4. No entanto, existe uma estrutura muito importante no sistema respiratório de aves que não aparece em mamíferos: os sacos aéreos.  Os sacos aéreos são bolsas que se estendem dos pulmões e se localizam na região anterior e posterior do corpo do animal (até cinco anteriores e quatro posteriores). Eles possuem como função a ventilação do ar para os pulmões, tanto no processo de inspiração quanto no de expiração. Mas eles não realizam trocas gasosas (essa função é realizada pelos pulmões)! E olha só, existem estudos que demonstram que os sacos aéreos já estavam presentes em dinossauros! 

Além de diminuírem o peso do animal, os sacos aéreos garantem um fluxo unidirecional do ar, o que significa que não há mistura entre o ar rico em oxigênio que vem do ambiente e o ar que é expelido. O fluxo unidirecional também é comum aos répteis crocodilianos e alguns lagartos, mas esses animais não utilizam dessa adaptação para voar, sorte a nossa!Perdeu o fôlego com tanta informação? Pois é, dá uma respiradinha e vamos em frente! E por falar em respiração, vamos entender como funciona o mecanismo de inspiração e expiração nas aves. Basicamente, sua respiração ocorre em quatro ciclos, como mostrado na figura abaixo (Imagem 3).
Ciclo ventilatório em uma ave | Fonte: MOYES Christopher D.; SCHULTE Patricia M.

Para entender melhor, pense que a inspiração é marcada pela expansão dos sacos aéreos, onde os sacos aéreos posteriores são preenchidos com ar cheio de oxigênio (O2) vindo do meio externo, enquanto os sacos aéreos anteriores são preenchidos com ar vindo do pulmão e, portanto, com teor de O2 bem menor. Já na expiração ocorre o esvaziamento dos sacos aéreos, momento em que os sacos aéreos posteriores comprimem e expulsam o ar oxigenado que veio do meio externo para o pulmão, enquanto os sacos aéreos anteriores comprimem e expulsam o ar com dióxido de carbono (CO2) para fora da ave. Em altitudes mais elevadas, onde o ar é mais rarefeito (menos O2 disponível no ar) essa característica permite a elas lidarem com essas concentrações menores de oxigênio e sustentarem o voo em altitudes tão altas.

Mas você já deve ter ouvido falar de aves que não voam, como o pinguim, avestruz, a galinha e várias outras. E por que esses animais não utilizam suas asas para voar? Bem, como em todo o mundo animal, existem as exceções (aquelas espécies diferentonas). A principal causa para essas aves não voarem é a perda de um osso peitoral denominado quilha, onde se inserem os músculos responsáveis pelo batimento das asas durante o voo. Ainda não se tem clareza sobre o motivo pelo qual isso ocorre, porém um estudo recente  realizado na Universidade de Harvard demonstrou que a perda do voo está relacionada com uma série de mudanças na estrutura e comportamento do DNA desses animais. Mas isso não quer dizer que elas são menos adaptadas. Muito pelo contrário, é preciso entender que apesar de não voarem, elas estão adaptadas ao seu modo de vida e se dão muito bem sem o voo.

Bom, a essa altura você já deve ter entendido porque nós, humanos, não podemos voar. Se você quisesse sair voando por aí, além de uma respiração adaptada, precisaria ter membros superiores alongados e membros inferiores menores, um peso corporal relativamente baixo, músculos do peito desenvolvidos para sustentar o voo, penas e uma lista de outras características presentes em aves… Uau, melhor deixar o voo para as aves mesmo. Ainda bem que existe o avião e outros meios que voam por nós e nos dão um pouco da sensação do que é estar nas nuvens!

Referências bibliográficas

SHIPMAN, Pat. Taking Wing: Archaeopteryx and the Evolution of Bird Flight. Simon and Schuster: 1999.

RAYNER Jeremy M. V. Current Ornithology. 5ed. Plenum Press: 1983.

MOYES Christopher D.; SCHULTE Patricia M.. Princípios de Fisiologia Animal. 2ed. Artmed, 2010.

SCHMIDT-NIELSEN Knut. Fisiologia animal: adaptação e meio ambiente. 5ed. Santos, 2002.



10 de novembro de 2019

Todo biólogo é um bioinformata?


Fonte: UPMC  - Hillman Cancer Center Cancer Bioinformatics Services (link em hd - http://hillmanresearch.upmc.edu/images/cbsserv.jpg)

Texto escrito por: Vilmar Filho
Atualmente vivemos na era tecnológica, onde o acesso à informação é agilizado e facilitado pelos smartphones e pela internet móvel. Você já parou para pensar quanta informação recebe em um dia? Todo esse grande volume de dados gera opiniões, discussões e mais dados, que repetem este mesmo ciclo. Com a ciência não é diferente: a cada ano se produz mais e isso nos leva a novas discussões, mais pesquisas, novas hipóteses e… mais conhecimento científico. Um estudo de revisão do tema realizado por Bornman e Mutz, em 2014, mostrou um crescimento exponencial na produção científica e no número de citações a cada ano.

O número de citações de uma pesquisa reflete seu impacto na comunidade de cientistas, ou seja, uma pesquisa é citada se ela é inovadora ou gerou novas dúvidas; alimentou novas hipóteses; novos experimentos e, com todo este processo, mais conhecimento é gerado. Com base nisso, a partir da década de 60, segundo esses mesmos autores, o desenvolvimento regular da produção científica permitiu estabelecer uma projeção de crescimento de 8 a 9% ao ano. Ou seja, dobra-se a produção científica global a cada 10 anos!

Interessante, mas o que isso tem a ver com a biologia? Bom, em princípio, tudo. A tecnologia nos permite, cada vez mais, gerar, organizar e analisar dados por meio de computadores (in silico) e isso caracteriza o papel de um bioinformata. A partir do aprimoramento de técnicas e desenvolvimento de tecnologias, gera-se um volume gigantesco de dados, que precisam ser analisados e organizados de forma a contribuir para o avanço científico. 

Mas que tipo de dado um biólogo pode gerar? Variados! Imagine Carolus (Carl) Linnaeus (1707-1778) - cientista do século XVII, pioneiro na classificação dos organismos com base em suas características (ramo da biologia que chamamos de taxonomia), que nomeou diversas espécies, inclusive a nossa (Homo sapiens). Realizava suas primeiras observações, analisava o mundo com a curiosidade de uma criança, identificava características de plantas, percebia as diferenças de estruturas as quais ele próprio teve que nomear. Depois de nomear, ele começava a observar e agrupar as plantas com características parecidas. Hoje, Linnaeus organizaria estas informações em bases de dados e criaria suas árvores filogenéticas baseadas em características morfológicas e moleculares. Hoje ele seria um bioinformata.

Para além da classificação das formas de vida, após a popularização das técnicas de sequenciamento de DNA  passou-se a gerar um volume crescente de dados a cada ano, que inicialmente, diziam (de várias formas) apenas: A,T,C,G. 

Voltamos ao ciclo dos dados, onde se guarda tudo isso? 

Foi feito um acordo entre 3 bases de dados, protocolado em 1987, que estabelecia uma base de dados comum (inicialmente apenas de nucleotídeos), chamada INSDC (International Nucleotide Sequence Database Collaboration),  garantindo que todo dado sequenciado e publicado esteja disponível para a comunidade científica em uma das 3 bases do acordo - GenBank dos EUA, Arquivo Europeu de Nucleotídeos (ENA), alocado no Instituto de Bioinformática Europeu (EMBL) e o Banco de dados de DNA do Japão (DDBJ). 

Quando o genoma humano -  que consiste na sequência de DNA completo de da espécie, contendo toda informação necessária para manter esta forma de vida -  foi publicado em 2001, era o genoma humano. Pois era o único, deu um grande trabalho, custou muito e levou anos. Com o tempo, as técnicas de sequenciamento foram aprimoradas e ficaram mais baratas (Gráfico 1), permitindo que muitos outros genomas humanos fossem sequenciados, ultrapassando inclusive a projeção da Lei de Moore. Esta lei, postulada por Gordon Moore em 1965 - que estava abismado com o rápido crescimento da capacidade computacional das máquinas - determinou que a eficácia de processamento dobraria a cada 18 meses, mantendo seu custo. Com o tempo, utilizou-se esta métrica para toda e qualquer tecnologia com potencial crescimento inventada pela humanidade.

Hoje, o primeiro genoma humano é um dos 50 milhões de genomas humanos (estimado), alocados no INSDC, que mostram toda a variedade genética (sequenciada) da nossa espécie (Gráfico 2). Muitas vezes as coisas precisam ser redescobertas na ciência, e as novas tecnologias podem apenas confirmar resultados já obtidos, como o mapa genético da mosca-das-frutas, Drosophila melanogaster.

Em 1909, Morgan e colaboradores realizaram experimentos cruzando moscas em laboratório. Os cruzamentos forneciam proles variadas, algumas moscas aparentemente comuns, outras com algumas características peculiares, que as diferenciava das demais (cor do olho, formato de asa, cor do corpo), estas foram chamadas de mutantes. Os cientistas passaram a cruzar estas moscas diferentes e ver como as mutações apareciam nas proles. Se sabia como as características eram passadas de geração em geração (herança genética) - graças aos trabalhos de Mendel com ervilhas. Porém, a medida que realizavam cruzamentos, mais indivíduos mutantes apareciam e alguns com mutações frequentemente associadas - de forma que os cálculos não concordavam com a teoria Mendeliana. Assim, em 1911, Morgan propôs que estes genes mutados estariam no mesmo cromossomo e devido a isso, estes estariam “ligados” - como ele mesmo propôs. Essas descobertas levaram os cientistas a fazerem algumas conexões lógicas: todas as moscas possuem o mesmo tamanho de cromossomos; elas possuem os mesmos genes (que são essenciais para definição das características) e estes possuem uma localização exata em cada cromossomo, do contrário o conceito de genes ligados não se aplicaria. 

Com estas bases, Morgan conseguiu estipular a distância entre os genes baseado na frequência com que se estes genes se “desligavam” um do outro. Isso ocorre em um processo conhecido como crossing over. Durante a formação dos gametas, os cromossomos se alinham e “trocam pedaços” (que contém genes), mas isso não ocorre sempre e nem no mesmo local. A lógica por trás disso é que genes mais distantes um do outro têm um espaço maior para que este fenômeno ocorra, e genes mais próximos, o contrário. Assim, a distância entre 2 genes do mesmo cromossomo foi estabelecida com base em quantos fenómenos de crossing over se espera que ocorram entre eles (probabilidade estatística) em consonância com as observações dos cruzamentos realizados em laboratório.
Em homenagem ao cientista, a unidade de distância entre genes foi cunhada como centimorgan - cM. Ao calcular a distância de vários genes, em 1913, Morgan e colaboradores propuseram o mapa genético da mosca-das-frutas, que consistia na distância dos genes em cada um dos quatro cromossomos da espécie. Quase um século depois, em 2000, o genoma da espécie foi sequenciado e o mapa genético foi confirmado com poucas correções.
Gráfico 1 - Redução do custo de sequenciamento por genoma ao longo do tempo desde a publicação do genoma humano. | Fonte: NIH (National Human Genome Research Institute), 2019.

Gráfico 2 - Número de genomas humanos sequenciados e previsões para 2020 e 2025 baseados na taxa histórica (azul) e na lei de Moore (laranja). | Fonte: ARK Investment Management LLC


O que se faz com tantas letrinhas?

Constrói-se o alfabeto, depois um dicionário, alfabetiza-se um computador, ensina-o a ler e escrever poemas, a apreciar as grandes obras e contá-las às crianças! Ou seja, é preciso extrair a informação destes dados e tornar compreensível para as pessoas. Para isso é preciso reconhecer os padrões, buscar as semelhanças e exibir as conexões. Neste sentido, desenvolveram-se programas que identificam características em sequências de DNA, RNA e proteínas. Desde os mais simples (que dizem se uma sequência parece ser codificante para uma proteína, ou programas que identificam padrões que endereçam uma enzima à alguma região da célula); até algoritmos mais sofisticados, que permitem simular interações de compostos com a estrutura tridimensional da proteína; e redes neurais (arquiteturas de processamento criados com base na estrutura neuronal de organismos)

que buscam predizer a função de proteínas pela comparação da estrutura 3D (Figura 1) das mesmas - haja visto que a forma diz muito sobre a função quando o assunto é proteína. 
Figura 1 - Estrutura parcial da enzima álcool desidrogenase 1 humana - evidenciando o sítio ativo ao centro, que metaboliza o álcool. Fonte: PDB, disponível em: http://www.rcsb.org/structure/2VNA 
A integração destes processos possibilitou a construção de diversas metodologias de análise in silico, que permitiram catalogar as variações genéticas comuns encontradas nas espécies; comparar sequências de DNA de indivíduos diferentes, identificar mutações e peculiaridades de cada indivíduo. Esses processos inclinam a pesquisa biológica, cada vez mais, à medicina personalizada - em que o tratamento de um paciente é adaptado à suas condições biológicas individuais. Neste sentido, o sequenciamento do genoma de um indivíduo, permite a identificação de genes mutantes associados à potencialidade de desenvolver alguma doença - como no famoso caso de Angelina Jolie. Além da identificação destes marcadores, pode-se cruzar diferentes perfis genéticos para analisar a possibilidade de rejeição à um transplante. Espera-se ajudar a selecionar medicamentos mais efetivos e definir doses mais seguras - reduzindo efeitos colaterais - futuramente. Assim, estas metodologias podem melhorar a expectativa e qualidade de vida das pessoas, combinando conhecimentos biológicos e tecnologia da informação.

Ao realizar testes in silico, menos animais são utilizados para testes (e os que são, obedecem normas de respeito aos direitos dos animais e com autorização de um comitê de ética). Além disso, o uso de algoritmos inteligentes na medicina personalizada permite melhores diagnósticos e tratamentos aos pacientes. Assim, se você ainda não se fascinou pela vida artificial, saiba que ela pode salvar vidas.

O trabalho realizado por computadores necessita de dados experimentais para refinar e melhorar a eficácia das predições e simulações. Contudo é preciso verificar se os padrões determinados por um algoritmo fazem sentido biológico. As máquinas executam, nós pensamos!

Deste modo, a bioinformática atua como eixo integrador de uma perspectiva ampla, é uma grande ferramenta que serve à toda pesquisa biológica. Como no exemplo de Linnaeus: atualmente há bases de dados de vários organismos, que fornecem informações para pessoas que não trabalham com bioinformática, mas que, por vezes, precisam refinar suas técnicas por meio de simulações e/ou análises em computadores, a fim de melhor realizar um experimento, por exemplo. Por outro lado, experimentos em bancada alimentam bases de dados, que fornecem matéria prima para treinar e desenvolver novos algoritmos, tornando a vida bela também in silico

Assim, podemos dizer que todo biólogo é um bioinformata. 

Será? 

Bom, é apenas um rótulo baseado na ferramenta que o biólogo usa, como disse Markowetz em 2017: “Biólogo de pipetas. Bióloga de microscopia. Bióloga de cultura celular. Você já ouviu algum desses títulos de emprego? Não, claro que não [...] são biólogos”.

18 de outubro de 2019

Ideonella sakaiensis: Uma bactéria aliada para combater o lixo plástico

Por: Lucas Garbo
Uma de muitas paisagens que encontramos nos dias de hoje | Autor desconhecido.

Todos nós já nos deparamos alguma vez na vida com uma campanha anti-resíduos. O problema do lixo plástico, em especial, é um dos que mais recebe atenção pelos conservacionistas. A produção deste material data de 1907, mas foi apenas em meados de 1950 que a comunidade científica compreendeu que esse era um dos grandes inimigos do meio ambiente. Entre 1950 e 2015, estima-se que a geração desse tipo de resíduo tenha aumentado 200 vezes.

Existem diferentes tipos de plástico, e o tempo de decomposição varia entre eles, mas todos eles possuem, no mínimo, 100 anos para serem totalmente reciclados do ambiente. Isso acaba gerando uma problemática ambiental gigantesca, fazendo com que cientistas no mundo inteiro busquem soluções alternativas para essa questão. 

O politereftalato de etileno (ou PET, para os mais íntimos), é utilizado para servir bebidas, na maioria das vezes, sejam elas refrigerantes ou sucos. Por esse fato, é um dos tipos de plástico que mais gera resíduo. De acordo com o jornal britânico The Guardian (matéria disponível aqui), 20.000 garrafas PET são produzidas por segundo. E fica pior. De todas essas garrafas sendo produzidas, menos da metade é destinado para a reciclagem, e dessas que vão, apenas 7% são transformadas em novas garrafas. 

Para onde vai todo esse lixo então? Estima-se que todo ano, entre 5 e 13 milhões de toneladas entram pelas comportas do oceano. Grande parte dessa poluição é ingerida pelos seres marinhos. Já existem alguns estudos que dizem que já estamos comendo plástico indiretamente, provindo da carne de peixes e outros seres marinhos. Uma pesquisa feita pela Fundação Ellen MacArthur estima que em 2050 o peso de plástico do oceano irá se igualar ao dos peixes (caso queira ler mais sobre, basta clicar neste link). De fato estamos diante de uma problemática gigantesca. 

Aumento da produção anual global (em bilhões de toneladas) ao longo do tempo |  OurWorldinData (disponível em https://ourworldindata.org/plastic-pollution).

Mas agora o ser humano possui um aliado inusitado na reciclagem/na degradação de lixo plástico: a bactéria Ideonella sakaiensis. Cientistas japoneses descobriram essa nova espécie de microrganismo, encontrada em uma usina de degradação de garrafas PET, na cidade de Sakai, Japão (artigo disponível aqui). De acordo com a publicação realizada pelo grupo de pesquisa, foram coletadas 250 amostras de sedimento, água e lodo provindos de uma fábrica de reciclagem PET. Esses substratos foram colocados em meios de culturas a onde a única fonte de alimento era o carbono advindo de uma fina camada de PET. Com isso, sobreviveram apenas as bactérias que conseguiam degradar e metabolizar o plástico. Essas bactérias foram então isoladas das demais e caracterizadas, até se descrever a nova espécie. 

Foto de microscopia eletrônica da bactéria. Observe os prolongamentos comunicantes que elas possuem |  Fonte: Grupo de pesquisa que descobriu a nova espécie.

Mas não para por aí. Os cientistas encontraram a molécula responsável pelo milagre: a enzima denominada ISF6_4831. Ela foi colocada em comparação com outras enzimas capazes de degradar polímeros (longas cadeias moleculares de carbono, entre eles se encontra o plástico). Após esse experimento, viu-se que a ISF6_4831 era incrivelmente específica e era boa apenas na degradação do PET. Isso mostra que é possível utilizar o microrganismo (ou a enzima diretamente) para reciclar e degradar garrafas desse material.

Esse tipo de pesquisa é muito interessante pois mostra que muitas vezes alguns problemas da sociedade conseguem ser diminuídos com o uso da incrível ferramenta humana denominada ciência. Grande parte da problemática do lixo plástico PET poderia ser mitigado com o uso de uma bactéria encontrada em uma usina de reciclagem no Japão. É claro que isso ainda é uma utopia, mas na medida do possível, é algo que podemos e devemos tentar atingir. É por essa e outras razões, que entende-se a necessidade de continuar com investimentos na ciência. Afinal, parece ser a melhor maneira para que a sociedade humana possa se desenvolver sustentavelmente. 

Referências

RITCHIE, Hannah; ROSER, Max. Plastic Pollution. 2018. Disponível em: <https://ourworldindata.org/plastic-pollution>

YOSHIDA, Shosuke et al. A bacterium that degrades and assimilates poly (ethylene terephthalate). Science, [s.l.], v. 351, n. 6278, p.1196-1199, 10 mar. 2016. American Association for the Advancement of Science (AAAS)

TANASUPAWAT, Somboon et al. Ideonella sakaiensis sp. nov., isolated from a microbial consortium that degrades poly(ethylene terephthalate). International Journal Of Systematic And Evolutionary Microbiology, [s.l.], v. 66, n. 8, p.2813-2818, 1 ago. 2016. Microbiology Society. http://dx.doi.org/10.1099/ijsem.0.001058.


30 de setembro de 2019

Rinite Cósmica: o PODCAST do Sporum!


LANÇAMOS UM PODCAST!

Para além dos nossos usuais métodos, finalmente entramos na podosfera para divulgar ciência! Semanalmente estaremos conversando com você no seu ouvidinho trazendo conteúdos científicos diversos.

Acesse o arquivo do episódio piloto salvo no google drive por aqui: https://drive.google.com/file/d/1ZLdaWVhhlIZz-nmMm6aLEa0I8lkV0Fjm/view?usp=sharing

Acesse também pelos sua plataforma preferida pelos links abaixo ou procurando por "Rinite Cósmica" nelas. (Desde já pedimos desculpas a você e a Neil Tyson por esse trocadilho infame e por outros que virão ao longo do episódio) .

Spotify: https://open.spotify.com/show/4mNT3yQgewkgX80hpvgTJ9





RadioPublic: https://radiopublic.com/rinite-csmica-WYYgj5
.
000 - a Terra não é plana, você que é chato
Bem-vindos ao podcast do Sporum, o Rinite Cósmica, que trará conteúdos científicos junto com (uma tentativa de) humor. No episódio piloto discutimos sobre pseudociência e teorias da conspiração, quais seus impactos sociais? como identificá-las? como contra-argumentar contra as pseudociências e teorias da conspiração? Ouça nossa discussão a respeito dessas questões. O podcast está disponível em diversas plataformas.
*esse episódio não foi patrocinado pela Grin.
Na mesa: Angelo, Alyson, Eduardo, Pedro e Raphael. Somos todos estudantes da UFSC e viciados em café.
Para qualquer assunto, menos spam, fale conosco por: rinitecosmica@gmail.com
Não sabe o que é Sporum?
  • Instagram: @sporumbiologia
Fontes das informações:
Sagan, Carl. O mundo assombrado por demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Tradução Rosaura Eichemberg. 1ª ed. São Paulo: Companhia das letras, 2006.
Crédito das músicas:
Kevin MacLeod (incompetech.com)
Licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0 –http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/
Editado por Raphael Silva

Saúde!