Logo



Menu

Posts Recentes



1 de fevereiro de 2018

O dia em que a Ciência forçou pássaros a assistirem TV

Ilustração de chapim-real (Parus major) | Autor: Basil Ede
Muitos dos animais impalatáveis (ou seja, que possuem um sabor muito ruim), tóxicos, peçonhentos ou venenosos possuem cores fortes e vibrantes, associadas muitas vezes com os padrões de manchas e listras pelo corpo que chamam a nossa atenção pela beleza exuberante. Engana-se, entretanto, quem pensa que esses animais andem por aí exibindo suas cores e desenhos com a ingênua intenção de que sua arte seja apreciada. Seus corpos indiscretos fazem parte de uma grande campanha publicitária para que predadores em potencial fiquem longe e não ousem se alimentar deles. Esse padrão de cores de alerta recebe um nome grande e feio: coloração aposemática, enquanto a estratégia em si é chamada de aposematismo.
Um polvo-de-anéis-azuis (gênero Hapalochlaena) com sua característica coloração aposemática. A quantidade de veneno dessa criaturinha simpática é o suficiente para matar mais de 20 seres humanos em poucos minutos | Autor: desconhecido
A eficácia dessa coloração aposemática em fazer com que predadores optem por deixar esses animais em paz é tamanha que, outros animais — que não são tóxicos, peçonhentos ou venenosos e são até bem saborosos se você usar os temperos certos — modificaram-se, ao longo de sua história evolutiva, de forma que seus corpos tenham tornado-se extremamente parecidos com os corpos dos animais que possuem a coloração aposemática, em uma forma de mimetismo que recebe o nome de mimetismo batesiano.

Porém, quando trata-se de aposematismo e mimetismo, uma peça parece não se encaixar: se todos os predadores precisam atacar suas presas (levando-as à morte na maior parte das investidas) para perceberem que isso é uma péssima ideia, seria então pouco provável que o aposematismo obtivesse algum sucesso em persistir como uma estratégia defensiva eficaz entre os animais, ou até mesmo chegar a desenvolver-se.


(A)

(B)
Na imagem (A), uma falsa-coral não-peçonhenta (Oxyrhopus guibei) mimetizando o padrão de cores e listras de uma coral-verdadeira (Micrurus corallinus) extremamente peçonhenta | Autores: Sacramento (Imagem A) e desconhecido (Imagem B)
Convenhamos, animais aposemáticos são alvos fáceis para até mesmo o mais incompetente e míope dos predadores e, diferente de algumas aves que utilizam as cores exuberantes para atrair a fêmeas, o risco que animais dotados de cores vibrantes correm ao estar tão expostos não é diretamente compensado pela possibilidade de deixar um maior número de filhotes. Então a incógnita manteve-se por muito tempo: como o aposematismo pôde ter emergido e obtido sucesso evolutivo e como persistiu, se, em um primeiro momento, ele nunca protegeu ninguém? Afinal, um sinal de alerta só é eficaz se o predador já souber o que aquilo significa, e, surpreendentemente, boa parte dos predadores não nascem sabendo que devem evitar animais com coloração aposemática, mas o fazem por algum motivo, até mesmo quando o animal em questão estiver apenas mimetizando um padrão aposemático (em outras palavras: imitando uma coloração chamativa).

Para entender esse dilema que alguns biólogos enfrentam há anos, é necessário recorrer a um pouco de imaginação e usar a fabulosa arte de contar histórias.

Imagine a seguinte situação:

Você é um chapim-real (Parus major). Você está há muitas horas sem alimentar-se e tudo o que seu bico tocou ao longo do dia não foi nada além de pedaços de pipoca mofada que tiveram de ser disputados arduamente com um grupo de pombos moribundos em uma praça melancólica e fria de alguma pequena cidade. Você é um animal versátil e sua dieta é bem variada, incluindo, às vezes, até mesmo parte de outros animais, como cérebros de morcegos e pardais desavisados. Infelizmente, para você, não é uma boa época do ano para conseguir alimento. Seu estômago ronca tão alto que você já não consegue mais escutar seu próprio canto. Eventualmente, você pega-se pensando em como as coisas seriam muito mais fáceis se tivesse nascido como um dos belos e inteligentes corvos (gênero Corvus). Eles passarão, você passarinho.

 Eis que então, já cansado de sentir pena (ou penas, no caso) de si mesmo, você nota que a vida aparentemente lhe deu uma colher de chá: no topo de uma pedra, próxima a você, repousa uma linda e colorida lagarta. Suas cores e seu padrão de manchas e listras são tão marcantes que fazem um letreiro neon com os dizeres “Por favor, eu estou aqui, venha me devorar!” parecer algo ridiculamente discreto e insignificante. Um único pensamento então lhe ocorre: “Hora do jantar!”.

Entretanto, você percebe que não é o único por perto com a intenção de encher sua moela. A poucos metros de você, outro chapim-real faminto observa atentamente o majestoso inseto. Não haverá diálogo, será uma competição, e você terá sorte se puder petiscar um pedacinho no final. Como a vida selvagem não dá espaço para a hesitação, ele parte para o ataque assim que nota sua presença, investindo precisamente contra o inseto. O seu adversário riria de você se pássaros pudessem rir.

Todavia, logo em seguida ao banquete, algo inesperado ocorre: o competidor repentinamente começa a chacoalhar freneticamente sua pequena cabeça, em espasmos repetitivos e intensos. Assustado, alça vôo desnorteadamente, em busca talvez, de uma fonte de água para aliviar o sabor horrível que agora predomina em seu paladar, mas sucumbe e despenca morto dos céus poucos metros depois. No fim das contas, o sabor da vitória não foi tão bom assim.

Outra lagarta, similar a que acabou de ser devorada, move-se despreocupadamente pelo gramado. Você até cogita atacá-la, mas desiste da ideia quando recorda-se do que houve com seu semelhante há poucos minutos. Você entendeu o recado que as cores passam: “Eu sou encrenca, não mexa comigo, idiota!”.

Satisfatoriamente você encontra algumas sementes e moscas por perto, e após a refeição, alça voo rumo à praça de alguma pequena cidade para roubar pedaços de bolacha de pombos moribundos.

Bem, a narrativa acima pode parecer um pouco exagerada, e propositalmente é, porém ilustra uma coisa que, a princípio, parece óbvia demais para ser levada em conta: assim como nós, seres humanos, os animais também podem aprender com os erros de outros animais. 



Em um experimento realizado com esses mesmos chapins-reais, pesquisadores usaram dois tipos de pequenos pacotes de papel contendo comida, dispostos em um local que simulava o ambiente natural dos pássaros: o primeiro foi marcado com cruzes e pouco destacava-se do ambiente, possuindo uma padrão mais críptico (isto é, um padrão camuflado); o segundo pacote, marcado com quadrados, contrastava com o padrão do ambiente e continha comida encharcada com fosfato de cloroquina, uma toxina suave e extremamente amarga que estimularia o processo de aprendizado associativo das aves da mesma maneira que dito no quadro anterior. Os pesquisadores dividiram então as aves em dois grupos: o primeiro grupo, antes de iniciar o experimento, assistiu a um vídeo em uma TV onde uma outra ave alimentou-se do pacote contendo a comida com a toxina, enquanto naturalmente reagia em desaprovação ao conteúdo desse pacote. O outro grupo de aves, logicamente, serviu como o grupo de controle, e participou do experimento sem passar pelo processo inicial com o vídeo. Isso permitiu aos cientistas reduzirem as chances de interferências no experimento e diminuiu a probabilidade de que os resultados obtidos pudessem ter sido uma mera questão de coincidência.


O resultado não foi uma surpresa. A maioria das aves que assistiu ao vídeo, rapidamente escolheu o pacote menos chamativo, enquanto entre as aves que não assistiram e, consequentemente, não estavam cientes dos “perigos”, o tempo para tomar uma decisão era maior, levando-as, na maior parte das vezes, à escolha do pacote contendo a comida amarga. Com esses dados e fazendo o uso de modelos matemáticos complexos para inferir a dispersão dessa informação dentro de uma população de predadores, os pesquisadores chegaram a conclusão de que a tendência dos predadores a evitar presas conspícuas (isto é, visualmente chamativas) após o contato com a informação desencorajadora (seja a natureza do contato direta ou indireta, como, por exemplo, ter observado a desgraça do coleguinha), resultaria em um cenário onde a quantidade de presas restantes no ambiente daria margem o suficiente para que a população de presas pudesse sobreviver, crescer e onde a coloração aposemática desenvolveria-se, tornando-a uma estratégia viável para evitar tornar-se o almoço de alguém. 

Esse comportamento, onde um chapim-real tornou-se ciente dos riscos em alimentar-se de um animal com coloração aposemática após observar os efeitos negativos do ato em outro indivíduo, passando a evitar o ato, é característico de um processo curioso chamado transmissão social.


A transmissão social ocorre quando uma mudança no comportamento de um indivíduo, ou uma informação (chamada informação social), é transmitida a outros indivíduos pelo convívio. Essas mudanças comportamentais são imitadas ou emuladas a partir da observação (onde ações diferentes são utilizadas visando um mesmo resultado), em um processo chamado aprendizagem social. Os motivos que levam à mudança de comportamento de um grupo podem estar relacionados às vantagens imediatas trazidas por sua execução ou ao próprio caráter social do ato em si, onde reproduzir um comportamento estreita a relação entre indivíduos de uma mesma população. Em outras palavras, agir de uma determinada maneira pode torná-lo descolado e fazê-lo ser socialmente aceito pelo bando. Essa transmissão social pode ocorrer tanto horizontalmente, entre indivíduos de uma mesma geração, quanto verticalmente, entre indivíduos da geração parental para a sua prole, e existem casos onde até mesmo entre indivíduos de espécies diferentes.

Etólogos (cientistas que estudam o comportamento animal) já identificaram essa transmissão de informação e aprendizagem social em diversos outros animais. Um dos casos mais famosos é o dos macacos-japoneses (Macaca fuscata), documentado por Kinji Imanishi na década de 50.

Na ilha de Koshima, no sul do Japão, uma jovem macaca foi vista retirando cuidadosamente a areia de suas batatas (que eram oferecidas pelos pesquisadores), lavando-as nas águas da praia. Algum tempo depois, outros macacos jovens estavam imitando aquele comportamento e, posteriormente, ensinando-o aos macacos mais velhos do grupo. Eventualmente, nas gerações seguintes, os macacos mais velhos (que foram ensinados pelos jovens) ensinaram os macacos mais jovens a lavar suas batatas. No fim, o comportamento, inicialmente observado em um único indivíduo, gradualmente espalhou-se pelo grupo de macacos da ilha, e lavar batatas nas águas da praia de Koshima havia tornado-se o esporte nacional.

Macacos-japoneses lavando suas batatas tranquilamente na praia. Acredita-se que o processo de lavar o alimento eliminava a areia, além de salgá-lo com a água marinha, tornando-o mais saboroso e mais fácil de comer | Autor: desconhecido

Essas diferenças comportamentais (tanto entre quanto dentro de uma mesma população) apontam que a informação social também pode atuar como um fator-chave para compreender mudanças no curso do processo evolutivo (como no caso de terem favorecido a emergência e persistência da coloração aposemática como estratégia defensiva) e, posteriormente, nos guia a um melhor entendimento de como isso pode levar às diferenças marcantes entre grupos de indivíduos de uma espécie.

Cetáceos e aves, por exemplo, possuem vocalizações e cantos diferentes dependendo da região geográfica habitada por suas populações; as preferências sexuais de fêmeas de moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster) podem ser transmitidas socialmente entre as fêmeas; corvos (gênero Corvus), macacos-prego (gênero Sapajus) e chimpanzés (Pan troglodytes) utilizam a informação social para confeccionar suas próprias ferramentas, enquanto galinhas (Gallus domesticus) e muitos símios possuem redes de aprendizagem social incrivelmente complexas. Até mesmo o processo de domesticação de cães e cavalos também relaciona-se com a transmissão de informação a partir da observação e imitação.

A quantidade de estudos que abordam a aprendizagem social e o papel da transmissão social na sobrevivência dos seres vivos cresce com o passar do tempo, levando a inevitáveis discussões fervorosas acerca da possível existência de culturas animais análogas à cultura humana. Seja como for, uma coisa é certa: a capacidade de construir e transmitir um conhecimento não é algo exclusivo de nossa espécie, e talvez apenas a complexidade desse processo seja diferente.


Você disse "lagarta na manteiga"? Corvo-do-havaí (Corvus hawaiiensis) usando graveto para "pescar" sua presa. Essas aves demonstraram ter muita facilidade em aprender esse comportamento uma com as outras | Autor: Ken Bohn/San Diego Zoo Global


22 de dezembro de 2017

Vírus compartilham genes com organismos de toda árvore da vida

Representação das trocas genéticas entre os grandes grupos de seres vivos | Julie McMahon      

Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Microbiology revelou que os vírus compartilham seus genes através de toda árvore da vida, desde microrganismos unicelulares conhecidos como bactérias e archaeas, até os eucariotos, grupo que inclui os seres vivos mais conhecidos como os animais, plantas e fungos. Esta descoberta é relevante pois reforça a importância dos vírus como agentes de diversidade biológica e também como “causadores” da evolução.

Vírus são seres que, em sua maioria, não conseguem se reproduzir sozinhos, precisando assim da maquinaria celular de um ser vivo para fazer cópias de seu material genético, o que os caracteriza como parasitas intracelulares obrigatórios. Por isso, os vírus são classicamente organizados de acordo com seus hospedeiros em: archaeovírus, bacteriovírus e eucariovírus, sendo esses grupos respectivamente vírus de archaeas, bactérias e eucariotos.

Porém, essa classificação não abarca toda a complexidade dos vírus, já que ela foca apenas no lado negativo dessa relação e também entende que, na maioria das vezes, existe apenas um único hospedeiro. Porém, há muito tempo já se sabe que os vírus podem saltar entre hospedeiros como no caso do HIV, um vírus que pulou dos chimpanzés para os humanos, e também no contexto do vírus H1N1, onde houve um salto das aves para nossa espécie. 

Como dito anteriormente, há sempre um foco na questão negativa relacionada aos vírus, em outras palavras, quando pensamos em vírus geralmente lembramos do mal que ele pode causar. Há um destaque excessivo no ciclo lítico, ciclo esse que ocorre quando os vírus rompem a membrana celular e as novas cápsulas virais produzidas são espalhadas possibilitando novas infecções. Entretanto, vírus frequentemente não ativam essa fase lítica, se integrando ao genoma celular muitas vezes de maneira benéfica, fornecendo genes úteis ao hospedeiro.

Além disso, muitos vírus infectam simbiontes bacterianos de células eucarióticas, como por exemplo no caso da microbiota dos seres humanos, ou ainda residem dentro do DNA de bactérias que podem se espalhar por um amplo espectro de hospedeiros. Essas interações vírus-célula que não geram mal algum aos hospedeiros, por não apresentarem os efeitos clássicos do ciclo lítico, tem sido pouco estudadas pelos métodos da virologia. Tais interações lançam uma névoa sobre o conceito tradicional de vírus e constroem a possibilidade de relações virais que compartilhem material genético simultaneamente com mais de um ramo da árvore da vida. 

Os pesquisadores Arshan Nasir e Gustavo Caetano-Anolles, ambos da Universidade de Illinois, e alguns colaboradores, conduziram uma pesquisa recentemente publicada, que compara estruturas proteicas dos vírus e dos outros organismos da árvore da vida. Os pesquisadores acharam centenas de regiões proteicas que estão presentes em todos os ramos da árvore da vida e, também, em vários tipos de vírus. Tais achados sugerem casos de transferência horizontal de genes, ou seja, diferente das transferências verticais onde os genes dos parentais passam para os descendentes, na transferência horizontal um novo material genético é adquirido na mesma geração, sem necessidade de reprodução, nesse caso, através da atividade viral.

Nesse sentido, tais achados evidenciam o papel importante dos vírus nos processos evolutivos como agentes da diversidade. Produzindo e compartilhando novos genes com uma inúmera diversidade de organismos através da teia da vida. E não se engane, nosso DNA também está cheio de genes virais!

5 de dezembro de 2017

Afinal de contas, a maconha mata neurônios?


A maconha, o baseado, a verdinha, ou como quiser chamar, é uma droga consumida pela nossa espécie há pelo menos 12.000 anos, os antigos chineses possuíam a planta em sua farmacopeia (conjunto de substâncias com uso terapêutico) há pelo menos 4.700 anos atrás. A maconha pode ser obtida da planta Cannabis sativa ou de sua “irmã”, chamada Cannabis indica, e consiste em folhas e flores secas que são fumadas ou ingeridas. A despeito dos efeitos visíveis amplamente conhecidos, como humor alterado, fome excessiva, ou “larica”, psicoses e relaxamento, seus efeitos sobre o sistema nervoso humano não são tão familiares para a população leiga, e são comuns os textos trazendo fatos suspeitos a respeito da maconha, tanto entre os defensores quanto entre os perseguidores da erva.

Mas o que a ciência tem a nos dizer a respeito do tema? 

O estudo dos componentes da maconha começou oficialmente em 1964, quando um grupo de pesquisadores de Israel, liderado pelo químico Raphael Mechoulam, publicou um artigo demonstrando o isolamento do principal componente ativo da maconha, o famoso “THC”. Após esses estudos pioneiros, começou uma verdadeira corrida científica para isolar os outros compostos, e vários foram identificados, dezenas de canabinóides são conhecidos hoje em dia, dentre esses vale a pena citar o “CBD”, conhecido pelo seu potencial terapêutico. Atualmente se sabe que o CBD, ou canabidiol, pode ser utilizado com sucesso em casos síndromes convulsivas e epilepsia.

Entretanto, na época do descobrimento desses compostos, não se tinha muita ideia de como eles deixam as pessoas “chapadas”. Na década de 90, foram identificados os receptores de nossas células nos quais os canabinóides da maconha produzem seus efeitos, tanto no cérebro quanto em outras partes do corpo. Esses são os receptores CB1 e CB2, localizados preferencialmente no cérebro e células do sistema imune, respectivamente. Assim, quando uma pessoa fuma um baseado, a fumaça chega aos pulmões, os canabinóides se dissolvem na corrente sanguínea e são levados para o corpo todo, se ligando em receptores específicos que produzem o efeito conhecido da planta.

E os neurônios?

Bem, o efeito da maconha sobre o cérebro, personalidade e saúde mental das pessoas é bastante discutido. Para começar, é importante já citar que o efeito tóxico da maconha sobre os neurônios é muito complexo, pois, como já citado, ela não é uma droga que contém uma substância, e sim dezenas. Por isso, é difícil determinar como cada um dos canabinoides produzem um efeito distinto e como estes se integram no efeito resultante. Mas muito conhecimento já foi acumulado na área, por exemplo: extratos puros de THC são capazes de induzir morte neuronal no hipocampo (região do cérebro), isso foi descoberto num estudo de 1998. Entretanto, no mesmo ano, outro artigo demonstrou efeito neuroprotetor e antioxidante do mesmo composto, em conjunto com o CBD.

Que confusão! De fato, esse tema pode ser confuso, quer dizer, é difícil dizer com certeza se a maconha mata ou não mata nossos neurônios, mas sabemos que alguns compostos, como o CBD, com certeza não matam, e inclusive têm um potencial terapêutico enorme para transtornos neurológicos e psiquiátricos. Outras drogas, como cocaína e álcool, por exemplo, são com certeza neurotóxicas, e sim, matam neurônios. Com isso, podemos afirmar que a maconha não mata neurônios, quem faz isso são alguns de seus compostos na forma isolada. Mas o problema não está apenas na morte neuronal, alguns transtornos psiquiátricos também podem estar associados ao uso.

Um aspecto importante do efeito da maconha é sobre os indivíduos com predisposição a transtornos psicóticos, como esquizofrenia. Diversos estudos já demonstraram que a maconha pode estar associada a esquizofrenia, e alguns até afirmavam que ela seria a sua causa principal, porém, mais recentemente, estudos mostraram que esse efeito ocorre apenas em pessoas com histórico de esquizofrenia na família, ou seja, que possuem predisposição à doença. Então, se você se encaixa nesse perfil, por favor, não fume maconha!

Image result for cannabis neurobiology

Apesar da miríade de conhecimentos populares a respeito da maconha, é importante lembrar que como é um tema costumeiro e polêmico, muitas pessoas dão suas opiniões sem a devida fundamentação. Por exemplo, dizer que “uma erva natural não pode te prejudicar”, é uma frase que está longe da verdade, isso é a falácia da naturalidade. Afinal, um dos pais da filosofia, Sócrates, morreu tomando um extrato de uma planta venenosa: a cicuta, ou inúmeros nobres e imperadores romanos também, e não há nada mais natural que morrer por uma picada de cobra etc. Ao mesmo tempo, não podemos demonizar a planta e dizer que ela “mata neurônios”, “causa esquizofrenia”, sem que estejamos por dentro da literatura científica da área, que é vasta. 

Assim, por mais que seja um tema complexo, é importante que a população esteja informada a respeito dos riscos do uso, bem como do potencial terapêutico de determinados compostos. Entretanto, apesar de algumas substâncias da planta possuírem esse potencial, não existe “maconha medicinal” (desculpem-me, entusiastas pró-maconha). O que existem são extratos que podem ser ingeridos, e de fato, estes possuem uma efetividade elevada para tratamentos de síndromes convulsivas e epiléticas, principalmente o CBD. Mas esse efeito não é encontrado na maconha fumada, apenas em extratos. Então, se você for fumar maconha, lembre-se que não está ingerindo um remédio, e sim uma droga.

27 de novembro de 2017

Plantas induzem lagartas ao canibalismo!

Lagartas de Spodoptera exigua, a espécie utilizada no experimento, alimentando-se em flor de crisântemo | Nigel Cattlin.

As plantas têm se demonstrado cada vez mais maquiavélicas. Não bastava escravizarem formigas, recrutarem vespas parasitoides para comerem seus inimigos vivos, enganarem polinizadores e até mesmo, segundo alguns, domesticarem os seres humanos. Agora foi descoberto, segundo um artigo publicado este ano, que os tomateiros, quando estão sendo atacados por lagartas, induzem-nas a cometerem canibalismo para se livrar do ataque. Uma jogada de mestre, com uma pitada de cinismo.

estudo foi realizado por John Orrock, Brian Connolly e Anthony Kitchen, da Universidade de Wisconsin (Madison, EUA). Já se sabe que plantas, quando estão sendo atacadas por herbívoros, lançam no ar substâncias químicas de alarme, como o metil-jasmonato. Essas substâncias, ao entrarem em contato com outras plantas, modificam a fisiologia delas, fazendo-as se prepararem para um ataque de herbívoros mesmo que esses ainda não tenham chegado. Trata-se, na verdade, de uma espécie de comunicação entre elas, como se uma dissesse “Alerta!!! Estou sendo atacada! Cuidado!!!”, e as outras, ouvindo essa mensagem, se preparassem para o ataque iminente, do jeito que as plantas podem. A maneira mais fácil e comum é a de sintetizar substâncias químicas que tornam as folhas desagradáveis para serem comidas, ou até mesmo tóxicas, como faz a planta de tabaco ao sintetizar nicotina (e nós, humanos “espertos”, fumamos essa substância de defesa).

Algumas lagartas de mariposa, apesar de serem principalmente herbívoras, às vezes cometem canibalismo, especialmente se a qualidade do alimento vegetal não for boa. O que Orrock e colaboradores perceberam é que tomateiros que eram expostos ao metil-jasmonato sintetizavam substâncias nas folhas que as tornavam mais indigestas, de modo que as lagartas que estavam sobre elas acabavam comendo outras lagartas e iniciavam o canibalismo mais cedo do que é comum para a espécie e com mais intensidade. Para a planta, isso é extremamente vantajoso, afinal, enquanto a lagarta está ocupada mastigando suas companheiras, ela come muito menos material vegetal. Além disso, tal comportamento reduz drasticamente a quantidade de outras lagartas sobre a planta, diminuindo muito a herbivoria.

Tomateiros que não haviam recebido o sinal de “alerta”, ou que receberam baixas doses de metil-jasmonato, até tentaram começar a sintetizar as substâncias que induziam ao canibalismo quando as lagartas eram colocadas sobre eles; porém eles já estavam atrasados e às vezes só conseguiam mudar alguma coisa no comportamento das lagartas quando já estavam quase completamente devorados. Esse estudo, junto de outros que vêm sido feitos ao longo dos últimos anos, demonstram como é importante, para as plantas, a comunicação. Plantas comunicam-se o tempo inteiro, e não só entre elas, mas também com animais, fungos e micro-organismos. Isso permite uma dinâmica na natureza que colabora com a estabilidade e equilíbrio dos ecossistemas, evitando, por exemplo, que herbívoros devorem demais um determinado grupo de plantas. Como dizia o Chacrinha, figura icônica da televisão brasileira que neste ano completaria 100 anos de idade, “quem não se comunica, se trumbica!”.

24 de novembro de 2017

A Arte Refinada de Detectar Mentiras

Professor de Astronomia e Ciências Espaciais na Universidade de Cornell e autor de dezenas de livros e da série Cosmos, o norte-americano Carl Sagan dedicou a vida ao desenvolvimento e divulgação da ciência. O Mundo Assombrado Pelos Demônios, um de seus livros, é o testemunho pessoal do seu caso de amor com a ciência.

Preocupado com a falta de conhecimento científico da população, Sagan, em um de seus capítulos, fala sobre um kit de detecção de mentiras.

Mas o que existe no kit? Simples: ferramentas para o pensamento cético. O pensamento cético se resume ao meio de construir e compreender um argumento racional e de reconhecer um argumento falso.

A questão não é se gostamos da conclusão que surge de uma cadeia de raciocínio, mas se a conclusão provém de uma base verdadeira.

Eis algumas das ferramentas:
•  Sempre que possível, deve haver confirmação independente dos “fatos”;
•  Devemos estimular um debate substantivo sobre as evidências, no qual haja a participação de todos os pontos de vista;
•  Os argumentos de autoridade têm pouca importância. As “autoridades” cometeram erros no passado e voltarão a cometê-los no futuro. Na ciência não existe autoridades, e sim especialistas;
•  Considerar mais de uma hipótese. Se alguma coisa deve ser explicada, é preciso pensar em todas as maneiras diferentes pelas quais esta poderia ser explicada. Após isso, precisamos pensar nos testes que poderiam servir para invalidar sistematicamente cada uma das alternativas. O que sobreviver tem uma chance muito maior de ser a resposta correta do que se tivéssemos simplesmente adotado a primeira ideia que prendeu nossa imaginação;
•  Tentar não ficar tão ligados a uma hipótese só por ser a nossa. Temos que nos perguntar por que a ideia nos agrada e compará-la imparcialmente com as alternativas.E após isso, verificar se é possível encontrar razões para rejeitá-la, senão outros o farão;
• Necessitamos quantificar. Se o que estiver sendo explicado é passível de medição, de ser relacionado a alguma quantidade numérica, seremos muito mais capazes de discriminar entre as hipóteses concorrentes. O que é vago e qualitativo é suscetível a muitas explicações. Há certamente verdades a serem buscadas nas muitas questões qualitativas que somos obrigados a enfrentar, mas encontrá-las é mais desafiador;
•  Se há uma cadeia de argumentos, todos os elos na cadeia devem funcionar (inclusive a premissa), e não apenas a maioria deles;
•  A Navalha de Occam. Essa maneira prática e conveniente de proceder nos incita a escolher a mais simples dentre duas hipóteses que explicam os dados com igual eficiência;
•  Devemos sempre perguntar se a hipótese não pode ser, pelo menos a princípio, falseada. As proposições que não podem ser testadas ou falseadas não valem grande coisa. Temos que poder verificar e reproduzir as afirmativas.
Sei que é tentador ficarmos satisfeitos com a primeira explicação possível de algo. Afinal, uma é muito melhor do que nenhuma. Mas o que acontece se pudemos inventar várias? Como decidir entre elas? Não decidimos; Deixamos que a experimentação faça as escolhas para nós.

É em parte por causa da falta de disseminar conhecimento sobre a detecção de mentiras, o pensamento crítico e o método científico que todos os dias pessoas acabam sendo enganadas por charlatões e comerciantes tendenciosos que utilizam da credulidade de seus “clientes” para tirar seu dinheiro e muitas vezes até a saúde. A credulidade pode matar.